Diversas drogas são usadas pela humanidade desde antigas civilizações e para diversos fins. Acredita-se que o álcool já fosse consumido enquanto bebida há mais de 10 mil anos por diversos povos, como celtas, gregos, babilônios e egípcios, especialmente em ocasiões especiais e cultos religiosos. As folhas de coca, das quais se extrai a cocaína, por sua vez, eram usadas pelos Incas cerca de três mil anos antes de Cristo, sobretudo para lidarem com os efeitos de viverem em altas altitudes.
Em 1955, o clordiazepóxido foi o primeiro medicamento benzodiazepínico produzido, tendo em vista seus efeitos terapêuticos ansiolíticos e relaxantes e, poucos anos depois, na década de 1960, o movimento hippie popularizou o consumo do LSD (dietilamida do ácido lisérgico) e suas experiências influenciaram a cultura daquela época. (Leia mais abaixo)
Assim, o consumo de drogas não é algo recente para a humanidade, mas falar sobre isso ainda é um tabu.
Definições Apesar de ser um assunto sobre o qual a população tem algum conhecimento, dependência química é algo complexo. Por isso, antes de começar a abordar o assunto, é importante conhecer e definir alguns termos:
Aqui, abordaremos a dependência química enquanto transtorno psiquiátrico, conforme estabelecido na Classificação Internacional de Doenças (CID-10) e no DSM-5. O CID-10 estabelece transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de substâncias, constituindo a síndrome de dependência. O DSM-5, que será utilizado aqui como referência, dedica um capítulo exclusivo aos transtornos relacionados ao uso de substâncias e transtornos aditivos.
Classes de substâncias O Manual da Academia Americana de Medicina agrupa em 10 classes as substâncias que podem causar dependência:
Diagnóstico As drogas, cada qual à sua maneira e conforme suas características bioquímicas, agem de forma diferente no organismo, mas todas ativam o sistema de recompensa no cérebro e produzem sensações de prazer – “barato” ou “onda”, como popularmente são chamadas. Apesar de aparentemente boa, essa sensação é passageira e faz com que o usuário use cada vez mais daquela substância, comprometendo seu desempenho em atividades cotidianas, como trabalhar, estudar e se relacionar socialmente. Quando a pessoa se dá conta (ou não, já que nem sempre há consciência disso), ela não consegue mais controlar o impulso de consumir aquela droga e passa a negligenciar outras atividades, firmando uma relação de dependência com aquela substância. (Leia mais abaixo)
Uma vez estabelecida a dependência química, vários danos podem ser observados com o curso do desenvolvimento da adição, em maior ou menor grau de comprometimento, a depender do tipo de droga e da quantidade de consumo. O indivíduo apresenta sintomas cognitivos (de atenção, memória ou aprendizado), comportamentais e fisiológicos, indicando o uso contínuo da substância mesmo com os diversos problemas relacionados a ela.
As alterações nos circuitos cerebrais causados pela droga podem persistir mesmo depois da desintoxicação, sobretudo em pessoas com quadros graves. Assim, os efeitos comportamentais dessas alterações cerebrais podem ser observados nas recaídas constantes e na intensa vontade de consumir drogas (conhecida como fissura) quando os indivíduos são expostos a estímulos relacionados a elas, podendo ser necessária uma intervenção terapêutica de longa duração. Da mesma forma, cada substância pode gerar sinais diferentes que indicam um transtorno.
O DSM-5, como dito anteriormente, separa os transtornos por uso de substância dos transtornos induzidos por substância, conforme a consequência desencadeada por cada tipo de droga. Esta última classificação compreende condições como intoxicação, abstinência e outros transtornos mentais. Além disso, o guia também permite a classificação do quadro clínico conforme os sinais e sintomas apresentados pelo indivíduo, variando de leve a grave.
Fatores de risco O consumo recreativo de drogas é um caminho para o desenvolvimento da dependência química. Em geral, ele acontece a partir da adolescência e tem grande influência do meio social, mas não acontece apenas dessa forma e nem só nessa fase. Em períodos de luto, de estresse ou de algum episódio traumático, a adição pode se constituir a partir do uso da substância como uma válvula de escape, como um alívio.
O desenvolvimento em ambiente familiar também tem grande influência na relação com as drogas, especialmente para adolescentes. Como já publicamos aqui, crianças e adolescentes que crescem em ambientes nos quais a relação familiar é conturbada e com muitos conflitos têm mais propensão ao consumo de crack. De modo oposto, lares com uma família mais integrada e em harmonia podem ser vistos como fator protetor em relação ao consumo de drogas. Apesar disso, a dependência química pode atingir qualquer pessoa, de qualquer família ou classe social. (Leia mais abaixo)
Além desses fatores sociais ou ambientais, fatores genéticos também podem se relacionar à dependência química, estabelecendo um caminho mais curto para a adição. Pessoas com outros transtornos mentais, como depressão e transtorno bipolar, podem buscar as drogas como via para aliviar seu sofrimento, aumentando, assim, o risco de desenvolverem dependência. Da mesma forma, pessoas que demonstram ter menos autocontrole podem ser particularmente predispostas a desenvolver transtornos por uso de substâncias.
Sinais Alguns sinais podem indicar um quadro de dependência química. O primeiro deles é a perda do controle do consumo da substância. Como dito anteriormente, uma vez que o controle em relação ao consumo da droga não pode ser feito pela pessoa, há grande chance de ela se encontrar numa condição de dependência. Isso fica mais evidente quando ela tenta por conta própria parar o consumo, mas não consegue fazê-lo sozinha, continuando a usar, apesar dos danos. Além disso, a pessoa também pode apresentar alterações do comportamento, tanto pelo uso da substância quanto pela abstinência.
O impacto social na vida do dependente químico também pode ser notado. Ele pode deixar de cumprir com suas obrigações de trabalho, ter comprometimento no aprendizado na escola ou na faculdade, e apresentar-se alterado em reuniões sociais, festas e eventos. Em alguns casos, também se verifica o isolamento social, de modo que a pessoa evita o contato com amigos e familiares e abandona atividades que anteriormente considerava prazerosas.
Cada tipo de droga induz sinais variados que indicam um transtorno por uso de substância – que também varia conforme o organismo do indivíduo. Resumidamente, podemos listar os seguintes sinais que indicam um possível caso de dependência química:
Tratamento O tratamento da dependência química deve ser conduzido por psiquiatra, psicólogo e outros profissionais, que puderem contribuir com cada caso individualmente, como terapeuta ocupacional e assistente social. É muito importante que o tratamento seja feito com uma equipe preparada, pois indivíduos que apresentam problemas com drogas podem apresentar abstinência ao interromper o uso. (Leia mais abaixo)
Abstinência é uma síndrome que ocorre quando as concentrações de uma substância no sangue ou nos tecidos do corpo humano diminuem em um indivíduo que manteve uso intenso prolongado. Assim, após desenvolver sintomas de abstinência, aquela pessoa tende a consumir a substância para aliviá-los, marcando um episódio de recaída.
Os sintomas da síndrome de abstinência variam de acordo com o tipo de substância e também com o indivíduo. A importância de se compreender a síndrome também se faz necessária quando, por exemplo, se deseja parar o tratamento com algum medicamento de uso controlado, como antidepressivos e ansiolíticos, os quais, se retirados abruptamente, podem causar a síndrome. Um “desmame” orientado por psiquiatra é fundamental para o sucesso terapêutico.
A intervenção farmacológica pode ser necessária para estabilizar os sintomas causados pela abstinência da droga e, em alguns casos, um medicamento pode ser usado para substituir a substância até que, num segundo momento, seja aos poucos retirado.
O apoio psicológico é fundamental para as pessoas com problemas com drogas e traz muitos ganhos. Seja com terapias feitas individualmente com psicólogos, seja em grupos para dependentes, como o Alcoólicos Anônimos (AA) ou Narcóticos Anônimos (NA), a pessoa pode voltar a desenvolver hábitos de uma vida saudável, restabelecer suas habilidades sociais e desenvolver habilidades socioemocionais e educativas que a afastem de recaídas. Em alguns casos, a internação em clínicas de reabilitação e outras estratégias de intervenção em modelo asilar também pode ser necessária.
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) também são importantes no suporte terapêutico e de atenção à saúde de pessoas com problemas com drogas. Os serviços dos Caps são de caráter aberto e comunitário, constituído por equipe multiprofissional e realiza prioritariamente atendimento às pessoas com sofrimento ou transtorno mental, incluindo aquelas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas. Dentre os modelos do serviço estão o Caps Álcool e Drogas (AD), especializado em intervenções relacionadas ao uso de substâncias, e o Caps III, que funciona 24 horas por dia e fornece acolhimento noturno, inclusive a pessoas com transtornos causados pelo uso de substâncias. (Leia mais abaixo)
O apoio da família e dos amigos é muito importante para ajudar a pessoa a se engajar no tratamento, aumentar sua motivação rumo à abstinência e ao bem-estar, e no combate à psicofobia. Isso porque as pessoas que têm problemas com drogas são vistas e julgadas por uma deturpada ótica moral, quando se trata, na verdade, de pessoas doentes, com transtorno mental. O tratamento pode fazer com que o indivíduo leve uma vida saudável e produtiva, mesmo que recaídas ou desmotivações aconteçam durante o percurso terapêutico.
Consumo e dependência no Brasil e no mundo O Relatório Mundial sobre Drogas 2020 das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), com dados referentes a 2018, mostrou que cerca de 269 milhões de pessoas usaram drogas no mundo em 2018, número 30% maior do que aquele verificado em 2009. Além disso, o relatório também informou que mais de 35 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de transtornos associados ao uso de drogas.
A Cannabis é a substância mais consumida no mundo quando se fala em drogas, com cerca de 192 milhões de usuários. Os opioides, por sua vez, são usados por cerca de 58 milhões de pessoas e são apontados como os mais nocivos, sendo observado um aumento de 71% nas mortes por transtornos associados ao seu uso na última década – uma alta de 92% entre as mulheres e de 63% entre os homens. Dentre os estimulantes, a cocaína foi consumida por cerca de 19 milhões de pessoas, o ectasy, por 21 milhões e as metanfetaminas, por 27 milhões.
No Brasil, os dados mais recentes são do III Levantamento Nacional sobre o uso de drogas pela população brasileira (LNUD), que compila dados de 2017, quando foram entrevistadas 17 mil pessoas com idades entre 12 e 65 anos em todo o país.
O álcool desponta como a droga mais consumida, com cerca de 46 milhões de habitantes que o consumiram nos últimos 30 dias que antecederam a pesquisa. Em relação ao tabaco, a pesquisa estimou que aproximadamente 26,4 milhões de brasileiros de 12 a 65 anos tenham consumido algum produto de tabaco nos 12 meses anteriores à pesquisa. (Leia mais abaixo)
Em relação às drogas ilícitas, a pesquisa mostrou que o uso de alguma delas na vida foi reportado por aproximadamente 15 milhões de indivíduos, e o uso nos últimos 30 dias por 2,5 milhões. A substância mais consumida dentre elas foi a Cannabis, com cerca de 11,7 milhões de usuários em algum momento da vida, seguida pela cocaína (4,6 milhões) e solventes (4,2 milhões). Outras drogas e medicamentos usados sem prescrição médica ou de forma diferente daquela receitada também foram apontadas pelo estudo.
Em relação à dependência química, o estudo mostrou que aproximadamente 2,3 milhões de pessoas entre 12 e 65 anos apresentaram dependência de álcool nos 12 meses anteriores à pesquisa, um número que corresponde a cerca de 1,5% da população brasileira e 3,5% dos indivíduos que consumiram álcool no último ano.
O número de dependentes de substâncias que não o álcool e o tabaco foi de cerca de 1,2 milhões de indivíduos de 12 a 65 anos nos 12 meses anteriores à pesquisa. Isso representa uma prevalência de 0,8% de dependentes na população geral e uma prevalência de 13,6% entre indivíduos que consumiram alguma substância nos últimos 12 meses. A maior prevalência de dependência química é observada em relação à maconha, benzodiazepínicos, cocaína, opiáceos e crack, nesta ordem.
Fonte: Doutor Jairo Bouer