Abril / 2015 - Foto: Campos 24 Horas e Divulgação


Na série de reportagens do
Campos 24 Horas sobre crianças e adolescentes portadores de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), destacamos um agente fundamental no diagnóstico e acompanhamento do quadro de crianças portadoras do transtorno: A Escola.
Para isso, voltamos a conversar com a especialista e neuropsicopedagoga Andressa Amaral, idealizadora deste projeto, numa entrevista interessantíssima sobre o papel da escola em casos de crianças com TDAH.
Confira a entrevista:
Campos 24 Horas –
Por que a escola é tão importante no diagnóstico de crianças e adolescentes que possuem TDAH?
Andressa Amaral - Bom, mais uma vez gostaria de agradecer principalmente às pessoas que param aos domingos para conhecer um pouco mais do assunto, que interagem, tiram dúvidas, para mim, que amo minha profissão e não consigo me ver fora do processo de aprendizagem, é muito gratificante poder colaborar com estas discussões.
Mas, respondendo à pergunta, por vez, muito oportuna, a escola é na grande maioria o agente principal no diagnóstico do TDAH, porque devido ao fato do transtorno afetar diretamente o processo de aprendizagem do aluno, é a escola que primeiro sinaliza aos familiares a possibilidade daquela criança ou adolescente ser possuidor do transtorno.
C24H - Mas, através de que mecanismos a escola identifica a possibilidade do aluno possuir TDAH?
Andressa - Esta observação se dá, por parte dos professores e da equipe pedagógica escolar que precisa conhecer, apesar da sala de aula possuir uma quantidade de alunos, cada um de seus alunos em suas particularidades.
A partir daí, se a escola dispuser de uma equipe treinada e capacitada, a mesma terá condições de perceber comportamentos destoantes dos demais nos alunos que podem ser possuidores do TDAH. Geralmente os mecanismos utilizados pela escola, devem ser observações no cotidiano escolar, comportamento dos alunos dentro e fora da sala de aula, técnicas de abordagem feitas pelos professores de modo a observar se os alunos estão concentrados, etc.
C24H -
Já que estamos falando da escola e da aprendizagem, porque o TDAH afeta diretamente a aprendizagem? O que de fato acontece?
Andressa -Vou tentar explicar de forma sucinta. Em linhas gerais, como já falei em entrevista anterior, esse transtorno é neurobiológico, ou seja, já nasce com o indivíduo. O que ocorre é que existe em nosso cérebro, o lobo frontal, que funciona metaforicamente, como um filtro. Ou seja, inúmeras informações chegam ao mesmo tempo, e estes pensamentos precisam ser filtrados pelo lobo frontal. Assim, quando eu lembro de algo, é porque esse filtro escolheu o que devo lembrar.
Ocorre que, para este “filtro” funcionar e os pensamentos ocorrerem de forma organizada, é preciso que uma substância chamada dopamina funcione regularmente em nosso organismo. Porém, os indivíduos com TDAH possuem uma deficiência na produção desta substância, e aí, é como se fosse um filtro furado, que não seleciona as informações, ou seja, para o TDAH, tudo acontece ao mesmo tempo, e de uma forma muito rápida, por isso a dificuldade de retenção. Isso quer dizer que, se eu não retenho a informação, automaticamente meu processo de aprendizagem estará comprometido.
Por este motivo, que os alunos que possuem o transtorno, alegam que não conseguem memorizar a informação, porque elas passam de uma forma rápida, sem que haja uma seleção, ou melhor, um filtro.
C24H –
E qual são os principais sintomas que as equipes escolares devem ficar atentas?
Andressa - O transtorno, é marcado basicamente por três aspectos: a impulsividade, a instabilidade de atenção e a hiperatividade. Sendo que a hiperatividade nem sempre acontece, sendo mais comum em meninos. Assim, a escola já tem esses primeiros indícios que devem ser observados, principalmente a questão da impulsividade que é uma marca do aluno que possui TDAH.
C24H –
Por que a senhora ressaltou a impulsividade?
Andressa - Ressalto sempre, por ser este o sintoma mais perigoso e difícil de ser controlado. O aluno TDAH, possui uma particularidade chamada hiper foco, como se fosse um botão de liga e desliga, é como se fosse uma atenção, intercalada com distração. E esta impulsividade é perigosa, alguns manifestam compulsão por comida, outros por jogos, trabalho, sexo, drogas, etc. Por isso alerto que é muito importante que as equipes pedagógicas observem estes sinais em seus alunos.
C24H -
Quando a senhora fala da compulsão por jogos, estamos vivendo uma geração dependente de jogos e internet, então teríamos toda uma geração TDAH?
Andressa - Não. Absolutamente, o que estamos vivendo é um mundo que a cada dia perde a essência do ser humano e passa a viver com características de androides, assunto que poderemos tratar em outros momentos. Falo de um dos elementos, e por sinal o mais perigoso, porque se a impulsividade de um TDAH não for direcionada para o melhor caminho, que é o de desenvolver o que eles tem de melhor, eles tenderão a caminhos ruins, como vícios por jogos, etc.
Para que uma criança ou adolescente seja diagnosticada com TDAH, não basta apenas um sintoma isolado, ou seja, não basta apenas ser impulsiva por internet ou jogo, é preciso que possua os outros sintomas em consonância.
C24H -
E uma vez, detectado o problema, estando o aluno diagnosticado e já em tratamento, como a escola deve atuar?
Andressa - Neste caso é imprescindível que o aluno esteja numa escola que possua uma equipe preparada para atuar com estes alunos primeiramente, além de toda uma organização física que permita um trabalho pedagógico direcionado ao portador do TDAH.
C24H -
A senhora menciona na pergunta anterior duas questões: a equipe escolar e a questão física da escola, por qual razão?
Andressa - Falando primeiramente da equipe, se não houver um trabalho direcionado, este aluno não consegue evoluir. Por exemplo, estes alunos não podem sentar em quaisquer lugares na sala de aula, é preciso que a todo instante o professor, sem que o aluno perceba interaja com ele, de modo a não permitir que este perca a atenção, sempre que este aluno acertar é preciso ter feedback positivo (reforço) através de pequenos elogios e prêmios, vez que a auto estima deles é muito comprometida, dentre outras técnicas que devem ser adotadas pelos profissionais atuantes.
Em relação à estrutura física, uma sala de aula para atender a este público não deve possuir, por exemplo, informações paralelas em sua decoração (quadros ilustrativos, mensagens, etc,) que distraiam a atenção destes alunos.É preciso também, possuir recursos áudio visuais, que geralmente conseguem prender muito a atenção destas crianças e adolescentes.
Outra questão fundamental é que a equipe escolar possua profissional especializado em artes que desenvolva projetos de modo a extrair destas crianças os talentos que elas possuem. Geralmente os portadores de TDAH são muito talentosos.
C24H -
Existe ainda um certo preconceito sobre o TDAH por parte das escolas, o que a senhora acha?
Andressa - Sim, e vou além, este preconceito não é só na escola, é primeiramente na família que tem muita dificuldade de aceitar que o filho possui o transtorno. Gosto de reforçar que o transtorno não é uma doença contagiosa, é simplesmente uma personalidade distinta que precisa ser trabalhada, e por vezes os pais não querem aceitar a questão e dizem que os filhos são levados, desobedientes, e acabam tardando o diagnóstico e dificultando o tratamento.
As instituições de ensino, precisam parar de estigmatizar todos os alunos que possuem sinais de inquietude, desatenção, impulsividade, como “pestinha”, quando na verdade o ideal é que estejam preparadas para lidarem com esta realidade e ajudar estes alunos a conduzirem suas vidas e aprenderem a lidar com o problema.
C24H -
E, já que estamos falando de preconceito, vamos pensar na inclusão. Sabemos que alunos diagnosticados tem direito a provas diferenciadas, podem fazer fora da sala de aula, o que a senhora acha disso?
Andressa - Esta pergunta é bem complexa de ser respondida, mas vamos lá. Quando pensamos em inclusão, temos que ter muito cuidado para não excluirmos. Penso, de uma forma muito partícula, e nesta resposta coloco-me principalmente como educadora, e não em minha atuação clínica, que no momento que um aluno tem prova diferenciada, faz prova fora do contexto, ele está de alguma forma sendo excluído.
O que se deve pensar, enquanto equipe pedagógica é em, estratégias de avaliações que permitam com que aquele aluno vivencie as mesmas provas, questões, dos outros colegas, com um olhar pedagógico da equipe para os resultados, é claro. Tenho, na escola que atuo como diretora, exemplos de sucesso de alunos que possuem o transtorno e, ainda assim, estão totalmente inseridos.
É preciso entendermos que a escola é um momento, e logo, essas crianças e adolescentes deverão estar preparadas para a vida. E lá, quando chegarem ao mercado de trabalho, não haverá um processo seletivo diferenciado e um olhar distinto dos superiores pelo fato daquele candidato ser TDAH. Por isso, a escola de fato tem a obrigação de ser o grande laboratório destes alunos, fazendo com que eles estejam aptos a vivenciarem estas experiências no futuro.
C24H - O aluno TDAH consegue sozinho, um bom rendimento na escola, sem tratamento, apenas com a intervenção da equipe pedagógica?
Andressa - Depende do grau manifesto do transtorno. Existem crianças que através da atuação direcionada da equipe pedagógica conseguem excelentes resultados. Mas, reforço. É preciso que a equipe esteja preparada para isso. Mas, em grande maioria, é preciso que haja um acompanhamento de uma equipe multidisciplinar em paralelo, pelo menos por um tempo, porque o correto é que os tratamentos ocorram por um período e que depois o indivíduo consiga caminhar sozinho. De qualquer forma, em linhas gerais, uma vez diagnosticado o problema é fundamental a atuação de profissionais especializados com o objetivo de ensinar a estas crianças e adolescentes de que forma eles aprendem melhor.
Para tirar dúvidas, o leitor pode enviar perguntas acessando o site do CIETEC: www.cietecrj.com.br e clicar no Fale Conosco.
Encerramos mais uma matéria sobre o TDAH, hoje falando também do papel da escola, e informamos que na próxima semana estaremos orientando aos pais como deve ser feito o tratamento e quais os passos que devem seguir para que possam obter resultados positivos em casos de filhos com TDAH.