Cresce o alerta sobre influência da cultura Red Pill em casos de violência contra mulheres

Especialistas analisam como discursos da 'manosfera ou machosfera' se espalham nas redes e podem reforçar hostilidade entre jovens


  • 22/03/2026, 11h17, Foto: Divulgação .

Enquanto a violência contra a mulher cresce a cada dia (no ano passado foram 4 mulheres assassinadas diariamente pelos companheiros, maridos ex e afins, numa estatística assustadora), o espetáculo midiático não para. Nas redes sociais não são poucos os grupos redpills que visam tomar a 'supremacia masculina' com postagens de mau gosto incitando ainda mais a violência de gênero. 

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Há alguns anos especialistas em comportamento e saúde mental passaram a observar com mais atenção o crescimento de comunidades digitais associadas à chamada cultura Red Pill. Presente em vídeos, fóruns e perfis nas redes sociais, esse conjunto de ideias afirma revelar uma suposta 'verdade' sobre relações entre homens e mulheres e tem sido apontado por pesquisadores como um fenômeno que pode alimentar ressentimento, misoginia e discursos de hostilidade.

Grupos com nomes como Homem Sagaz Oficial e redeflags, mundo.redpill, redpill avançado, Clã Antiotário, Sedutor Afrovem, entre muitos outros, se espalham na internet na mesma proporção que pessoas públicas como Fátima Bernardes, Rafael Portugal, Chico Alencar,  argumentam que é preciso que se tomem providências mais severas. No Senado Federal, inclusive, está em votação se a misoginia (ódio à mulher) poderá ser considerada crime.

A discussão ganhou  ainda mais força diante de casos recentes de violência que mencionam ou fazem referência ao movimento. Um dos episódios ocorreu no Rio de Janeiro, onde um adolescente foi apreendido após ser acusado de estuprar uma menina menor de idade. O caso chamou atenção porque o jovem chegou à delegacia vestindo uma camiseta com referência ao movimento Red Pill, símbolo que passou a circular amplamente nas redes sociais.

Em outro caso, alunos de 13 a 15 anos do Colégio São Domingos, instituição de alto padrão localizada em Perdizes, em São Paulo, foram suspensos após o vazamento de mensagens em grupos de WhatsApp. Segundo relatos, o conteúdo tinha teor misógino e fazia referência a formas de violência contra meninas da própria escola, gerando revolta entre estudantes e forte repercussão.A instituição informou que adotou medidas disciplinares, realizou reuniões com as famílias e iniciou ações educativas voltadas à ética digital, ao respeito e à prevenção da violência de gênero.

Um não à hostilidade Ao mesmo tempo, um movimento paralelo começou a surgir também entre mulheres na internet. Em plataformas como o Instagram, usuárias passaram a incentivar outras a identificar perfis ligados ao conteúdo Red Pill e deixar de seguir homens que acompanham esse tipo de página. A proposta, segundo defensoras da iniciativa, seria evitar relacionamentos com pessoas que consomem conteúdos considerados misóginos ou hostis às mulheres. (Leia mais abaixo)

Frustrações profundas Para especialistas, o fenômeno revela tensões sociais que vão além do ambiente digital. A psicanalista e terapeuta Gláucia Santana explica que a cultura Red Pill funciona como uma narrativa que oferece respostas rápidas para frustrações emocionais profundas.

  "Quando falamos de Red Pill, estamos falando menos de um movimento organizado e mais de um ecossistema digital de ideias presente em vídeos, fóruns e perfis que prometem revelar uma suposta verdade sobre relacionamentos. A narrativa costuma sugerir que os homens foram enganados por uma sociedade que favoreceria as mulheres e que, para não sofrer, eles precisam 'acordar', endurecer e aprender a jogar o jogo das relações. Do ponto de vista psicanalítico, isso frequentemente funciona como uma defesa emocional. O discurso oferece explicações simples para dores complexas, como rejeição, frustração, sensação de inadequação ou medo de não ser escolhido. Para muitos jovens, isso gera um alívio narcísico, porque desloca a responsabilidade para fora. O risco é que a vulnerabilidade masculina, que é legítima, acaba sendo transformada em ressentimento".

Segundo a especialista, quando esse ressentimento encontra comunidade e linguagem nas redes, ele pode se transformar em identidade. "O Red Pill promete força, mas muitas vezes entrega medo disfarçado de controle. Em vez de elaborar a própria dor, o sujeito passa a buscar poder como anestesia, seja sobre dinheiro, status ou sobre o próprio vínculo afetivo. O relacionamento deixa de ser espaço de troca e passa a ser tratado como jogo de dominação. Quando o vínculo vira jogo, a empatia passa a ser vista como fraqueza, e isso abre espaço para comportamentos de humilhação, manipulação emocional e controle".

Inseguranças emocionais

A psiquiatra Jessica Martani explica que esses grupos costumam atrair principalmente jovens que enfrentam inseguranças ou dificuldades emocionais. "Esses movimentos surgem muitas vezes em comunidades digitais que compartilham uma visão específica sobre relações de gênero, marcada por frustração, ressentimento ou sensação de exclusão social. Do ponto de vista da saúde mental, é importante entender que eles oferecem narrativas simplificadas para explicar dificuldades pessoais, como rejeição afetiva, insegurança ou baixa autoestima. É mais fácil colocar a culpa no outro do que parar para refletir sobre si mesmo. Ter um inimigo em comum e fazer parte de um grupo cria uma sensação de pertencimento e de estar do lado certo". Segundo a psiquiatra, o impacto dessas ideias pode se refletir no comportamento de jovens que ainda estão formando sua identidade emocional."Quando a frustração pessoal passa a ser  interpretada como resultado de uma suposta injustiça causada pelas mulheres ou pela sociedade, existe o risco de transformar sofrimento psicológico em raiva direcionada. Alguns jovens podem começar a validar comportamentos agressivos ou enxergar a violência como forma de afirmação ou vingança. Sentimentos como rejeição, isolamento e baixa autoestima precisam ser trabalhados de forma saudável, com apoio emocional e reflexão, e não canalizados para narrativas que reforçam hostilidade". (Leia mais abaixo)

Para as mulheres, o efeito também é perceptível nas redes e fora delas. Segundo a psiquiatra, o crescimento desses discursos pode gerar insegurança e sensação constante de vulnerabilidade.

"Quando discursos que culpabilizam ou desumanizam mulheres ganham espaço, o impacto vai além do ambiente virtual. Isso pode reforçar estereótipos negativos, alimentar hostilidade e legitimar comportamentos de desrespeito. Muitas mulheres relatam aumento de ataques online, assédio e discursos de ódio. Psicologicamente, viver em um ambiente social onde sua autonomia é constantemente questionada pode gerar ansiedade e sensação permanente de ameaça".

Sinal de alerta

A ativista feminista e conservadora Vann Ferreira avalia que o crescimento do fenômeno representa um sinal de alerta para a sociedade.

"O movimento chamado Red Pill surgiu na internet reunindo grupos de homens que acreditam que a sociedade enganou os homens sobre como funcionam os relacionamentos. Eles dizem que estão abrindo os olhos dos homens para essa realidade. O problema é que, em muitos desses espaços, surge um discurso de desconfiança e até hostilidade contra as mulheres, e isso pode influenciar principalmente jovens que ainda estão formando sua visão sobre relacionamentos". (Leia mais abaixo)

Na avaliação da ativista, a expansão desse tipo de conteúdo pode contribuir para a normalização do desrespeito. "Quando esse tipo de conteúdo reforça raiva ou desprezo pelas mulheres, existe o risco de normalizar comportamentos agressivos. Na minha visão, esse tipo de movimento pode ser um retrocesso, porque em vez de promover diálogo e equilíbrio entre homens e mulheres, acaba estimulando uma ideia de conflito permanente. A sociedade precisa avançar para relações mais maduras e respeitosas, não para uma guerra entre homens e mulheres.”

Para especialistas, o debate sobre masculinidade, frustração e saúde emocional é necessário. O desafio está em evitar que essas discussões sejam capturadas por narrativas que transformem relações afetivas em disputas de poder e reforcem a hostilidade entre homens e mulheres.



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