Postado por Fabiano Venancio/ Campos 24 Horas - A eleição de Douglas Ruas (PL) como governador do Rio em primeiro turno reserva algumas reflexões para a campanha de Eduardo Paes (PSD), prefeito da capital e candidato derrotado. É a segunda vez que Paes concorre ao Palácio Guanabara e sofre revés nas urnas. Independentemente de Ruas fazer parte de um grupo que surfa na onda bolsonarista dos últimos anos, onde o Rio emerge como berço desta corrente política, há ainda outros aspectos a serem considerados. Entre esses, o fato de que a força do interior não deve ser negligenciada numa campanha majoritária estadual.
Inegavelmente, Eduardo Paes construiu um respeitável capital político no município do Rio de Janeiro, onde moram mais de 4,9 milhões de eleitores. O eleitor do Rio lhe fez vereador, deputado federal e prefeito por quatro mandatos, sempre com excelentes índices de aprovação. Todavia, fora da capital enfrenta dificuldades em razão de algumas variáveis, entre elas as diferenças sociais e culturais entre as realidades da metrópole e do interior fluminense, onde há municípios com baixos índices de desenvolvimento humano.
Nos ambientes informais na cidade onde nasceu, o candidato do PSD sempre comparecia de trajes a caráter, com seu jeitão de carioca, torcedor do Vasco e da Portela, chapéu Panamá, sapatos e roupas também de cor branca. Estava ali o típico carioca da gema.
Quando visitava o interior, especialmente em exposições e feiras agropecuárias, trocava sua indumentária. Aderia ao estilo country, com calças jeans, bota e chapéu de couro, entre outros assessórios adequados ao ambiente do evento. Naturalidade que pareceu um tanto fabricada por sua equipe de marketing.
Entretanto, na prática da política com o pé no chão, quem melhor construiu alianças com o interior foi Douglas Ruas, pela força de seu partido e de sua campanha, que contou com o apoio de mais de 70% dos prefeitos fluminenses.
Dos 92 municípios, o governador eleito teve a adesão em 67 prefeituras, a quase totalidade controlada por prefeitos conservadores do interior onde habitam mais de 3,7 milhões de eleitores. Mas mesmo na Região Metropolitana do Grande Rio, onde estão quase 4,2 milhões de eleitores, Paes encontra reservas por parte do eleitor, especialmente da Baixada Fluminense, São Gonçalo e outros municípios de áreas periféricas em situações precárias, onde a população nele vê um representante do território mais privilegiado do Estado. A parte mais refinada de uma cidade cosmopolita.
Paes nasceu na capital e cresceu na Barra da Tijuca, onde foi subprefeito da Barra e Jacarepaguá, ainda no início da década de 1990, à época do então prefeito César Maia, de quem é discípulo. Ruas nasceu em São Gonçalo e acusava o adversário de não conhecer a realidade dos municípios mais pobres do Estado. Em sua propaganda política, ele assinalou e fez comparações de suas origens com as de Paes, se comprometendo a olhar com especial atenção para as periferias.
Outro aspecto importante: Eduardo Paes construiu uma campanha com forte presença na comunicação digital pelas redes sociais, uma linguagem adequada para o eleitorado das camadas urbanas.
Todavia, o interior requer uma outra forma de comunicação que passa pelo contato pessoal não apenas com os prefeitos, mas também vereadores, suplentes e outras lideranças locais no tête-à-tête ou olho no olho, a fim de ouvir de perto as demandas e necessidades da população.
O candidato do PL ficou com 50,88% dos votos válidos, em um total de 4.271.199 votos computados, e aparece como eleito no primeiro turno. Eduardo Paes (PSD) obteve 44,16%, o equivalente a 3.706,964 votos, e ficou no segundo lugar.
O resultado final veio após a retotalização dos votos com a anulação dos votos de Anthony Garotinho (Republicanos), cuja candidatura fora barrada pela Justiça Eleitoral.