Castro exonera presidente do Rioprevidência que renunciou após operação da PF

A ação cumpriu quatro mandados de busca e apreensão na sede da autarquia, no Centro, e em residências em Botafogo, Gávea e Urca, na Zona Sul


  • 23/01/2026, 18h13, Foto: Divulgação.

O governador Cláudio Castro (PL) exonerou na tarde desta sexta-feira o presidente do Rioprevidência, que entregou nesta sexta-feira uma carta de renúncia após uma operação da Polícia Federal. A PF apreendeu veículos de luxo, dinheiro em espécie, eletrônicos e documentos durante a Operação Barco de Papel, deflagrada nesta sexta-feira, que mira diretores do Rioprevidência no âmbito das investigações sobre investimentos do fundo previdenciário fluminense no Banco Master.

O alvo principal é o diretor-presidente Deivis Marcon Antunes, que está fora do Brasil, em viagem aos Estados Unidos desde o dia 15, segundo apuração. Na publicação no Diário Oficial aparece que ele foi demitido pelo governador, apesar da carta de renúncia. No texto, ele diz que sempre agiu "com espírito público": (Leia mais abaixo)

"Ao longo do período em que estive à frente da instituição, dediquei-me integralmente ao fortalecimento do Rioprevidência, promovendo um ciclo virtuoso de gestão, marcado pela valorização dos servidores, pelo aprimoramento dos processos internos e pela defesa intransigente e inegociável dos interesses da autarquia (...) Enfatizo que repilo tentativas de inquinar como ilegal qualquer ato que pratiquei na gestão do Riopreviência, pois, como disse, sempre agi com espírito público, correção e dentro dos mais elevados preceitos éticos, conduta essa que sempre pautou minha vida profissional nos locais onde trabalhei", diz trecho do texto.

A investigação, iniciada em novembro de 2025, visa a apurar um conjunto de nove operações financeiras, realizadas entre novembro de 2023 e julho de 2024. As ações resultaram na aplicação de aproximadamente R$ 970 milhões de recursos pertencentes ao Rioprevidência em Letras Financeiras emitidas por banco privado. O trabalho investigativo contou com o apoio da Secretaria de Regime Próprio e Complementar do Ministério da Previdência Social (SPREV/MPS), que elaborou o Relatório de Auditoria Fiscal que deu impulso à apuração.

Estão sendo apurados crimes contra o sistema financeiro nacional, como gestão fraudulenta, desvio de recursos, induzir em erro repartição pública e fraude à fiscalização ou ao investidor, além de associação criminosa e corrupção passiva.

Nova diretoria liberou os investimentos - A operação ocorre três meses após o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) apontar uma “notável coincidência” entre a mudança na cúpula do Rioprevidência e o início dos investimentos no Banco Master. Entre julho e outubro de 2023, foram nomeados Deivis Marcon Antunes, como diretor-presidente; Eucherio Lerner Rodrigues, para a Diretoria de Investimentos; e o gerente de investimentos Pedro Pinheiro Guerra Leal. Pouco depois, em novembro daquele ano, começaram os aportes milionários no banco, que viria a ser liquidado e se tornaria alvo da Polícia Federal. Atualmente, apenas Antunes e Leal seguem no órgão.

De acordo com o TCE, a nomeação de Eucherio Lerner foi publicada no Diário Oficial em 4 de outubro de 2023, mesma data em que o Banco Master enviou um e-mail solicitando credenciamento junto ao Rioprevidência, etapa obrigatória para receber recursos do fundo previdenciário. Nesse mesmo dia, foi aberto o procedimento interno para análise do pedido. Doze dias depois, Pedro Leal encaminhou ofício à Gerência de Controle Interno e Auditoria (GERCIA) informando que o banco atendia aos requisitos técnicos. Em 19 de outubro, Deivis Antunes autorizou o credenciamento, processo que, segundo o tribunal, ocorreu de forma “acelerada” e com “aparentes irregularidades”. (Leia mais abaixo)

“Ao analisar o trâmite deste processo, fica absolutamente evidenciado que houve uma conduta acelerada para realizar a primeira aplicação no Banco Master, a qual ocorreu de forma inadequada e com aparentes irregularidades, sem as devidas formalidades básicas para garantir o melhor interesse ao RPPS [Regime Próprio de Previdência Social]", diz um trecho do documento do TCE.

O governo do estado afirma que aplicou R$ 960 milhões em Letras Financeiras do Banco Master. Já o TCE incluiu no cálculo investimentos em fundos administrados pelo banco e por sua corretora, elevando o montante para R$ 2,6 bilhões. Parte significativa desses recursos, segundo o tribunal, não está coberta pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Apesar disso, o governo garante que o pagamento de aposentadorias e pensões está mantido.

Nos bastidores da política fluminense, as nomeações no Rioprevidência são atribuídas ao União Brasil, partido da base do governador Cláudio Castro (PL), que foi informado pelo TCE sobre as suspeitas antes da liquidação do banco. Em nota, Castro afirmou que nomeou Antunes com base em seu “currículo e comprovada competência técnica” e disse que as indicações dos demais diretores são de responsabilidade da autarquia. O comunicado ressalta ainda que a escolha do diretor-presidente passou pelo Conselho de Administração do Rioprevidência, formado por representantes do TCE, do Tribunal de Justiça, do Ministério Público e de associações de servidores.

Num ofício em que responde a questionamentos do TCE, Deivis Antunes alegou que o credenciamento do banco começou no início de 2023 e foi concluído no dia 4 de outubro do mesmo ano. Segundo ele, o Master “tinha longa e adimplente relação com o Estado do Rio”.

Em maio, o TCE fez um alerta ao Rioprevidência, que foi difundido para o governador e o próprio Master, sobre os riscos dos investimentos. Apesar disso, o órgão de previdência aplicou mais R$ 1,1 bilhão em fundos geridos pela corretora do Master de 20 de maio a 25 de julho, período em que a crise do banco era amplamente divulgada. (Leia mais abaixo)

Entenda o caso Banco Master - O Banco Master entrou no centro de uma crise financeira e policial após vir à tona uma série de investigações e questionamentos sobre sua atuação, que culminaram na prisão de seu controlador, Daniel Vorcaro, e na decretação de liquidação extrajudicial pelo Banco Central, em novembro de 2025.A instituição é alvo de investigações da Polícia Federal por suspeitas de gestão fraudulenta, criação de carteiras de crédito falsas, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro.

A situação ganhou impacto direto no Rio porque o Rioprevidência, fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de mais de 235 mil servidores estaduais, investiu cerca de R$ 1 bilhão em letras financeiras do banco, mesmo após alertas técnicos do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) sobre riscos elevados.

Segundo o TCE, os aportes começaram antes mesmo de o Banco Master concluir formalmente seu processo de habilitação junto ao fundo. Ainda assim, entre outubro de 2023 e agosto de 2024, o Rioprevidência realizou nove operações financeiras com o banco. Técnicos do tribunal apontaram “atropelo” nos procedimentos e destacaram que parte dos investimentos ocorreu quando a crise da instituição já era amplamente divulgada.

A crise do Master se aprofundou após uma tentativa frustrada de venda do controle para o Banco de Brasília (BRB), operação vetada pelo Banco Central em setembro de 2025. O BC avaliou que o banco apresentava grave risco de liquidez, impulsionado por uma estratégia agressiva de captação via CDBs com remuneração de até 140% do CDI, muito acima da média de mercado.

As investigações da PF indicam que o banco operava um esquema complexo envolvendo fundos de investimento, especialmente da gestora Reag, com sucessivas transferências de recursos e reavaliações artificiais de ativos, que inflavam o balanço da instituição. Em alguns casos, a valorização registrada chegava a mais de 10 milhões por cento, segundo apurações citadas pelo Ministério Público Federal. (Leia mais abaixo)

O que dizem os alvos:

Rioprevidência - "O Rioprevidência informa que todos os investimentos efetuados pela autarquia observaram rigorosamente a legislação vigente e as normas dos órgãos de controle.

O Rioprevidência destaca ainda que está resguardado por decisão judicial, de dezembro de 2025, que determinou a retenção de cerca de R$ 970 milhões, acrescidos de juros e correção monetária, referentes aos valores investidos pela autarquia. A medida visa proteger o patrimônio previdenciário dos servidores ativos, aposentados e pensionistas do Estado do Rio.

Dessa forma, o investimento já está sendo quitado com a retenção de valores decorrentes dos empréstimos consignados, que seriam repassados ao Banco. Importante ressaltar que, com isso, os recursos estão à disposição do caixa previdenciário e o investimento será liquidado em cerca de dois anos.

A autarquia reforça também que está à disposição das autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos necessários e reafirma seu compromisso com a transparência, a legalidade e a defesa dos recursos previdenciários. (Leia mais abaixo)

O Rioprevidência informa ainda aos segurados que a prestação de serviços acontece normalmente, e o calendário de pagamentos permanece sem qualquer alteração."

Deivis Marcon - "O Rioprevidência esclarece que, em caso de ausência do Diretor-Presidente, a presidência da Autarquia é exercida pelo Diretor de Administração e Finanças, conforme previsto no Regimento Interno da Autarquia.

O Rioprevidencia informa ainda que o Diretor-Presidente, Deivis Marcon Antunes, encontra-se oficialmente em período de férias, previamente programadas desde novembro de 2025, nos termos das normas internas vigentes."

Fonte: Extra



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