Juros: Empresários campistas reclamam das altas taxas

Atual taxa de juros compromete a economia local. Ao Campos 24 Horas, diferentes setores indicam consequências negativas para o comércio e indústria


  • 28/05/2023, 08h05, Fotomontagem: Campos 24 Horas.

Postado por Fabiano Venancio - Os elevados juros, com base na taxa Selic a 13,75% praticada no Brasil, tem causado impactos diretos na economia com retração no consumo, nos investimentos, nos negócios e na geração de empregos. Com juros altos, o consumo se retrai, o comércio se mantém desaquecido. Outro reflexo é a ausência de investimentos no setor produtivo. Com o encarecimento do dinheiro e a baixa demanda, projetos de instalação de novas plantas industriais são arquivados, assim como a expansão das linhas de produção pelo fraco volume de encomendas. Assim, a baixa geração de empregos é outra consequência inevitável. Ou seja, um conjunto de fatores se soma para impedir a roda da economia girar.  Em Campos, a situação não é diferente. O comércio e a indústria, assim como o setor de serviços, enfrentam a crise sem perspectivas com o cenário atual. A reportagem do Campos 24 Horas ouviu economistas e representantes de diferentes agentes econômicos do município que refletem a preocupação no plano local, como o presidente da Firjan/Norte Fluminense, Francisco Roberto de Siqueira, o presidente da Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic), Fernando Loureiro, o economista Ranulfo Vidigal e a presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza, Luiza Trajano.

Para o presidente da Acic, Fernando Loureiro, as altas taxas de juros representa “uma queda braço inglória para o consumidor porque o sistema financeiro busca auferir mais lucros e ganhos. “Com essa taxa Selic 13.75% tudo fica puxado pra cima”. (Leia mais abaixo)

— Os bancos e operadoras se baseiam nisso para cobrar o seu cartão de crédito, o crédito pessoal, isso eleva o custo operacional de qualquer empréstimo ou financiamento, gerando desconforto muito grande porque não temos uma previsão onde isso vai parar.

Loureiro acrescenta que o empresário não consegue investir e gerar emprego, em face das incertezas e os juros altos e as incertezas. “É muito ruim tanto para o comerciante como para o consumidor ou o empregador, que não se sente estimulado a investir. Se ele não investe o nível de emprego cai e o consumo cai numa economia gerida tecnicamente pelas taxas de juros que remunera este capital direcionado aos bancos e as grandes empresas de cartão de crédito, onde o consumidor paga uma tarifa do cartão, outra tarifa pela manutenção de sua conta, enquanto o comerciante sobre os juros do parcelamento. Quando o cliente não paga naquele período entra numa bola de neve, saindo daquele daqueles juros de 2% ou 3% e chega a esses juros de cartão até 7% e 8%, uma coisa escorchante, uma condição que se torna impagável”, analisou.

— É preciso montar este arcabouço e baixar juros para que a economia gire com mais velocidade. Com taxas de juros mais baixas o comerciante, empresário e o investidor em geral vão ter previsão para fazer um investimento ou uma operação. Hoje é muito difícil por conta instabilidade politica e financeira que faz com que as pessoas recuem. Ficam sem saber o que fazer, de forma que quem conseguiu conquistar seu capital fica com medo de perdê-lo de uma hora pra outra numa operação mal feita.

Comerciante do ramo de vestuário, o presidente se queixa da alta dos produtos que encomenda para repor os estoques. “Chegam a preços super majorados, inclusive acima até da própria taxa Selic. No segmento de vestuário tivemos em um ano majoração de até 30% a 40% em larga escala, por vários fatores, seja pelo custo da importação, escassez de produtos ou em razão da pandemia. Às vezes você vende uma mercadoria a R$10,00, e quando vai repor seu estoque já não consegue mais comprar nem pelos R$ 10,00 que você vendeu. Temos que criar uma estabilidade bem menos em juros para operacionalizar os negócios”.  

O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan/Norte Fluminense), Francisco Roberto de Siqueira, admite os impactos negativos enfrentados pelos setores produtivos com as altas taxas de juros, mas pondera sobre a importância do equilíbrio das contas públicas. Ao mesmo tempo considera fundamental a definição de regras com à aprovação do arcabouço fiscal.         (Leia mais abaixo)

“As taxas de juros elevadas é um dos principais problemas enfrentados pelos setores da economia, dado o consequente enfraquecimento da demanda e deterioração das condições de crédito. No entanto, falando pela Firjan, a Federação também reitera que a alta taxa de juros ainda reflete as expectativas para a inflação, que seguem acima da meta, e as inseguranças em relação ao equilíbrio das contas públicas. Por isso, é fundamental que o novo arcabouço fiscal seja aprovado, de forma a garantir a sustentabilidade da dívida pública e sem aumento de carga tributária”, disse Francisco Roberto.

O economista Ranulfo Vidigal considera que o arcabouço fiscal, aprovado esta semana pela Câmara dos Deputados e que passará agora pelo crivo do Senado, veio na direção do sentimento médio do mercado que agora, gradativamente, vai intensificar a pressão sobre o Banco Central, o que deve levar a uma redução gradativa da taxa Selic.

“Esta pressão vai começar após a aprovação do arcabouço, e já em agosto acredito que poderemos ter uma queda de algo em torno de 0,25%. E creio que no final de 2024 ela (a taxa Selic) esteja em torno de 10%. Ajuda, mas não resolve porque os efeitos da implementação de medidas em política monetária, como a redução de taxas de juros, é algo que demora produzir resultados. É alguma coisa para seis a nove meses”, analisou.

— Vamos ter uma redução gradativa de inflação, com esta política fiscal contracionista, uma trajetória de crescimento do PIB, mas ainda em bases insuficientes para reabsorver a sobra que restou da força de trabalho.

Ranulfo ponderou ainda que o governo terá dificuldades em superar a crise com a atual política fiscal nos moldes contracionistas e ainda porque tem pela frente uma adversa correlação de forças no Congresso, além de uma conjuntura instável no plano internacional. Tanto que o presidente Lula cumpriu uma intensa agenda no exterior por razões óbvias, avalia.   (Leia mais abaixo)

Como a situação aqui estava difícil, acrescenta o economista, Lula foi buscar acordos e investimentos na China para tentar implementar um programa de obras.

— A atual política fiscal é contracionista e não permite a expansão de investimentos do setor público, assim como impede a circulação de dinheiro nas mãos das famílias pobres, que são a maioria da população. São estratos sociais que precisam ser beneficiados não apenas com programas sociais, mas com obras de infraestrutura, programas de recuperação de rodovias, de saneamento básico e moradias, como o Minha Casa Minha Vida. Tudo isso distribui renda e gera emprego absorvendo uma força de trabalho ainda ociosa que há no país.    

A presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza, Luiza Trajano, defendeu nesta terça-feira 23 o corte da taxa básica de juros pelo Banco Central. Ao deixar um evento no Rio de Janeiro, Trajano foi questionada sobre sua animação a respeito do cenário de 2023. “Precisa baixar o juro”, respondeu a empresária.

Segundo ela, a expectativa é de “pelo menos um sinal” de redução da taxa na próxima reunião do Copom, agendada para 20 e 21 de junho. “Se não vier, vai ser muito triste. O pequeno e o médio estão sofrendo muito.”

A Selic, mantida pelo Comitê de Política Monetária do BC em 13,75% ao ano, também está no centro das críticas do governo Lula ao presidente da instituição, Roberto Campos Neto. A gestão federal vê o índice como um dos principais obstáculos para o crescimento. (Leia mais abaixo)

A taxa de juros da Selic a 13,75% é definida pelo Banco Central, através das reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária), formado por Campos Neto, e diretores, o que define a cada 45 dias a taxa básica de juros, a Selic.

Atualmente, Campos Neto, tem mandato até 2024, em razão da autonomia do Banco Central aprovada pelo Congresso Nacional, e até este período não pode ser exonerado pelo presidente Lula.  



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