ARTIGO/Pandemia do Covid-19: A Aprendizagem pode iniciar-se hoje, mas e a humanidade? E a escola?


  • 17/04/2020, 17h39, Foto: Divulgação.

Artigo de Elias Rocha (@eliasrochagoncalves ) - O Psicopedagogo italiano Francesco Tonucci afirma nos seus ensinamentos que: não percamos esse tempo precioso com lição de casa. Este afirma que esse confinamento demonstra “ainda mais” que a escola não funciona ou, se funciona, está perdendo um grande momento de desafios. O (re) pensar a PANDEMIA do Covid-19.

Assim, a época de pandemia e de quarentena, vem nos revelar que são possíveis alternativas, tanto nas escolas como nas sociedades, primeiro se adaptar aos novos modos de viver quando tal é necessário e sentido como correspondente ao bem comum. (Leia mais abaixo)

Esta PANDEMIA é tão devastadora que até o Ministro da Saúde do Brasil, Dr. Henrique Mandetta, caiu. Logo, a situação torna-se propícia a que se pense em alternativas ao modo de estudar, de viver, de produzir, de consumir e de conviver nestes primeiros anos do século XXI. Na ausência de tais alternativas, não será possível evitar a irrupção de novas pandemias, as quais, aliás, como tudo leva a crer, podem ser ainda mais letais do que a atual. Ideias sobre alternativas certamente não faltarão, mas poderão conduzir a uma ação política no sentido de as concretizarem?

Ao nosso ver, em curto prazo, o mais provável é que, finda a quarentena, as pessoas queiram se assegurar de que o mundo que conheceram não desapareceu. Regressarão sofregamente às ruas, ansiosos por voltar a circular livremente pelos shoppings da vida. Ah,  que saudade! Irão aos jardins, aos restaurantes, aos centros comerciais, visitarão parentes e amigos, regressarão às rotinas que, por mais pesadas e monótonas que tenham sido, parecerão agora leves e sedutoras. Sem máscaras.

No entanto, o regresso à “normalidade” não será igualmente fácil para todos. Quando se reconstituirão os rendimentos anteriores? Estarão os empregos e os salários à espera e à disposição? Quando se recuperarão os atrasos na educação e nas carreiras? Desaparecerá o Estado de excepção que foi criado para responder à pandemia tão rapidamente quanto a pandemia? Nos casos em que se adotaram medidas de proteção para defender a vida acima dos interesses da economia, o regresso à normalidade implicará deixar de dar prioridade à defesa da vida? Haverá vontade de pensar em alternativas quando a alternativa que se busca é a normalidade que se tinha antes da quarentena? Pensar-se-á que esta normalidade foi a que conduziu à pandemia e conduzirá a outras no futuro? E a escola, como será? E a Aprendizagem perdida? E o nosso aluno, como estará?

Ao contrário do que se possa pensar, o imediato pós-quarentena não será um período propício a discutir alternativas, a menos que a normalidade da vida a que as pessoas queiram regressar não seja de todo possível. Tenhamos em mente que, no período imediatamente anterior à pandemia, havia protestos massivos em muitos países contra as desigualdades sociais, a corrupção e a falta de proteção social. Muito provavelmente, quando terminar a quarentena, os protestos e os saques voltarão, até porque a pobreza e a extrema pobreza vão aumentar. Tal como anteriormente, os governos vão recorrer à repressão até onde for possível, e em qualquer caso procurarão que os cidadãos baixem ainda mais as expectativas e se habituem ao novo normal. Principalmente, estaremos em ano de eleições. Tudo será resolvido pelos candidatos. Será?

Na ausência de alternativas, outras pandemias ocorrerão, mas essa probabilidade deixa de ser uma questão política. É que os políticos que enfrentaram esta crise já não serão os que terão de enfrentar a próxima. Ao nosso ver, só não será assim se a cidadania organizada (partidos políticos, movimentos e organizações sociais, mobilizações espontâneas de cidadãos, cidadãs, as escolas e as famílias) resolverem pôr fim à separação entre processos políticos e processos civilizatórios que ocorreu simbolicamente a partir da queda do Muro de Berlim e outros adventos históricos. (Leia mais abaixo)

Só com uma nova articulação entre os processos políticos e os  processos civilizatórios será possível começar a pensar  numa  sociedade em que humanidade assuma uma posição mais humilde no planeta que habita. Uma humanidade que se habitue a duas ideias básicas: há muito mais vida no planeta do que a vida humana, já que esta representa apenas 0,01% da vida existente no planeta; a defesa da vida do planeta no seu conjunto é a condição para a continuação da vida da humanidade.

Com o pensar de Boaventura de Souza Santos, se a vida humana continuar a pôr em causa e a destruir todas as outras vidas de que é feito o planeta Terra, é de esperar que essas outras vidas se defendam da agressão causada pela vida humana e o façam por formas cada vez mais letais. Nesse caso, o futuro desta quarentena será um curto intervalo antes das quarentenas futuras.

A nova articulação pressupõe uma viragem epistemológica, cultural e ideológica que sustente as soluções políticas, econômicas e sociais que garantam a continuidade da vida humana digna no planeta. Essa viragem tem múltiplas implicações. A primeira consiste em criar um novo senso comum, a ideia simples e evidente de que sobretudo nos últimos quarenta anos vivemos em quarentena, na quarentena política, cultural e ideológica de um capitalismo fechado sobre si próprio e a das discriminações, em geral, sem as quais ele não pode subsistir. O ser humano está à margem dos acontecimentos.

Nota-se que a quarentena provocada pela pandemia é afinal uma quarentena dentro de outra quarentena: a da falta de humanidade. Somos estranhos aos nossos irmãos caídos nas sargetas! Superaremos a quarentena do capitalismo quando formos capazes de imaginar o planeta como a nossa casa comum e a Natureza como a nossa mãe originária a quem devemos amor e respeito. Ela não nos pertence. Nós é que lhe pertencemos. O que está em jogo é maior que um simples vírus: o nosso olhar deverá ser humanizado. Não será mais possível acharmos normal uma criança passar fome, sede e não ter uma escola digna para estudar e aprender.

De forma sacramental o poeta Leandro Gomes de Barros sentência dizendo: se eu conversasse com Deus Iria lhe perguntar: Por que é que sofremos tanto, quando viemos pra cá? Que dívida é essa que a gente tem que morrer pra pagar? E vai mais longe questionando: Perguntaria também como é que ele é feito que não dorme, que não come e assim vive satisfeito. Por que foi que ele não fez a gente do mesmo jeito? Por que existem uns felizes e outros que sofrem tanto? Nascemos do mesmo jeito, moramos no mesmo canto. Quem foi temperar o choro e acabou salgando o pranto? (Leia mais abaixo)

Desta feita, quando superarmos esta quarentena, estaremos amordaçados por outras quarentenas provocadas por falta de humanidade, de escolas com ensinos para o longo da vida e por aprendizagens significativas. Assim, surgem alguns questionamentos: Como fica a humanidade pós-quarentena? Como (re) desenhar a escola para nos ensinar o que nos falta? Ou cairíamos nas onze coisas que as escolas não nos ensinam, profetizada por Bill Gates?

ELIAS ROCHA GONÇALVES é professor, advogado e Ph.D em Organização e Gestão Escolar. Membro da Academia Campista Letras e Membro da Acadeia Pedralva Letras e Artes

 



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