07/02/2016 08h12 | Foto: Campos 24 Horas
Postado por: Fabiano Venancio
A cidade está com dezenas de pessoas em situação de rua, muitas resistindo em mudar de vida, levando em consideração que a rua proporciona a elas sensação de liberdade, não precisar dar obediência à família, aquisição de droga de forma mais fácil, sexo descompromissado, entre outros. Mas, mesmo assim, as instituições estão aí para ajudá-las a mudar, voltarem a ser um cidadãos com vínculos empregatícios e familiares. Prova isso são os Centros de Atenção Psicossocial (Caps-AD), um programa do governo federal, que tem como base o tratamento do paciente em liberdade, buscando sua reinserção social. As unidades são mantidas pelos municípios e, em Campos, tem registrado bons resultados.
Pelo Caps AD-3 Dr Ari Viana, de Campos, passam, diariamente, cerca de 80 pacientes, dos 18 aos 60 anos, homens e mulheres. A atual coordenadora da unidade, a assistente social Adriana Lopes, explica que não basta o governo acolher, fazer todo o acompanhamento e oferecer todas as condições de tratamento que cada um precisa, que vai além da questão do vício, como acontece em Campos. No caso do vício de álcool e droga, o paciente tem que querer mudar, ter força de vontade e só, a partir daí, as coisas fluem. Condições oferecidas para isso não faltam do município, segundo a coordenadora do Caps AD-3.
Campos 24 Horas – Para começar, como funciona o Caps AD-3?
Adriana Lopes – O Caps AD é um serviço aberto, de acolhimento e atendimento psicossocial, funcionando como regulador da rede em álcool e droga. O paciente que chega aqui é acolhido, tem acompanhamento, mas outras questões também são vistas e acompanhadas, como a social e a jurídica, de acordo com a necessidade. Não adianta só tratar a doença, porque muitas vezes a questão social, por exemplo, está muito ligada ao vício, ou seja, uma coisa se relaciona à outra, por isso a necessidade de cuidar do todo.
C24H – Atualmente quantos pacientes atendidos e qual é o perfil?
Adriana – Cerca de 80 pacientes circulam/dia aqui, das 8 às 17h. Não existe um perfil fechado, temos pacientes de todas as idades, mas a maioria hoje é homem e entre 30 a 50 anos. Temos pacientes com residência fixa e, também, muitos moradores em situação de rua, até de outros estados. Eles tomam banho, almoçam, participam de grupos de roda de conversa com equipe multidisciplinar, grupo de reflexão, grupo de redução de danos, além de oficinas de artesanato e música e fazem educação física no Jardim São Benedito com acompanhamento daqui.
C24H –
Mas e a parte clínica, como fica?
Adriana – Temos médico psiquiatra que trabalha o lado psico e, quando necessário, lançamos mão da parceria que existe com a Clínica de Reabilitação em Pedra Lisa ou outras clínicas no estado do Rio. Em caso de necessidade de atendimento para outras patologias, encaminhamos para a rede de Saúde. Aqui no Caps AD-3 tem leitos, mas não é um local de internação mais prolongada como uma clínica de reabilitação.
C24H –
Mas como se dá a internação temporária nestes leitos?
A
driana – São leitos de acolhimento, onde o paciente pode permanecer por até 72 horas. A maioria é paciente encaminhado pela rede, que podem estar em risco social (suspensão de território) e precisa por diferentes motivos, sair do ambiente onde está. Ele fica direto aqui fazendo a desintoxicação, já medicado e com a prescrição médica, participando de todas as atividades. A partir destas 72 horas acionamos a família e se ele não for de Campos, o encaminhamos para o CentroPop onde poderá ficar na Casa de Passagem ou retornar à sua terra.
C24H –
Você falou que o paciente é visto num todo. Que tipo de atendimento além do caso específico do vício?
Adriana – Como eu já disse, depois que ele sai do leito nesteas 72 horas, encaminhamos para o CentroPop, que vai fazer toda a triagem de na área social e ver suas necessidades. Os pacientes que estão sendo atendidos aqui e não ficam internados, também têm esse tipo de acompanhamento, tipo, se ele tem uma profissão é direcionado ao Balcão de Empregos, que quer estudar a um curso profissionalizante e por aí vai. Temos também uma parceria com o Instituto Federal Fluminense (IFF) para cursos e retorno à vida escolar, entre outros.
C24H –
E qual é o grau de aproveitamento deles diante das oportunidades?
Adriana – Em torno de 30%. Como eu disse no início, eles têm que querer, tem que ter força de vontade, não basta só o governo dar as alternativas, eles têm que querer agarrá-las. Infelizmente, a maioria dos pacientes é viciado em álcool, uma droga totalmente lícita e que os deixam mais debilitados. Sem falar que uma droga puxa a outra e com o álcool acaba acontecendo justamente isso. Mesmo assim a gente está aqui com assistente social, psicólogo, enfermeiro, técnico de enfermagem, psiquiatra, técnico de farmácia, além de estagiários em todas essas áreas para isso.
C24H –
São muitas histórias tristes durante todos esses anos, não?
Adriana – Infelizmente sim. Já tivemos aqui pacientes que bebiam acetona, perfume, desodorante e álcool de posto de gasolina, porque não tinham dinheiro para comprar a bebida tradicional ou, então, porque a tradicional já estava fraca e eles precisavam de algo mais forte. Esses pacientes são o caso que eu citei, que não pode ser acompanhado só no caso do vício, mas a saúde geral, porque está com várias sequelas.