Empresário diz que pagava propina para ex-secretário Edmar Santos

Ele também informou ter arrecadado quase R$ 1 milhão de subsistência para o então juiz federal Wilson Witzel, de quem participaria da campanha para o cargo de governador




13/01/2021, 13h26, Foto: Divulgação.

O empresário Edson Torres afirmou que pagava propina ao ex-secretário estadual de Saúde do Rio de Janeiro, Edmar Santos. (leia mais abaixo)


Segundo ele, o pagamento começou quando Santos era diretor do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). (leia mais abaixo)


As afirmações de Torres foram feitas durante sessão do Tribunal Especial Misto, que julga o impeachment do governador afastado do Rio, Wilson Witzel (PSC), na manhã desta quarta-feira (13).


Durante a sessão, Torres afirmou que era proprietário da empresa de segurança Dinâmica.


Segundo ele, a relação com Edson Santos se estreitou depois que este assumiu a titularidade da pasta da Saúde.


Indicação ao cargo

Torres afirmou que teve participação importante na indicação de Edmar Santos para o cargo de secretário de Saúde.


Segundo ele, Edmar pretendia se tornar reitor da Uerj e posteriormente deputado. No entanto, após a eleição de Witzel, sua meta mudou.


"Nós nos encontramos em um café da manhã no Hotel Hilton. Naquela ocasião, Edmar me pediu para apresentar o currículo dele ao governo recém-eleito. Entreguei o currículo ao pastor Everaldo, que o repassou ao Witzel e o Edmar acabou escolhido para ser secretário de Saúde".


Arrecadação para Witzel

Na audiência, Torres, que já prestou depoimento para o Ministério Público Federal e é ligado ao pastor Everaldo, afirmou ter participado de forma ativa na arrecadação de fundos para a campanha do então candidato ao cargo de governador, Wilson Witzel.


A ajuda, ele disse, já vinha antes mesmo de Witzel deixar o cargo de juiz federal.


"Juntamos um valor de quase R$ 1 milhão de subsistência caso ele (Witzel) não ganhasse a eleição. O valor foi pago até a desincompatibilização do cargo de juiz. Foram pagas algumas parcelas – uma delas, a Lucas Tristão. Outra foi entregue ao Everaldo em uma sala na Avenida Rio Branco 109, oitavo andar. Nessa ocasião, o então juiz federal estava presente".


Cedae

Durante o depoimento, Torres afirmou também ter pago propina à Companhia Estadual de Água e Esgoto (Cedae) quando esta era presidida por Jorge Briard.


Durante o depoimento, o empresário também afirmou ter tido participação direta na indicação de Hélio Cabral como presidente da Cedae.


"Tive uma relação pessoal de amizade e profissionalismo com ele ao longo dos anos e, na campanha, eu o indiquei para fazer o projeto político na área de saneamento e na área financeira da campanha. Houve uma relação de afinidade entre Hélio e o governador e ele acabou assumindo a presidência da Cedae".


Divisão da propina

O empresário detalhou como era feita a divisão das propinas pagas em contratos assinados na Secretaria Estadual de Saúde quando Edmar Santos assumiu o controle do órgão.


"Algumas Organizações Sociais (OSs) faziam pagamentos e quem cuidava da arrecadação (da propina) prestava contas e dividia proporcionalmente. Da arrecadação que se fez, do período de 2019 até maio ou junho de 2020, dos 100% arrecadados, 15% ficavam comigo, 15% com o (empresário) Vitor Hugo, 30% ficavam com o Edmar e 40% iam para o Everaldo e para a estrutura de governo".


Todos se reuniam com frequência semanal em escritórios localizados no Centro do Rio.

Segundo Torres, entre o início do governo Witzel, em janeiro de 2019, e meados de 2020, o esquema de propina arrecadou um valor que varia entre R$ 50 e R$ 55 milhões.


De propina, as organizações sociais pagavam percentuais que variavam entre 3% e 6% do valor dos contratos. Essas percentagens eram determinadas segundo o valor do acordo firmado com cada OS.


Questionado se parte da propina iria para Witzel, Torres disse não ter condições de responder.


Contrato fechado

Torres afirmou que, no início de 2020, Edmar Santos trouxe um contrato já fechado que foi apresentado à OS Iabas referente à pandemia do novo coronavírus.


"Ele colocou alguém para conversar com o Iabas sobre questão de participação em pagamento de propina".


Na sessão desta quarta, o tribunal ouve duas testemunhas:

Edson da Silva Torres, empresário;

Valter Ferreira de Alencar Pires Rebelo, presidente do PSC-PI.


Edson é ligado ao Pastor Everaldo, presidente do partido de Witzel, e admite ter iniciado os crimes no estado do Rio ao lado do comparsa em 1998, avançando em contratos com Detran e Cedae.


Valter é presidente do PSC no Piauí e nega ter integrado a organização.


Witzel ainda não será ouvido

O governador ainda não foi ouvido no processo. O Supremo Tribunal Federal (STF) determinou, a pedido de Witzel, que ele só poderá ser ouvido quando a delação premiada de Edmar Santos, ex-secretário estadual de Saúde, for tornada pública.


O julgamento era previsto para terminar em maio, mas o próprio Tribunal Especial Misto suspendeu os prazos do julgamento, após a determinação do STF. Com isso, não há prazo para o desfecho do processo.


Suspeita de corrupção

Na sessão, os recursos apresentados pela defesa de Witzel também serão julgados.

Witzel foi afastado do cargo em agosto do ano passado, suspeito de corrupção, pelo ministro do STJ Benedito Gonçalves.


Na decisão, ele diz que o MPF revelou uma“sofisticada organização criminosa, composta por pelo menos três grupos de poder, encabeçada pelo governador Wilson Witzel”.


Afastamento de Witzel: entenda

Ele teria recebido pelo menos R$ 554,2 mil em propina, por meio do escritório de advocacia de sua mulher, Helena Witzel. Ela transferiu R$ 74 mil para a conta pessoal do marido.


O esquema criminoso foi descoberto, segundo a investigação, com irregularidades na contratação dos hospitais de campanha, respiradores e medicamentos para o enfrentamento da pandemia do coronavírus.


Afastamento de Witzel: entenda

A Procuradoria-Geral da República (PGR) afirma que o governo do RJ estabeleceu um esquema de propina para a contratação emergencial e para liberação de pagamentos a organizações sociais (OSs) que prestam serviços ao governo, especialmente nas áreas de Saúde e Educação.


Fonte: G1