
Entenda o que pode estar acontecendo em nossa entrevista com a Neuropsicopedagoga Dra Andressa Amaral sobre os problemas relacionados à alfabetização.
Campos 24 Horas: Dra está cada vez mais comum as queixas de pais sobre filhos que não conseguem ler e escrever ou que apresentam dificuldades na aprendizagem e no processo de alfabetização. O que causa esse problema?
Dra Andressa Amaral: Inúmeros podem ser os fatores que levam uma criança a ter um atraso ou dificuldades específicas no processo de alfabetização. A grande questão é entender qual o problema específico está levando aquela criança à determinada dificuldade.
C24H: Como é possível perceber se há algo de errado com a criança?
Dra Andressa Amaral: Geralmente esses sinais, são mais comuns de serem detectados quando a criança entra na fase de alfabetização na escola que geralmente inicia aos seis anos de idade, podendo variar de acordo com o perfil de cada escola. É nesta fase que os professores detectam que aquele aluno não acompanha o desenvolvimento dos colegas, que apresenta dificuldades em cópias, e muitas vezes não desenvolvem processo de consciência fonológica.
Contudo, já é possível identificar, lá na educação infantil, quando há alguma coisa de errado no desenvolvimento daquela criança e que certamente irá refletir no processo de alfabetização. Geralmente estas crianças, apresentam comprometimentos no desenvolvimento psicomotor, seja na coordenação fina ou grossa, tem dificuldades com movimento pinça, a pintura destas crianças também já se apresenta comprometida. Na maioria das vezes, eles já apresentam dificuldades de lateralidade, noção espacial e temporal – que são questões já observadas e trabalhadas na educação infantil.
C24H: Então é possível já perceber que a criança terá problemas de aprendizagem a partir de qual idade? E já se consegue tratar?
Dra Andressa Amaral: A partir do início da vida escolar já é possível esta observação. Em relação a tratamento, uma vez detectado que há algo de errado com esta criança, imediatamente a escola deverá sinalizar aos pais, que devem conduzi-la a um profissional especialista em dificuldades de aprendizagem para que se possa ser feita uma avaliação e detecção precoce do problema, para depois, se necessário iniciar uma intervenção.
É um grande erro, quando uma criança apresenta uma dificuldade ou inabilidade na aprendizagem, esta ser levada imediatamente para tratamento com psicopedagogo. Na verdade antes de qualquer tratamento esta criança deve ser avaliada para se entender as causas do problema com especialista em avaliação de perfil cognitivo, vez que pode ser um quadro circunstancial e uma simples dificuldade de aprendizagem, ou ainda um quadro de dislexia, disgrafia, discalculia, TDAH, Retardo Mental, que são quadros específicos e que necessitam de tratamentos também específicos. Não há um padrão de tratamento para crianças com dificuldade de aprendizagem. Primeiro é preciso entender de qual dificuldade estamos falando.
C24H: Dra, mas na maioria dos casos o psicopedagogo é o profissional que cuida destes problemas?
Dra. Andressa: Como falei, depende do quadro. Há situações, que um pedagogo é mais indicado no processo ou até um alfabetizador especialista. Existem também situações em que a criança necessitará de outras intervenções terapêuticas, às vezes da Terapia Ocupacional, Fisioterapia e fonoaudiologia e até de medicações para auxílio no tratamento. Mas tudo isso se define após avaliação.
C24H: É muito comum virmos pais questionando e cobrando a escola em relação ao filho que tem que escrever ou ler. Isso é correto?
Dra Andressa Amaral: Em grande maioria, por ansiedade em ver as crianças lendo, escrevendo, os pais acabam pressionando as escolas no que tange a atividades de escrita por exemplo. Ocorre que muitas coisas mais importantes precedem a escrita, dentre elas, o brincar, o correr, o pular, o manusear tesouras, cortar papais, pintar, que são condições indispensáveis para uma boa alfabetização. E muitas vezes, as famílias pensam que os filhos só vão para escola para brincar... mas é exatamente este brincar que irá garantir maturidade cognitiva para esta criança escutar, identificar, codificar as letras e fonemas e depois escrever e consequentemente ler.
C24H: Toda criança consegue ser alfabetizada?
Dra Andressa Amaral:Depende do que entendemos por alfabetização. Ler e escrever é um processo que demanda algumas habilidade e requisitos, dentre os quais preservação de algumas habilidades cognitivas, sendo assim é comum crianças com necessidades especiais que não conseguem ler e escrever em função de suas patologias. Assim como temos quadros mais agravados que o comprometimento cerebral é tamanho que não é possível desenvolvimento do processo de consciência do eu.
Mas em se tratando de crianças com dificuldades de aprendizagem, sem tais comprometimentos, ainda que portadores de transtornos de aprendizagem tais como: Dislexia, TDAH, Autismo e outros, há grandes possibilidades sim, desta criança ser alfabetizada, até porque, ao meu ver, e minha ideologia enquanto profissional, Vale dizer que alfabetizar vai além da leitura e escrita, é um processo que envolve em primazia o desenvolvimento do intelecto autônomo do indivíduo. É preciso trazer ao mundo um indivíduo formador de opinião e consciente de si antes de qualquer situação, que se identifique no mundo e tenha condições de praticar suas atividades de vida diária. É nesta alfabetização que acredito, principalmente quando falamos de crianças com necessidades especiais.
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