Um segundo, tum-tum. Outro segundo, tum-tum. No final de um minuto, o coração de um adulto bate umas 60 vezes. Mas pode acelerar pra valer diante de uma bela surpresa ou, muito pelo contrário, se dar ao luxo de desacelerar enquanto o corpo repousa.
Portanto, um jeito de definir uma frequência cardíaca normal é simples: é aquela que responde às nossas necessidades. Na hora de correr, o coração corre junto. Na hora de descansar, ele também pisa no freio. Mas sempre pulsaria entre 50 e 100 vezes por minuto no dia a dia. (Leia mais abaixo)
Não adianta, porém, ficar dentro dessa faixa de "normalidade" se os batimentos não são regulares. Por exemplo, se o coração até bate 60 vezes por minuto, mas fazendo tum-tum e, depois, tum-tum-tum e, depois, tum-tum de novo. A regularidade é um outro critério de avaliação para dizer que a frequência cardíaca está normal, usado por médicos como Carlos Eduardo Duarte, do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo.
Duarte é um ritmologista, como gosta de dizer, ou arritmologista, como preferem outros. Ou seja, um médico dedicado a deixar o coração no ritmo adequado. É também um especialista em estimulação cardíaca artificial, ou seja, em marca-passo.
Ele sabe muito bem que, em geral, as pessoas procuram ajuda se o peito parece querer sair pela boca sem qualquer motivo, nem aviso prévio. Vinda do nada, a taquicardia costuma mesmo assustar.
Mas também merece preocupação a situação oposta, uma bradicardia. O coração, então, costuma pulsar como se dançasse uma valsa sem a menor pressa. Tum-tum (espera, espera e...), tum. Tum-tum e...tum! Faz isso menos de 50 vezes a cada minuto. Às vezes, bem menos, aliás.
"As pessoas podem atribuir o coração com uma batida lenta a algo normal do envelhecimento. Ou podem nem perceber toda a lentidão, até a hora em que se sentem tontas, quase desmaiam ou perdem de fato os sentidos", explica o doutor Duarte. (Leia mais abaixo)
Não quero fazer o seu coração pular de susto, mas, quando não é acompanhada pelo cardiologista de tempos em tempos, a bradicardia pode até matar. E não, ela não tem idade.
O que regula os batimentos Mais rápido em uns, mais vagoroso em outros, o coração tem o seu próprio ritmo, independentemente de qualquer coisa que aconteça ao nosso redor. É o que os médicos chamam de frequência intrínseca. E quem dita esse ritmo é uma estrutura pequenina na parte superior direita do músculo cardíaco, o nó sinusal. "Ele seria o nosso marca-passo natural", explica o doutor Carlos Duarte.
Ao mesmo tempo, o coração está conectado com o sistema nervoso autônomo, que também regula, por exemplo, a temperatura do corpo e os movimentos da digestão. Por isso, influenciada por ele, a frequência cardíaca em determinadas situações pode se tornar mais baixa ou mais alta.
Com a idade Segundo o médico, seis em cada dez casos de bradicardia acontecem porque o tal nó sinusal também envelhece e, com isso, os batimentos cardíacos vão diminuindo aos poucos.
"Se parar para pensar", diz ele, "a frequência cardíaca de um recém-nascido é de cerca de 120 batimentos por minuto, enquanto o coração de um idoso na faixa dos 80 anos pode bater apenas 30 vezes nesse intervalo." (Leia mais abaixo)
Entre o nascimento e o momento em que essa frequência fica tão baixa, é possível se dar conta de mudanças sutis. "Aquela ida à padaria que, antes, demorava cinco minutos passa a consumir 15 minutos e, mais tarde, meia hora", exemplifica Carlos Duarte. "A questão é que todo mundo encara essas mudanças como um processo normal do envelhecimento."
Sim, com a idade as tarefas do dia a dia parecem acompanhar a lentificação do peito. "Mas, quando vemos uma bradicardia importante e queremos tratar implantando um marca-passo, é comum o paciente se espantar: 'eu não sinto nada de errado, doutor!".
O especialista, então, gosta de comparar com a situação do oftalmologista que vai operar uma catarata. "A pessoa acha que está enxergando bem e, só depois de operada, vê que tudo à sua volta era mais vibrante, diferente do que ela enxergava."
Em outras palavras, quando o marca-passo faz subir a frequência cardíaca que estava muito baixa, a pessoa logo sente que a sua disposição melhora. E aquela ida à padaria volta a tomar apenas cinco minutos.
Problemas de condução No restante das bradicardias — ou cerca de 40% delas — não há nada de errado com o nó sinusal lá no alto do músculo cardíaco. "Mas a rede que faria os seus comandos descerem até a parte inferior do coração, formando o pulso, apresenta bloqueios ao longo desse trajeto" (Leia mais abaixo)
Imagine um sinal para o coração bater 70 vezes por minuto, mas que vai perdendo força pelo caminho. "Ao chegar na parte de baixo, faz o coração bater apenas 35 vezes", exemplifica o ritmologista.
Em mais uma comparação, a usina elétrica do coração continuaria gerando uma boa quantidade de energia — ao contrário do que acontece com nó sinusal envelhecido —, mas, por um problema de fiação, essa energia não chegaria ao seu destino. "A grande questão dos bloqueios que estão por trás dessa outra forma de bradicardia é que eles às vezes se tornam graves ou fatais", alerta o doutor.
Um bebê pode já nascer com essa bradicardia e eventualmente seu organismo até se adapta a essa condição. Por isso, o indivíduo passa a vida — ou boa parte dela — sem sentir nada.
Essa forma de bradicardia também é capaz de aparecer na criança um pouco mais velha, no adolescente, no jovem adulto. "Mas é mais comum entre a quinta e a sexta década de vida, quando essa rede de condução dos sinais do nó sinusal tem maior risco de acumular fibroses", ensina Carlos Duarte.
Seja na idade que for, por segurança pessoas com bradicardia deveriam ser acompanhadas semestralmente pelo cardiologista, mesmo quando não se queixam de coisa alguma. "Isso seria imperioso", opina Carlos Duarte. (Leia mais abaixo)
Nas consultas periódicas, o médico prescreverá exames como o ecocardiograma e aquele teste de esforço na esteira que faz a gente ficar com a língua de fora. Eles conseguem prever se uma bradicardia que até então não causou maiores problemas irá se agravar ameaçadoramente. E, se essa for a previsão, será motivo de sobra, mais uma vez, para a pessoa usar um marca-passo.
Nem sempre há relação com a pressão arterial A frequência cardíaca faz parte, digamos assim, da fórmula que acaba determinando a nossa pressão arterial. Mas ela é apenas um fator. Por isso, a pessoa pode ter pressão baixa, apesar apresentar uma frequência cardíaca normal. Ou ter uma pressão normal, apesar de ser diagnosticada com bradicardia.
Um raciocínio parecido vale para a insuficiência cardíaca: "A frequência é uma das variáveis da força de contração do coração, que é diminuída nos quadros de insuficiência ", diz Carlos Duarte. "Mas força é uma coisa e frequência é outra."
A nova geração de marca-passos Eu conheci o doutor Carlos Duarte em um curso promovido pela Medtronic, empresa que é uma das líderes mundiais em soluções tecnológicas em saúde. Ele deu justamente uma aula sobre marca-passo. O dispositivo gera pulsos elétricos para que o coração bata no ritmo. Nas primeiras versões, ainda na década de 1950, o indivíduo com bradicardia tinha de empurrá-lo como se fosse um carrinho de supermercado.
De lá para cá, claro, ele encolheu e tornou-se implantável. As novíssimas gerações dispensam até mesmo cabos eletrodos que passam pelas veias, conectando o dispositivo instalado no coração a uma bateria de uns 3 por 2 centímetros fora do corpo. (Leia mais abaixo)
"O problema dos cabos é que muitas vezes eles fraturam, ficam infectados ou saem do lugar" conta o médico. "Por isso é animador ver marca-passos que são capazes de dispensá-los."
Com o formato parecido com o de uma cápsula de remédio, medindo 2 centímetros e pesando só 2 gramas, os novos marca-passos já vêm com tudo integrado. São introduzidos por uma punção na veia femoral até alcançarem o interior do coração. O médico consegue programá-los para um determinado número de batimentos por minuto e, mais, quando há qualquer problema, recebe um alerta diretamente em seu celular.
Algumas restrições são as mesmas dos modelos anteriores. "Marca-passos ficam desajustados diante de correntes elétricas e magnéticas", lembra Carlos Duarte. "Portanto, é preciso sair com uma carteirinha para não ter de passar por detectores de metais, por exemplo. E o ritmologista deve acompanhar exames de ressonância para reprogramá-los antes."
Os novos marca-passos sem cabos prometem durar 12 anos. Passado esse tempo, é preciso implantar outro, sem retirar o anterior. "Hoje, o coração pode carregar três deles, no máximo. Depois desses 36 anos, a pessoa poderá usar um marca-passo convencional, com cabos,", pondera o médico, no fundo achando que isso nunca será necessário. Nesse prazo, é mais provável que a tecnologia venha com mais novidade.
O fundamental é acabar com o medo do marca-passo e, além de não perder a consulta anual no especialista, medir o pulso de vez em quando, manualmente ou com a ajuda de aplicativos. Afinal, um coração que já vinha batendo devagar na juventude poderá ficar ainda mais lerdo — e mais cedo — quando o nó sinusal mostrar os sinais da idade. A bradicardia merece tanto respeito quanto a esbaforida taquicardia. (Leia mais abaixo)
Fonte: VivaBem