Enquanto, na mesa de negociação, os clubes não chegam a um acordo sobre a criação de uma liga no futebol brasileiro, nas arquibancadas o torcedor vai mostrando por que há empresas dispostas a investir milhões nas equipes do país, seja na própria liga ou nas SAFs. Com dez rodadas disputadas, a Série A alcançou média histórica de público: são 26.135 pagantes por jogo até aqui, número maior que em qualquer outra edição e quase duas vezes superior ao de dez anos atrás — a disputa de 2013 teve média final de 14.951 pagantes.
Nesse intervalo, houve variações, mas o Brasileirão registrou um panorama geral de crescimento de público. De 2017 até 2019, a média subiu de 15.968 para 21.236, antes de a pandemia da Covid-19 estourar no ano seguinte, esvaziar os estádios e reverter essa estatística por questões de saúde pública. Passado o período crítico, a presença dos fãs voltou a crescer: foram 20.680 por jogo em 2022. Essa empolgação no retorno, entre outros aspectos anteriores, pode ter a ver justamente com um movimento pós-pandemia, como explica Amir Somoggi, sócio-diretor da Sports Value, empresa de marketing esportivo: (Leia mais abaixo)
— Se você olhar as médias de 2016 em diante, há uma tendência de subida até a pandemia, que trouxe um elemento novo para o futebol brasileiro e que vale para qualquer atividade de marketing, shows. As pessoas se deram conta de que não se divertiram tanto. Tem também a questão do sócio-torcedor, os clubes enriquecendo e trazendo melhores jogadores...
Iniciativa tricolor
Flamengo e Palmeiras, campeões em quatro das últimas cinco edições do Brasileirão, figuram, naturalmente, no top 4: a numerosa torcida rubro-negra lidera, enquanto o alviverde — que aposta num modelo de sócio-torcedor que valoriza a frequência nas partidas a fim de obter ingressos para jogos decisivos — é quarto.
A surpresa é o São Paulo, que aparece como o segundo time que mais leva torcedores como mandante, com média de 49.360 pagantes por rodada no Morumbi. O Corinthians, com presença histórica de torcida em jogos em casa, fecha o pódio.
Diferentemente de Palmeiras e Flamengo, o tricolor não acumula campanhas competitivas nos últimos anos, apesar de ter disputado o título em 2020. Mas o apoio tem crescido com a ajuda de uma política de preços acessíveis. Recentemente, o clube comemorou a sequência histórica de sete jogos seguidos com 40 mil pessoas em seu estádio.
Ao GLOBO, o tricolor explicou sua visão: a preferência é por um estádio cheio com ingressos mais em conta em detrimento de tíquete médio e renda maiores, que poderiam afugentar o torcedor com menor poder aquisitivo. O São Paulo alega ainda que essa política contempla torcedores de todas as classes, com preço médio de R$ 50. O tricolor arrecadou mais de R$ 60 milhões em bilheteria em 2022.
— A torcida passou por uma mudança de perfil pela má fase dos últimos anos. Houve uma transformação no pensamento, que antes podia ser de somente espectador e agora é de se sentir combustível do time. Acredito que, no geral, o sofrimento acabou fidelizando o torcedor — diz Matheus Pedroso, de 26 anos, jornalista e torcedor do São Paulo. (Leia mais abaixo)
Ele aponta também os preços, as facilidades da internet e a estação de metrô São Paulo-Morumbi, a menos de 2 km do estádio e inaugurada em 2018, como outras razões.
Desafio do líder Além do Flamengo, único a ultrapassar a linha dos 50 mil, e do São Paulo, que supera os 40 mil, há outros seis times que carregam mais de 30 mil pessoas por jogo e outros seis com mais de 20 mil de média. Líder do Campeonato Brasileiro e vivendo grande momento dentro de campo, o Botafogo ainda tem o desafio de levar mais torcedores ao Nilton Santos em jogos da Série A.
No mês passado, o alvinegro registrou 35.307 pagantes e 37.682 presentes no estádio — cuja capacidade atual é de 46 mil pessoas — no confronto com o Athletico pela Copa do Brasil, o maior público desde 2007. Mas ainda não descobriu como aumentar a frequência nas arquibancadas em rodadas do Brasileirão.
Um bom exemplo é o Fortaleza, quinto no ranking de público deste campeonato, que vê um franco crescimento à medida que aumenta sua projeção no futebol nacional: são dois anos seguidos com classificações à Libertadores e almejando resultados na parte de cima da tabela. E mais de 30 mil torcedores no Castelão, em média, num ritmo de constante subida desde a volta à Série A, em 2019.
Também há boas referências em quem não tem feito tão bonito assim dentro de campo. O Coritiba, mesmo na lanterna da competição e sem um triunfo sequer na campanha, aproxima-se da média de 22 mil por jogo. (Leia mais abaixo)
Em meio aos bons números, Somoggi alerta para as taxas de ocupação, mais relevante nos casos de Santos e Vasco, por exemplo, torcidas grandes que atuam em estádios com baixa capacidade (17 mil na Vila Belmiro e 21 mil em São Januário). Com os dois jogos que mandou no Maracanã e teve casa cheia, contra Palmeiras e Flamengo, o cruz-maltino superou os 30 mil de média.
— São muitos fatores, mas uma coisa é certa: a ocupação não chega a 50%, talvez agora chegue nessas primeiras rodadas, mas, na média, não — afirma Somoggi. — O Campeonato Brasileiro poderia ter médias de quase 40 mil por jogo, como é na Alemanha. O Brasil ainda está subaproveitado em termos de média de público.
Fonte: O GLOBO