Nestes tempos atuais onde a política tem sido marcada pelo radicalismo e até mesmo o ódio entre adversários, a serenidade e o equilíbrio do ex-prefeito Rockfeller de Lima foi lembrado com carinho pelos amigos que com ele conviveram quando frequentavam o calçadão ou Boulevard Paula Carneiro, no Centro de Campos, também conhecida como “rua do homem em pé”. Rock morreu nesta segunda-feira, aos 90 anos. Entre os que conviveram com Rock está o poeta, jornalista e ex-deputado Fernando Leite Fernandes.
Embora atuassem em campos ideológicos diferentes na política, Fernando destacou que entre as qualidades de Rock era a preservação da amizade e o respeito às divergências. (Leia mais abaixo)
— Quando descia pela rua do homem em pé era comum encontrá-lo cercado de amigos, sempre risonho, ele e sua elegância de um lord inglês. Costuma me saudar assim: “Fernandinho, junte-se aos bons”. Ele tinha uma ótima memória, um grande contador de histórias. A pauta era variada, mas a política abria e fechava a resenha. Nestes tempos beligerância na política, que cheira a pólvora, sua educação e formação politica farão muita falta.
Fernando Leite conta que um fato que lhe chama atenção é que Rock, “mesmo sem mandato, matinha amigos longevos, que se transformavam em militantes de suas campanhas e, independentemente dos resultados, a maioria adversos, os fiéis escudeiros não o abandonavam”, acentua Fernando.
“Com ele vai uma escola política que cumpria o protocolo do debate propositivo, era um conservador dialético, capaz de levar seus argumentos no enfrentamento eleitoral ao extremo, mas incapaz de usar uma palavra afiada para ferir um adversário”.
A jornalista Silvia Salgado lembrou que Rocha era um democrata que governou sem ódio ou revanchismos. “Entrevista-lo era uma alegria”. Silvinha, como é também conhecida, relembra uma passagem de que foi testemunha envolvendo Rockfeller. — Foi no começo dos anos 1990, quando estava eu de plantão no gabinete do prefeito Garotinho quando chegou de surpresa o ex-deputado Marcelo Cerqueira que me pediu para que entrasse em contato com Rock. Ele disse, como advogado de presos políticos, que fazia a defesa do dr. Barcelos Martins, prefeito em 1964, que fora preso pela ditadura militar. A maioria dos companheiros de Barcelos sumiu, não quis conversa. Rock era vice de Barcelos e então um jovem que se iniciava na política, deu um depoimento corajoso e veemente em defesa de Barcelos Martins, em defesa da democracia.
O professor e jornalista Avelino Ferreira, também adversário político de Rock, era outro que mantinha longa amizade com o ex-deputado. (Leia mais abaixo)
— Tinha muito respeito por Rock e gostava muito dele. Era um gentleman, um político conservador, bom orador, mas sem fisiologismo ou demagogia. Chegamos a fazer um documentário quando montamos um memorial na Câmara de Vereadores, na gestão de dr. Edson Batista. Nossa amizade vem de longe porque minha mãe estudou com ele no colégio São Salvador.
Avelino lembra que Rock construiu obras importantes como o Palácio da Cultura, na década de 1970. “À época ele foi muito criticado, mas depois o campista teve o reconhecimento da importância da obra para uma cidade de porte médio porque cidade alguma, inclusive muitas capitais, não possuíam um equipamento como aquele”, reconheceu.
— Rock tinha uma visão ampla como gestor. Foi ele quem construiu os ginásios em distritos e localidades mais distantes, onde não existia o ensino médio. As pessoas tinham que estudar na cidade para fazerem o segundo grau — acrescentou Avelino.
O prefeito Wladimir Garotinho (sem partido) desejou “muita força e paz à família” e anunciou que irá decretar luto oficial “em justa homenagem pelos seus serviços prestados à nossa cidade”.
Filho de pequenos proprietários rurais, Rock era formado em Direito e ocupou também cargos na Previdência Social. Além de prefeito, Rockfeller começou a carreira política como vereador, na década de 1960, antes do golpe militar. Além de prefeito (duas vezes), foi ainda deputado federal, deputado estadual e suplente de senador. O corpo de Rockfeller do ex-prefeito está sendo velado no cemitério Campo da Paz. O enterro será nesta segunda, às 17 horas, no cemitério de Travessão, onde Rock nasceu. (Leia mais abaixo)