Campanha do Rim destaca relação entre diabetes e complicações renais e cardiovasculares

Encontro para debater assunto contou com especialistas e representantes do poder público de todo o país


  • 22/03/2026, 11h57, Foto: Divulgação .

O crescimento dos casos de diabetes tipos 1 e 2 no Brasil tem ampliado o risco de complicações cardiovasculares e renais, aumentando a demanda sobre o sistema de saúde e reforçando a necessidade de ampliar ações voltadas à prevenção, ao diagnóstico precoce e à organização do cuidado. Nesse contexto, o Vozes do Advocacy e o Instituto da Criança com Diabetes do Rio Grande do Sul (ICDRS) realizaram, em Porto Alegre, o I Fórum de Diabetes, Doenças Cardiovasculares e Renais.fotogaleria    O encontro reunirá associações de diabetes de diferentes regiões do país, especialistas e representantes do poder público para discutir caminhos que integrem evidências científicas, experiências de cuidado e propostas para fortalecer as linhas de atenção no Sistema Único de Saúde (SUS) e na saúde suplementar. A iniciativa integra as mobilizações da Campanha do Dia Mundial do Rim, que busca ampliar a conscientização sobre a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento da Doença Renal Crônica (DRC).

De acordo com levantamento da Sociedade Brasileira de Nefrologia, o Brasil conta atualmente com mais de 172 mil pessoas em diálise, sendo que 85% dependem do SUS para realizar o tratamento. Entre esses pacientes, 94,6% fazem hemodiálise, procedimento que exige acompanhamento especializado e estrutura complexa. As Diretrizes Clínicas do Ministério da Saúde indicam que a Doença Renal Crônica também é um fator decisivo para o desenvolvimento de problemas cardiovasculares, responsáveis por cerca de 30% das mortes no mundo. A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 10% da população global conviva com algum grau da doença. No Brasil, a prevalência estimada por exames laboratoriais é de 6,7% entre adultos, podendo triplicar entre pessoas com 60 anos ou mais, segundo dados do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde divulgado em 2024. (Leia mais abaixo)

Doença silenciosa exige investigação precoce Segundo o médico nefrologista Paulo Henrique Fraxino, vice-presidente Sul da Sociedade Brasileira de Nefrologia, um dos grandes desafios da doença renal crônica é que muitas pessoas convivem com a condição sem saber. "Entre os grupos de risco estão pessoas com hipertensão, diabetes, obesidade, infecções urinárias de repetição, histórico de cálculos renais e o próprio envelhecimento. Para que o diagnóstico seja feito precocemente, é necessário que a doença seja investigada. E isso pode ser feito com exames muito simples, como a dosagem sanguínea de creatinina e o exame de urina que avalia a relação entre albumina e creatinina. São exames de baixo custo, disponíveis na rede básica de saúde, que permitem identificar a doença no início e iniciar o tratamento adequado, evitando que o paciente evolua para fases mais avançadas que exigem diálise ou transplante renal", afirma o médico.

Vivência do paciente reforça a importância do cuidado contínuo A experiência de quem convive com o diabetes ajuda a compreender os desafios impostos pela doença e pelas possíveis complicações associadas. A publicitária e técnica de enfermagem Juliana Ferreira, de 40 anos, convive com diabetes tipo 1 e, há dois anos, também recebeu o diagnóstico de cardiopatia e faz hemodiálise 3 vezes por semana.

Para manter o controle da condição, ela adotou uma rotina disciplinada de cuidados com a saúde e acompanhamento constante.     "Preciso controlar alguns nutrientes, como potássio e fósforo, além da ingestão de líquidos. Também faço contagem de carboidratos diariamente por causa do diabetes tipo 1", explica. Segundo ela, receber o diagnóstico cardíaco foi um momento delicado. "A aceitação foi bastante difícil no começo", lembra. Com o passar do tempo, porém, ela conseguiu reorganizar sua rotina e encontrar equilíbrio para seguir com qualidade de vida. "Hoje lido com isso de forma tranquila. Tenho uma vida muito boa, como qualquer outra pessoa que não tenha a doença", afirma.

Integração entre diabetes e saúde renal Reconhecido como referência no atendimento a crianças e adolescentes com diabetes tipo 1 na América Latina, o Instituto da Criança com Diabetes do Rio Grande do Sul participa do fórum levando a experiência acumulada em quase três décadas de assistência a mais de 5 mil pacientes. A instituição, reconhecida pela International Diabetes Federation (IDF), reforça que o controle adequado do diabetes é um fator decisivo para reduzir complicações renais e cardiovasculares. "Nosso objetivo é ampliar a educação em diabetes e fortalecer o debate sobre prevenção de complicações cardiovasculares e renais, com diagnóstico precoce e acompanhamento adequado em todos os níveis de atenção", afirma o médico endocrinologista Balduino Tschiedel, diretor-presidente do Instituto.

Debate técnico e articulação de políticas públicas A programação do primeiro dia do fórum será dedicada à capacitação técnica, com painéis sobre diagnóstico, tratamento, custos das complicações e a jornada do paciente nos sistemas público e privado. Já no segundo dia, o encontro será voltado ao diálogo com gestores e lideranças do setor, abordando o cenário nacional, os desafios de acesso a exames e terapias e possíveis estratégias para conter o avanço dessas condições no Brasil, no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre. (Leia mais abaixo)

Para Vanessa Pirolo, presidente do Vozes do Advocacy, enfrentar as complicações do diabetes passa necessariamente pelo fortalecimento das estratégias de prevenção e pela coordenação adequada do cuidado. "Quando o sistema de saúde investe em diagnóstico e manejo precoce, é possível reduzir desfechos graves, como internações evitáveis, além de diminuir os custos relacionados a tratamentos de alta complexidade", conclui Vanessa.

O que é o Vozes do Advocacy? É um coletivo formado por 25 associações e dois institutos de todas as regiões do Brasil. Integrantes da Federação de Associações e Institutos de Diabete e Obesidade, essas entidades unem forças para: - Ampliar o acesso: Lutar por diagnósticos precoces e tratamentos modernos no SUS. - Influenciar Políticas Públicas: Atuar junto ao Congresso Nacional para a aprovação de leis que protejam pacientes com diabetes e obesidade. - Educação e Conscientização: Combater a desinformação e o preconceito (gordofobia) que impedem o tratamento adequado.



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