21/02/2016 08h13 | Foto: Campos 24 Horas
Postado por: Fabiano Venancio
A crise econômica fez com que inúmeros trabalhadores perdessem seus empregos, surgindo aí os autônomos e, também, aqueles que vivem de biscates. Mas essa crise não afetou somente o bolso desses trabalhadores, afetou também a saúde, levando-se em consideração que muitos acabam se arriscando em outras profissões, causando acidentes diversos. Que o diga o Programa de Atenção à Saúde do Trabalhador (PAST), criado a partir de decreto federal, tendo que, obrigatoriamente, ser encampado pelos municípios, embora nem todos no estado tenham aderido, ao contrário de Campos, que foi pioneiro na implantação.
O PAST registra uma média de 1.800 atendimentos/mês, número computado nos ambulatórios do programa e entre os trabalhadores vítimas de acidentes que dão entrada no HFM. É um número expressivo, mas ainda é pouco diante da necessidade dos trabalhadores cuidarem das chamadas doenças ocupacionais, adquiridas no decorrer do trabalho. A assessora chefe do PAST/Campos, Mara Regina Freitas de Carvalho, psicóloga há 35 anos, com pós em psicologia esportiva, geriatria e gerontologia, além de saúde mental, diz que o programa local tem também como função trabalhar a cultura do cuidar da saúde, porque, na sua opinião, de maneira geral, os trabalhadores não o fazem. E aí é outra história, já que numa sociedade capitalista, interesses outros estão acima de muita coisa...
Campos 24 Horas – Você diz que, de modo geral, o trabalhador não cuida da saúde. Mas da implantação do PAST até hoje, o número de atendimento vem crescendo, não?
Mara Regina Freitas de Carvalho – O PAST existe há anos, mas aqui em Campos foi implantado no governo Rosinha Garotinho, há oito anos, inicialmente ligado ao Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) e hoje à Vigilância Saúde do Trabalhador. Vem crescendo sim, no início eram seis atendimentos/mês e hoje são quase 1.800. Mas isso graças a implantação de novos serviços e de se difundir essa cultura de que o trabalhador tem que cuidar de sua saúde. Hoje tem categoria no município que tem até alvará de saúde.
C24H – Alvará de saúde? Qual categoria que tem e para que serve?
Mara– O alvará da saúde foi criado há dois anos e todos os ambulantes do município que participam das festas da cidade possuem, é obrigatório. Fizemos uma parceria com a Postura, que só autoriza o trabalho se o alvará da saúde estiver em dia. É uma forma de monitorar a saúde dele, ou seja, é um benefício para esse trabalhador, que tem que estar bem de saúde para melhor desempenhar sua função e ganhar seu dinheiro. O alvará tem validade de acordo com a condição de saúde dele, seu quadro clínico. E, aí, vai sendo renovado à medida em que ele se trata.
C24H – De modo geral, de que forma é feito esse atendimento a esses quase dois mil/mês trabalhadores?
Mara – Os atendimentos são realizados nos nossos ambulatórios, na rua Alvarenga Pinto, com médicos que cuidam das doenças ocupacionais e com os trabalhadores vítimas de acidentes de trabalho de dentro do HFM, além do atendimento no polo do PAS dentro do Mercado Municipal. Também damos atendimento de orientação quanto aos direitos dos trabalhadores nos casos de doença, fazemos visitas a empresas, escolas e instituições que nos convidam para palestras (tel. 2733-8830). Às vezes o atendimento é no local da palestra, por exemplo, se for num canteiro de obras. Após, eles começam a se queixar e, de acordo com o caso, a gente encaminha para os ambulatórios. Toda equipe do PAST dá palestra, do médico ao técnico de enfermagem.
C24H – Que polo do Mercado é esse e quem pode ser beneficiado por ele?
Mara – O polo está dentro do Mercado, num box na área interna e é somente para os trabalhadores do mercado (boxes, feira e peixaria) e do Shopping Popular Michel Haddad. Lá nós temos médicos de medicina do trabalho, clínico geral, enfermeiro do trabalho e técnico de enfermagem. Após a consulta, quando necessário, eles são encaminhados para seguir o tratamento. Também no polo do Mercado a gente está desenvolvendo uma ação para cuidar da hipertensão e diabetes desses trabalhadores, embora essas doenças não sejam classificadas como doenças ocupacionais, os seja, adquiridas em consequência do trabalho.
C24H – E quais doenças são classificadas como doenças ocupacionais, adquiridas no trabalho diário?
Mara– Várias, entre elas a Lesão Por Esforço Repetitivo (LER), problemas circulatórios, hérnias, problemas de coluna, depressão, insônia, câncer de pele, entre outras, além de assédio moral e sexual. Somente ali são feitos cerca de 90 atendimentos por semana e claro que muitos trabalhadores se repetem pela diabetes, hipertensão, entre outros. E você pode me questionar, porque cuidar da hipertensão e diabetes, se essas não são doenças ocupacionais? Porque não se pode cuidar da saúde do trabalhador num todo, deixando essa ou aquela doença de lado e essas duas tem afetado demais os trabalhadores.
C24H - Você falou que o PAST realiza pesquisa e faz levantamentos. Quais?
Mara – Sim, agora estamos pesquisando os agrotóxicos e como lidar com eles. E a partir daí as doenças ocupacionais, como a silicose, uma doença pulmonar causada pela inalação do pó de sílica, elemento principal que constitui a areia, fazendo com que a doença acometa principalmente mineiros, cortadores de arenito e de granito, operários das fundições e oleiros. Tem ainda o benzenismo, doença causada pelo composto orgânico benzeno e as indústrias químicas (petroquímica, de tintas e vernizes, de couros, entre outras) são as que emitem vapores tóxicos de benzeno. A gente faz essas pesquisas para ver como o programa pode ajudar esses trabalhadores acometidos por essas doenças, que aqui na nossa região eles estão propensos.
C24H– E os levantamentos?
Mara– Os levantamentos são anuais e por categoria. Em 2015 foi a vez da saúde dos taxistas, ficando constatado que a doença que mais afeta a eles é a dor nas pernas. A gente foi de ponto em ponto de táxi fazendo esse levantamento e, quando necessário, oferecendo marcação de consulta na hora. Dos cerca de 900 taxistas que têm em Campos, 359 aceitaram nossa oferta e procuraram nossos ambulatórios para se cuidar. Um número expressivo, mas que não chega a 50% da categoria. Lembra que eu falei lá atrás que o trabalhador, por diferentes razões, reluta em cuidar da sua saúde?
C24H – Diante de todo esse trabalho, tem projeto novo?
Mara– Sim, temos um projeto que na verdade começou ano passado, mas vai prosseguir, porque tem muita coisa pela frente. Trata-se do levantamento sobre a Síndrome de Burnout, um distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental intenso, cuja causa está intimamente ligada à vida profissional. Neste caso, o trabalhador fica sem vontade de ir ao trabalho, sofre de ansiedade, depressão, podendo até levar ao suicídio. Geralmente acomete profissionais que têm que cumprir meta, excesso de carga horária, entre outros. Nós estamos começando com os professores, levando questionários e conversando.
C24H – Para fechar, o PAST conta com quais profissionais?
Mara – Médicos de Medicina do Trabalho, Clínico Geral, Ortopedista, Reumatologista, Dermatologista, Psicólogo, Enfermeiro do Trabalho e Técnico de Enfermagem. E gostaria de acrescentar que nossas consultas são com hora marcada, com profissionais que realmente gostam de lidar com trabalhadores. São profissionais empenhados. Uma equipe séria e dedicada ao que se propõe a fazer.