
A morte da universitária Ana Paula Ramos(25 anos) chamou a atenção da população de Campos esta semana. A morte teria sido encomendada pela própria cunhada, uma pessoa que até então, aparentemente, vivia bem com a vítima, sem levantar qualquer tipo de suspeita. E o caso acabou suscitando muitas indagações. O que levaria uma pessoa a chegar ao extremo de matar outra tão próxima e “amiga”? Como ninguém desconfiar que uma pessoa pode cometer tamanha barbaridade? O
Campos 24 Horas ouviu a psicóloga e pós-graduada em psicanálise, Valéria Ramos. Ela não fala diretamente sobre o caso da universitária. Na entrevista a seguir, a psicóloga fala sobre a existência de vários distúrbios de comportamento que podem levar uma pessoa a atos de grande violência contra pessoas com as quais tem estreito relacionamento.
Estima-se hoje que cerca de 5% da população do país já seja considerada sociopata (sócio vêm do social e patia, doença do psiquismo) ou, como queira, psicopata. Não há nenhuma diferença entre os dois termos, que são sinônimos para um tipo específico de transtorno de personalidade. Os números assustam profissionais que trabalham com saúde mental, levando-se em consideração que a maioria dos que sofre desse mal não se identifica assim e, por isso, acaba não procurando ajuda. Não é a toa que casos de assassinatos aumentam na sociedade, deixando todos perplexos, já que muitos destes têm acontecido no meio familiar onde, aparentemente, tudo era tranqüilo e harmonioso.

A psicóloga e pós-graduada em psicanálise, Valéria Ramos, integrante da equipe da CLÍNICA CCRIAMSA, situada na Rua dos Goytacazes, 991, no bairro do IPS, explica que a partir dos 8 anos de idade já se pode começar a identificar certas características, como por exemplo, quando a criança trata um animal com crueldade ou, mesmo, quando o maltrata de certa forma. E, no caso do sociopata é preciso desmistificar que este seja alguém que tem baixo intelecto, o que é justamente o contrário. Ou seja, todo sociopata interage bem na sociedade e não tem problema intelectual.

- É comum se dizer que um indivíduo fez isso ou aquilo porque é um ignorante. Pelo contrário, os sociopatas são articulados, além manipuladores, dominadores e sedutores, usando a fragilidade do outro para seduzir. A última palavra tem que ser deles, têm facilidade de mentir, não sentem culpa do que fazem e, ainda, não aceitam perder. Além disso, têm dificuldade de afeto. Essas podem ser algumas das características, entre outras – explica a psicóloga.
O pior é que, segundo a especialista, a pessoa já nasce com distúrbios e eles não têm cura. O que pode acontecer é, se não tratado agravar e, quando tratado, estabilizar. Desta forma, com tratamento se consegue estabilizar momentos de fúria, melancolia, tristeza e outros. Hoje o grande desafio na clínica de saúde mental é identificar os diferentes transtornos no ser humano. Entre os transtornos de personalidade, destacam-se o transtorno obsessivo compulsivo, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de borderline, transtorno bipolar e outros que têm características semelhantes. Um pode ter traços do outro.
A pergunta que não quer calar é como identificar tudo isso numa pessoa. Valéria Ramos explica que, observando aqueles que não respeitam as normas estabelecidas, que não se encaixam em determinado grupo social, que têm dificuldade em lidar com os outros e muito mais. Neste caso a recomendação é que a família passe a identificar os traços, porque se esperar pela própria pessoa, isso não acontecerá. Ela nunca vai sentir que é diferente.
Transtorno bipolar – A pessoa com transtorno bipolar tem momentos de grande euforia e de depressão, além de, também, ter dificuldade de controlar suas emoções. Esta tem, ainda, problema de convivência interpessoal, mudança de humor e outras características. Um bipolar pode chegar ao extremo de matar, como um sociopata, mas vai se arrepender, ao contrário deste outro, que não se arrepende.
Transtorno de Borderline – A pessoa tem dificuldade de reconhecer a si mesmo, ou seja, ele não sabe quem ele é de fato. É o tal do “vazio imenso” que aflora. Tem, ainda, dificuldade de manter relações interpessoais e culpa o outro pelas suas insatisfações. Para esta pessoa não existe “meio termo”, é 8 ou 80. E ama e odeia ao mesmo tempo. Um borderline também pode chegar ao extremo de matar, como um sociopata, mas também vai se arrepender.
- A família é muito importante para identificar as características. E ainda é muito comum hoje a família dizer que tal paciente tem “personalidade forte”, ou então que “tem problemas de nervos”, entre outras desculpas para enfrentar o caso. Também não se pode confundir religião com os transtornos. Quem deve curar neste caso são os profissionais da área da saúde mental – finaliza a psicóloga Valéria Ramos.
Da Redação do Campos 24 Horas
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