Completando nesta quinta-feira (07), dois anos e nove meses à frente da 146ª Delegacia de Polícia de Guarus, o delegado Pedro Emílio Braga falou com exclusividade ao Guarus 24 Horas sobre os desafios na atuação no subdistrito e suas particularidades. O delegado revela a estratégia baseada em inteligência, investigação e ação, adotada com a equipe e sobre a importância da participação da população, na resolução dos casos. Pedro Emílio dá detalhes das dimensões do narcotráfico no subdistrito, exemplificando parte de suas estruturas. A reforma na unidade, uma iniciativa que envolveu o 6° Departamento de Polícia de Área, Justiça do Trabalho, Ministério Público do Trabalho, Prefeitura e empresários também foi citada como exitosa na resolução dos problemas estruturais que, após sanados, mostrou seu efeito em números. Desde 2019 a 146ª DP está dentre os primeiros lugares em produtividade investigativa e operacional no Estado.
Guarus 24 Horas - Qual a sua avaliação do cenário da criminalidade na área da 146ª DP e qual o perfil da criminalidade e modalidades de crimes mais comuns? (Leia mais abaixo)
Delegado Pedro Emílio Braga - O narcotráfico está historicamente disseminado na região, que se reparte em dezenas de bairros, sendo cada um deles habitados por células criminosas armadas, de pequeno e médio porte, que se dedicam a essa atividade ilícita e que, embora vinculadas de alguma forma a duas grandes organizações criminosas do Rio, se digladiam entre si, pelo domínio dos pontos de venda drogas, independentemente de estarem ligadas a uma mesma organização criminosa.
Nesse contexto se estabelecem os conflitos armados, que acabam por resultar em novas escaladas de homicídios. E novos conflitos surgem com relativa frequência, sobretudo porque essas áreas de influência de cada célula criminosa são territorialmente confrontantes em diversos pontos de Guarus, o que sem dúvida, funciona como um fator de influência no problema.
G24H - Para você, quais as principais diferenças na atuação da Polícia Civil nas de Guarus e Central, onde já atuou por quase três anos como delegado assistente?
Em realidade criminológica da circunscrição de Guarus, resulta numa atuação repressiva mais voltada aos delitos, em geral decorrentes da atividade narcotraficante, como tráfico, homicídios, roubos, porte de arma de fogo.
Na área da 134ª DP, a realidade socioeconômica mais abastada, induz uma maior profusão de crimes patrimoniais, como roubos, furtos, estelionatos. Além disso, por diversos motivos, encontramos um perfil criminológico mais voltado a delitos contra a honra e outros crimes de menor potencial ofensivo. Mas isso não exclui também o combate a tráfico e homicídios, forte em áreas diversas da circunscrição. (Leia mais abaixo)
G24H - O que a Polícia tem feito para combater o crime, quais são as linhas de ação e quais as estratégias de combate?
Pedro Emílio - A atual política de segurança do Secretário de Polícia Civil propõe a atuação segundo um tripé construído com base em inteligência, investigação e ação. Justamente assim procuramos trabalhar. Sempre que identificamos novos focos de conflito, num primeiro momento são realizadas ações de inteligência que, a partir da análise de dados disponíveis (em especial mancha criminal) e captação de informação, têm por objetivo compreender a motivação catalisadora das ocorrências e os personagens envolvidos.
Num segundo momento, já levando em consideração o contexto visualizado, são identificados inquéritos policiais acerca de crimes ligados a esses conflitos e organizadas as diligências investigativas em si, que terão por objetivo coletar provas e elementos de informação que demonstrem a autoria desses crimes. Com o êxito investigativo, são obtidas as ordens judiciais de prisão com base nas quais realizamos as operações de captura que vão ter como efeito prático a retirada dos protagonistas desses conflitos das ruas e a consequente redução dos índices de homicídios e outros delitos em geral decorrentes do da atividade narcotraficante.
G24H - O tráfico de drogas tem atraído muitos jovens e adolescentes para esta atividade ilícita. O que o poder público pode fazer no sentido de contribuir para reduzir os índices de migração deles para o crime? Qual a menor idade de envolvidos já encaminhados à delegacia?
Pedro Emílio - Doze anos, em caso de tráfico e homicídios. Vivemos num país de terceiro mundo, onde muitas vezes falta ao poder público recursos capazes de atender a toda sociedade nas suas diversas necessidades básicas, sobretudo em se tratando de um país com mais de 200 milhões de habitantes e com tantas questões históricas a tratar. A discussão é muito complexa e profunda. Pra resumir penso que somente a partir do direcionamento de recursos prioritários a atender políticas públicas de educação e profissionalização poderemos mudar em algum grau significativo essa realidade. A polícia atua na consequência desse cenário, jamais será a causa. (Leia mais abaixo)
G24H - O crime, particularmente o tráfico, tem recebidos aqui infiltração de elementos de fora, tem sido fortalecido ou disputado em seus tentáculos por facções de fora na disputa deste mercado?
Pedro Emílio - As relações com o comando, de grandes facções da capital existem, mas o grau de subordinação é menor do que se imagina. A disputa pelo espaço ocorre às vezes entre diferentes células ligadas a uma dessas organizações criminosas. Os conflitos em geral possuem motivações mais regionalizadas.
G24H - A recente notícia de mudança de facção criminosa na comunidade da Baleeira, na área central de Campos, tem refletido na sensação de segurança, não somente nas principais comunidades e entorno, mas em locais onde a criminalidade se coliga a elas. Como tem sido esse reflexo em Guarus? Essa mudança de facção também ocorre nas comunidades relacionadas à Baleeira que estão na área de Guarus?
Pedro Emílio - As organizações narcotraficantes em Guarus, que em geral eram associadas a essa comunidade, ainda que vinculadas a uma mesma bandeira, sempre agiram de forma muito independente em relação a ela. Com essa mudança, até agora não tivemos reflexos nas comunidades daqui, como pudemos apurar peremptoriamente desde o surgimento da notícia.
G24H - Recentemente, um vídeo circulou nas redes sociais, mostrando com suspeito, não identificado, com um fuzil, ameaçando criminosos da Chatuba do Lebret. Ele menciona ainda, em ameaça, um outro criminoso que seria “chefe do ADA” em Guarus. A Polícia Civil tem conhecimento desse vídeo? Isso é objeto de investigação? Há formas da população, que acessa esses vídeos em perfis de Instagram, colaborar com o trabalho da Polícia? (Leia mais abaixo)
Pedro Emílio - Temos ciência sim e o fato se encontra em apuração por Inquérito Policial, sob sigilo. Evidentemente, qualquer cidadão que queria colaborar com a polícia, seja para trazer esclarecimentos sobre crimes ou comunicar o paradeiro de criminosos, pode entrar em contato através de nosso Disque Denúncia através do número 22 997013300. O sigilo é garantido.
G24H - Como tem sido a relação da Polícia com a comunidade para a redução da criminalidade e de que forma a população pode colaborar?
Pedro Emílio - A participação da população é muito importante. Muitos dos delitos apurados nos últimos anos e mesmo muitas prisões recentes, relevantes ao controle da criminalidade em Guarus foram viabilizadas a partir de informações obtidas a partir de denúncias anônimas. É importante que todos saibam que sequer será solicitada qualquer identificação do denunciante. Basta entrar em contato através do número de WhatsApp da unidade (22 99701 3300) e registrar a informação que ela será apurada por nossas equipes. As forças policiais não tem como estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Então a participação popular é determinante para uma cidade segura.
G24H - Quais as carências da 146ª DP, para que se possa melhorar as condições de enfrentamento a criminalidade?
Pedro Emílio - A delegacia de Guarus hoje é uma das referências do estado. Após um exitoso projeto levado a efeito por nossa administração e a do 6° Departamento de Polícia de Área, que contou com a colaboração da Justiça do Trabalho, Ministério Público do Trabalho, Prefeitura Municipal de Campos e dezenas de empresas locais, a delegacia sofreu ampla reforma que possibilitou o redimensionamento da unidade, colocação do novo piso em granito, troca de 100% das divisórias, de 100% do mobiliário, reforma e impermeabilização do telhado, numa obra de valor estimado na casa dos 1,5 milhão de reais, embora tenha sido realizada com apenas 1/5 deste valor e a partir de recursos de origem privada. Com isso não temos mais carências estruturais e os resultados falam por si só. A unidade figura desde 2019 dentre os primeiros lugares em produtividade investigativa e operacional no estado, isso dentre quase duas centenas de delegacias, algumas delas contando com 4, 5 vezes o número de agentes que temos aqui. (Leia mais abaixo)