Delação liga chefe de obras de Pezão a cartel em licitações na gestão Cabral

As revelações são da construtora Andrade Gutierrez, que fez parte do esquema, em acordo de leniência


02/12/2016     12h16     |     Foto: Divulgação icaro-moreno-junior-e-presidente-da-emop-desde-o-governo-cabral-em-2006-1480615377995_615x300Prestes a completar dez anos na presidência da Emop (Empresa de Obras Públicas do Rio de Janeiro), o engenheiro civil Ícaro Moreno Júnior foi citado como intermediário na negociação entre o governo do Estado e dez empreiteiras acusadas de fraude e formação de cartel em licitações de obras de urbanização do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) das favelas. As revelações são da construtora Andrade Gutierrez, que fez parte do esquema, em acordo de leniência firmado com o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) na última segunda-feira (28). s informações se referem a obras realizadas na gestão do ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) --preso na Operação Calicute, da Polícia Federal, e acusado de encabeçar um grandioso esquema de pagamento de propina em obras do Estado. Após a renúncia do ex-chefe do Executivo, em 2014, Ícaro foi mantido no cargo pelo vice de Cabral e seu sucessor, Luiz Fernando Pezão (PMDB), e permanece até hoje à frente da Emop. Procurada, a assessoria de comunicação da empresa pública informou que "todos os procedimentos foram feitos dentro da legalidade, baseados na lei de licitações, sem infração à ordem econômica". A reportagem tentou contato telefônico com Ícaro em dois números de telefone distintos, na quinta-feira (1º) pela manhã e à tarde, mas não obteve retorno. Após a publicação da reportagem, nesta sexta (2), houve nova tentativa, também sem sucesso. Foram três consórcios vencedores do certame do PAC das favelas e que reúnem as dez empreiteiras responsáveis pelas obras em cada região: "Novos tempos" (Rocinha), formado por Queiroz Galvão, Caenge e Carioca; "Manguinhos" (Manguinhos), com Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Camter e EIT; e "Rio Melhor" (Complexo do Alemão), com Odebrecht, OAS e Delta. Com base nos depoimentos dos representantes da Andrade Gutierrez, o relatório do Cade afirma que as empreiteiras escolhidas pelo governo foram beneficiadas em razão de doações eleitorais destinadas à campanha de Sérgio Cabral, eleito governador do Rio em 2006. Além de trocar informações e combinar preços, condições e vantagens no processo licitatório, as empresas adulteraram o edital de forma a prejudicar os concorrentes, de acordo com o relatório do Cade. Tudo isso teria ocorrido com conivência e participação do governo do Estado, por meio da Emop e da Secretaria de Estado de Obras. À época, a secretaria era comandada por Pezão, hoje governador do Rio. O UOL solicitou entrevista com o governador, mas foi informado por sua assessoria de imprensa que "não há disponibilidade na agenda no momento". Instada a comentar o assunto por meio de nota, a assessoria informou apenas que a reportagem deveria direcionar a demanda à Emop. Na última quarta-feira (30), o Cade solicitou instauração de processo administrativo para apurar os fatos narrados na delação da Andrade Gutierrez. O relatório, que contém depoimentos, e-mails, troca de mensagens e outros elementos probatórios fornecidos por executivos e ex-executivos da empreiteira, tem a chancela dos membros do MPF (Ministério Público Federal) que integram a força-tarefa da Lava Jato no Rio. Este é o quinto acordo de leniência publicado pelo Cade no âmbito da Lava Jato. Se a Andrade Gutierrez cumprir o acordo e entregar elementos que provem a delação, recebe em troca a possibilidade de continuar participando de licitações para concorrer a contratos com o poder público. Versão das empreiteiras A Andrade Gutierrez informou ao UOL que pretende colaborar com as investigações e que acredita "ser esse o melhor caminho para construção de uma relação cada vez mais transparente entre os setores público e privado". A Camargo Corrêa, por sua vez, informou já ter firmado acordo de leniência para corrigir irregularidades e ressaltou que, apesar de citada, não participou dos projetos mencionados na delação da Andrade Gutierrez. Procurada pela reportagem, a Odebrecht não se manifestou sobre a denúncia de cartel. Informou, em nota, que já adotou medidas concretas para reforçar seu compromisso com uma atuação ética, íntegra e transparente. As construtoras Delta, OAS e Carioca Engenharia não se pronunciaram sobre os fatos narrados no acordo de leniência. A Queiroz Galvão informou que não se manifesta sobre investigações que ainda estão em andamento. A EIT e a Caenge foram procuradas por telefone e e-mail nesta quinta-feira (1º), mas não se pronunciaram até a publicação da reportagem. O UOL ligou na sede carioca da Camter e foi informado que a empresa fechou. Por isso, não havia nenhuma pessoa ligada à companhia para tratar das suspeitas sobre as obras no Rio. Fonte: Uol  



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