
Uma declaração do diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segovia, publicada na sexta-feira (9) à noite, detonou uma nova polêmica no meio político.
A DECLARAÇÃO: Segovia sugeriu arquivar um inquérito em andamento contra Michel Temer em que o presidente da República é suspeito de favorecer uma empresa na prorrogação de contratos no porto de Santos.
A CONSEQUÊNCIA: Luís Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal, cobrou explicações. Quer saber se Segovia opinou sobre um inquérito "ainda não concluído, inclusive ameaçando de sanções o delegado responsável, que deve ter autonomia para desenvolver o seu trabalho com isenção e livre de pressões". Segovia ligou para Barroso, disse que foi mal interpretado e marcou uma reunião com o ministro, que é relator do inquérito no STF.
Veja a seguir fatos que precedem a polêmica e a repercussão:
Novembro de 2017
· Entra na reta final o processo de definição do substituto de Leandro Daiello no comando da Polícia Federal após quase 7 anos - período no qual foi deflagrada a Operação Lava Jato
· No dia 4, um domingo, o senador Romero Jucá e o ex-presidente José Sarney, ambos do PMDB, se reúnem com Michel Temer no Palácio do Jaburu. Sarney, que nega oficialmente o apoio, avalizou a Temer o nome de Fernando Segovia como novo diretor-geral
· No dia 8, Fernando Segovia é anunciado no cargo. Ele não era o nome preferido do ministro da Justiça, Torquato Jardim, a quem a PF está subordinada. Seu nome foi apoiado por políticos
· No dia 10, Leandro Daiello deixa o comando da PF
· No dia 20, Segovia assume oficialmente a direção da PF. Ao tomar posse, disse que "Temer continuará a ser investigado, sem nenhum problema", mas colocou em dúvida se "uma única mala" é suficiente para apontar se Temer praticou corrupção
As suspeitas contra Temer
· Temer foi alvo de duas denúncias da Procuradoria-Geral da República em 2017. Foi acusado por recebimento de propina da JBS e por organização criminosa, mas as duas foram barradas na Câmara dos Deputados.
· Entre uma votação e outra, Barroso autorizou uma terceira investigação contra Temer, por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro na edição de um decreto no setor de portos, que está em andamento (saiba mais sobre o caso)
Janeiro de 2018
· No dia 3, Temer recebeu 50 perguntas formuladas pelo delegado delegado responsável pelo inquérito dos portos, Cleyber Malta Lopes
· No dia 15, Temer teve reunião com Segovia sem a presença do ministro da Justiça, a quem o diretor-geral da PF é subordinado
· No dia 18, Temer respondeu todas as perguntas. Negou recebimento de propina ou vantagens indevidas e, no dia seguinte, pediu o arquivamento do inquérito
· No dia 22, o ex-coronel da PM João Baptista Lima, amigo de Temer há anos, disse à PF que não poderia prestar esclarecimentos por motivos de saúde
· No dia 23, relatório parcial da PF incluído no inquérito apresenta um e-mail de uma empresa do setor de portos apreendido durante operação na casa de Rocha Loures, ex-assessor de Temer que ficou conhecido pela mala de R$ 500 mil da JBS
· No dia 29, Temer e Segovia se reuniram de novo. Novamente sem a presença do ministro da Justiça
Fevereiro de 2018
· No dia 4, a PF intimou o presidente da Caixa, Gilberto Occhi, a depor no inquérito que investiga Temer
· No dia 5, a PF intimou novamente o ex-coronel ligado a Temer a depor. A polícia tenta ouvir Lima desde 2017, mas ele sempre alega motivos de saúde para não comparecer
· No dia 7, o presidente da Caixa foi chamado ao Palácio do Planalto um dia após depor à PF no inquérito
· No dia 9, a agência de notícias Reuters divulga entrevista com Segovia. O diretor da PF diz que a investigação do caso do porto de Santos não comprovou pagamento de propina e deve sugerir o arquivamento do inquérito
· No dia 10, delegados da Lava Jato disseram que não referendam as declarações de Segovia, e o ministro do STF Luís Barroso cobrou explicações. Barroso afirmou que, em tese, as declarações de Segovia sobre uma investigação em andamento podem "caracterizar infração administrativa e até mesmo penal”
· No mesmo dia, Segovia divulgou carta em que nega ter falado em arquivamento e disse que a investigação sobre Temer não sofre interferência. Depois, ligou para o ministro do STF e marcou reuniãopara o dia 19, para se explicar pessoalmente
Bastidores do caso
· O delegado que investiga Temer, Cleyber Malta Lopes, é desafeto do diretor-geral da PF, segundo a âncora do Jornal da Globo, Renata Lo Prete. Quando Segovia era superintendente da PF no Maranhão, Cleyber presidiu um inquérito envolvendo a família Sarney
· Cleyber também atuou na investigação conhecida como "Quadrilhão do PMDB", que encontrou indícios de formação de uma organização criminosa envolvendo Temer e políticos do PMDB (Eduardo Cunha, Henrique Alves, Geddel Vieira Lima, Moreira Franco e Eliseu Padilha) na Caixa
· Desde que Segovia assumiu a PF, Temer discute com auxiliares, ministros e seu advogado como tirar Cleyber do inquérito que o investiga, segundo a colunista do G1 Andréia Sadi
· O presidente se irritou com as novas intimações do ex-coronel da PM João Baptista Lima e do ex-executivo da JBS Ricardo Saud e a intimação do empresário Joesley Batista no inquérito. Mas o que mais irritou o Planalto, segundo a colunista, foi o pedido para que uma investigação antiga - e arquivada - contra Temer fosse incluída no inquérito
(Correção: após a publicação desta reportagem, a agência Reuters corrigiu informação sobre arquivamento de inquérito contra Temer, mas manteve que diretor da PF diz não haver indício de crime nem de pagamento de propina. A informação foi corrigida à 1h23 de 11/2).