A coqueluche é uma infecção respiratória causada pela bactéria Bordetella pertussis. Sua principal característica são crises de tosse seca, mas os sintomas também incluem febre baixa, corrimento nasal e mal-estar. É uma doença transmissível e a contaminação acontece através do contato com a pessoa infectada ou pelas gotículas eliminadas por ela ao tossir, falar ou espirrar.
A coqueluche pode acometer pessoas em qualquer idade, mas a população mais vulnerável à infecção são os bebês menores de 1 ano. Nesse grupo, a doença pode causar complicações como infecções de ouvido, pneumonia, desidratação e convulsões e até levar à morte. Em adultos, a doença é quase sempre assintomática. (Leia mais abaixo)
“Embora ela se distribua de maneira mais ou menos semelhante em todas as faixas etárias, há uma desproporção quanto às manifestações clínicas. Quanto mais jovem a criança, especialmente bebês no primeiro ano de vida, mais risco tem de agravamento, mais sintomas ela tem: aquele quadro clássico de tosse, falta de ar, os guinchos (som agudo provocado pela tosse intercalada com ingestão de ar). O risco de óbito é muito maior nas crianças pequenas”, afirma o dr. Renato Kfouri, pediatra infectologista e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
O diagnóstico no estágio inicial pode ser difícil, pois os sintomas se assemelham muito aos de um resfriado. Para confirmar a infecção, o médico pode solicitar exames laboratoriais. O tratamento é feito com antibióticos. Nas crianças, como a doença tende a ser mais severa, pode ser necessária internação hospitalar.
Número de casos
No começo da década de 1980, o Brasil registrava mais de 40 mil casos de coqueluche por ano. Em 1983, os números caíram drasticamente. E a tendência de queda seguiu por anos, especialmente após 1998, com o aumento da cobertura vacinal. Em 2011, houve um aumento súbito de casos, e vários motivos poderiam explicar o ocorrido, incluindo a melhora no diagnóstico laboratorial, a vulnerabilidade de bebês com menos de 6 meses que não receberam o esquema vacinal completo e o próprio caráter cíclico da doença, que normalmente tem picos a cada 5 a 7 anos.
Desde 2015, o número de casos vem diminuindo. A incidência da doença passou de 4,2 a cada 100 mil habitantes em 2014 para 0,7 a cada 100 mil habitantes em 2019. Em 2018, foram 1.165 casos confirmados; em 2019, foram 1.523 casos; em 2020, foram somente 229 casos de coqueluche. As informações são do Ministério da Saúde. (Leia mais abaixo)
Segundo o dr. Kfouri, sempre há uma subnotificação nos casos de coqueluche, já que a grande maioria é de formas assintomáticas ou pouco sintomáticas da doença, que não recebem diagnóstico. Mas a redução do número de casos entre 2019 e 2020 pode ser resultado do isolamento social trazido pela pandemia. “O distanciamento diminuiu muito os números de casos de todas as doenças de transmissão respiratórias: pneumonia, meningite, gripe, bronquiolite, coqueluche. Então, nós tivemos sim uma queda importante de notificações por conta do isolamento que a covid trouxe para todos”, afirma.
Quem deve tomar a vacina?
A melhor forma de prevenção da doença é a vacinação, que é oferecida no SUS ainda nos primeiros meses de vida. São três doses: aos 2, aos 4 e aos 6 meses de idade. Depois, uma dose de reforço aos 15 meses e um segundo reforço aos 4 anos. A vacina é a chamada tríplice bacteriana, que protege contra difteria, tétano e coqueluche.
A SBIm recomenda que mesmo as crianças que já tiveram a doença sejam vacinadas, já que a proteção adquirida pela infecção não é permanente.
Gestantes também devem receber a vacina a partir da 20ª semana de gestação para proteger o bebê, já que o nível de anticorpos que elas produzem é tão alto que eles são transferidos para o feto, evitando que ele adoeça de forma grave até completar o seu esquema vacinal, aos 6 meses de vida. (Leia mais abaixo)
“A vacina na grávida deve ser feita em todas as gestações. Se ela tiver uma gravidez neste ano, outra daqui um ano e outra depois de um ano, por exemplo, ela vai tomar a vacina três anos seguidos. Embora a proteção da vacina dure cerca de 7 a 10 anos, a grávida deve tomá-la em toda gravidez, porque a gente não quer só protegê-la, a gente quer transferir os anticorpos para o bebê”, explica o médico.
Existe ainda uma recomendação que é feita especialmente no caso de bebês de risco, como os prematuros, que é vacinar as pessoas que terão contato com o bebê, como os avós, por exemplo. No entanto, a vacina para adultos (com exceção de gestantes e profissionais de saúde) não está disponível no Programa Nacional de Imunizações (PNI) e, portanto, não é possível tomá-la através dos SUS. Nesses casos, a única opção é buscar uma clínica privada, se a família tiver condições de pagar pelo imunizante.
“Quem pode tomar no particular a gente recomenda a vacinação de todos com a vacina tríplice bacteriana de 10 em 10 anos”, diz o médico.
Atraso na vacinação
Segundo o médico, mesmo com uma boa cobertura vacinal, durante as ondas cíclicas, a doença continua afetando desproporcionalmente os bebês no primeiro ano de vida, especialmente aqueles que ainda não completaram o esquema vacinal. “Sem falar que muitos atrasam as doses. Aqui no Brasil, o último dado que a gente tem é que as crianças fazem a primeira dose da tríplice em uma média de três meses e meio. Ou seja, metade toma depois dos três meses a primeira, metade toma depois dos 7 meses a segunda e a terceira dose vai depois do oitavo, nono mês.” (Leia mais abaixo)
Esse atraso nas doses deixa a criança desprotegida no período em que ela é mais vulnerável à doença. “No pior ano que a gente teve aqui no país, em 2014 (falando dos anos mais recentes), 100% dos óbitos foram em menores de 1 ano de idade. E a maioria com menos de 6 meses”, conta.
É muito importante vacinar os bebês o mais rápido possível (primeira dose aos 2 meses). No calendário de vacinação infantil da SBim, você pode conferir quais as vacinas são recomendadas para as crianças (0 a 10 anos) e quais estão disponíveis no SUS.
Fonte: Drauzio Varella