CAPS de Campos utilizam a música como ferramenta de acolhimento e cuidado

A iniciativa integra o cotidiano das unidades e mostra como a arte pode contribuir para o cuidado humanizado e para a construção de vínculos entre pacientes e profissionais de saúde


  • 1º/11/2026, 11h38, Foto: Ascom .

Campos 24 Horas - A música tem o poder de despertar emoções, estimular a comunicação e criar conexões. Em Campos, essa possibilidade é explorada no cuidado em saúde mental por meio do trabalho desenvolvido pelo músico João Carlos Ribeiro da Silva, de 69 anos, que percorre os cinco Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do município, utilizando a música como ferramenta de acolhimento, interação e estímulo à expressão dos usuários. A iniciativa integra o cotidiano das unidades e mostra como a arte pode contribuir para o cuidado humanizado e para a construção de vínculos entre pacientes e profissionais de saúde.

O trabalho é realizado nos CAPS III Dr. Makhoul Moussallen, CAPS III Dr. Romeu Casarsa, CAPSi Dr. João Castelo Branco, voltado ao público infantojuvenil, CAPSad III Dr. Ari Viana, especializado no atendimento a pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas, e CAPS II Dr. João Batista de Araújo Gomes. João Carlos atua na rede desde 2000 e, a partir de 2010, passou a se dedicar mais intensamente à atividade musical. A rotina é organizada de forma que cada unidade receba o músico em um dia da semana.

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Durante os encontros, João Carlos toca instrumentos, canta e incentiva a participação dos usuários, que podem acompanhar as músicas, cantar junto ou simplesmente aproveitar o momento. A atividade também alcança pessoas que aguardam atendimento, oferecendo um ambiente de acolhimento e ajudando a tornar a espera menos angustiante.

Os resultados percebidos ao longo dos anos reforçam, para João Carlos, a importância de manter a iniciativa. Ele relata situações em que a música ajudou usuários a se expressarem, participarem das atividades e estabelecerem uma aproximação maior com os profissionais responsáveis pelo acompanhamento.

Um dos episódios que mais o marcaram aconteceu no CAPS de Guarus, quando uma psicóloga o convidou para participar de um atendimento com uma paciente que tinha dificuldade de se comunicar durante as consultas. Com o violão, João Carlos começou a tocar pequenos trechos de músicas enquanto a profissional tentava estabelecer contato com a jovem. Em determinado momento, ela reconheceu uma das canções e decidiu participar.

“Ela falou: ‘Eu gosto dessa música. Dá para você continuar que eu vou cantar?’. Aquilo me emocionou muito, porque conseguimos. A partir dali, a psicóloga conseguiu desenvolver o trabalho dela com a menina, e eu me retirei. Foi uma das maiores vitórias que senti desde que realizo esse trabalho”, relembra.

Outra história envolve uma usuária que, após enfrentar uma decepção amorosa, passou por um período de grande sofrimento emocional. Segundo João Carlos, ela começou a se aproximar da música e, posteriormente, participou de apresentações com o grupo formado na época. Com o passar do tempo, a usuária apresentou melhora e deixou de precisar de acompanhamento intensivo diário na unidade, mantendo o vínculo com o serviço para buscar a medicação, conforme o relato do músico.

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Além de contribuir para a expressão de sentimentos e a socialização, a atividade também proporciona momentos de convivência entre usuários, profissionais e acompanhantes. João Carlos destaca que o trabalho não acontece de forma isolada e depende da participação das equipes dos CAPS, que colaboram para a realização dos encontros e integram a música à rotina de atendimento.

“Sem uma equipe boa, como tenho encontrado em todas as unidades por onde passo, acho que o meu trabalho não seria possível. Esses profissionais me ajudam muito, estão sempre à disposição e colaboram. É um trabalho conjunto, então o mérito também é deles”, afirma.

Para o músico, a experiência também tem um significado pessoal. Ao longo dos anos, ele percebeu que os encontros musicais não contribuem apenas para o bem-estar dos usuários, mas também para o seu próprio equilíbrio emocional. “Eu me sinto muito honrado. Essa atividade deixou de ser uma terapia só para eles, os pacientes, e passou a ser para mim também. Muitas vezes, eu chego à unidade sem estar muito bem e, quando começo a cantar junto com eles, também saio renovado”, relata.

Além dos resultados percebidos no dia a dia das unidades, o trabalho também é reconhecido pela direção de Saúde Mental como uma importante estratégia de cuidado humanizado. Para a diretora de Saúde Mental, Rosineia Jardim, a música amplia as possibilidades de acolhimento e contribui para a reabilitação psicossocial dos usuários.

“A música é uma importante ferramenta de cuidado, acolhimento e reabilitação psicossocial nos CAPS. Ela possibilita a expressão de sentimentos, fortalece vínculos e estimula a convivência, especialmente entre aqueles que encontram dificuldades para expressar seu sofrimento em palavras. Quando integrada ao acompanhamento multiprofissional, amplia as possibilidades de cuidado, valorizando cada pessoa para além do diagnóstico”, destaca a diretora.

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