Álbum da Copa: Por que, na era do virtual, o reinado das figurinhas segue inabalado


  • 10/09/2022, 16h30, Foto: Divulgação.

Nas últimas três semanas, o movimento na Rua Uruguaiana, uma das principais do Centro do Rio, ganhou um acréscimo que já faz até parte do calendário. A cada quatro anos, pessoas de diferentes idades se reúnem nas calçadas para trocar figurinhas da Copa do Catar. É o caso do analista de TI Flávio Menezes, de 41 anos, e sua filha Juliana Vieira, de 17.

— Álbum da Copa é tradicional. Mas gosto de preencher os do Flamengo também. Minha filha gostava muito do Pokémon, da (boneca) Polly, do Rebelde (novela)... (Com o da Copa) As crianças aprendem os países. Acaba sendo cultura também — opina Flávio. (Leia mais abaixo)

O sucesso do álbum não é novidade. Mas chama a atenção por desafiar seu próprio tempo. Numa era de digitalização de produtos e serviços — da qual o futebol faz parte —, as figurinhas seguem reinando na preferência do público. Apesar da força dos fantasy games e dos jogos online no mercado do entretenimento, os cromos e álbuns físicos chegam a mais uma Copa sem serem incomodados.

Boa parte deste fenômeno passa pelo aspecto cultural. O produto é lançado desde 1970 e faz sucesso em diversos países onde o futebol é popular. Principalmente na América Latina. Logo, trata-se de uma prática transmitida entre gerações. Em Buenos Aires, na Argentina, os colecionadores estão sofrendo para achar cromos e álbuns nas bancas. Eles se esgotaram nos primeiros dias. Já no México, o lançamento precisou ser antecipado porque as figurinhas já estavam sendo vendidas de forma extraoficial.

— Acho que é por ter o álbum e as figurinhas nas mãos. Acaba sendo algo que valoriza com o tempo. E tem essa troca de interação com as pessoas. Principalmente depois da pandemia, né? Ficamos um tempo sem isso — opina Juliana.

A interação social proporcionada pelas figurinhas foi um dos fatores mais citados pelo público na Uruguaiana. No rastro do sucesso dos troca-trocas, shoppings de todo o país criaram espaços voltados para esta prática.

— Troco na escola, bato bafo (jogo no qual quem consegue desvirar os cromos batendo neles com a palma das mãos pode levá-los), combino de trocar com o pessoal do meu antigo colégio, vamos um na na casa do outro... — enumera o estudante Dan Medeiros, de 15 anos, que coleciona pela primeira vez. (Leia mais abaixo)

A tecnologia não é deixada de lado. Os aplicativos de mensagens se tornaram espaço para grupos nos quais as pessoas trocam informações sobre figurinhas repetidas e combinam trocas. Além disso, há uma série de apps para celular que ajudam a fazer o controle do álbum quanto a encontrar pontos de troca pelas cidades.

— A cultura realmente vai mudando hábitos. Mas o cérebro permanece o mesmo que era há 5, 10 ou 40 mil anos atrás. Não que ele não tenha capacidade de se adaptar. Mas estão sempre presentes nele essas necessidade de estimular as vias sensoriais e de produzir atos motores — aponta o professor da PUC-Rio e diretor do Núcleo de Neuropsicologia Clínica e Experimental Jesus Landeira. — Você ver a figura, a cor, tocar na figurinha. Tudo isso é estímulo. E depois você cola a figurinha no álbum e folheia. É uma coisa motora. Esses aspectos sensoriais e motores são mediados pelo cérebro.

Dificilmente o álbum a ser lançado daqui a quatro anos não causará o mesmo impacto. Mas quem trabalha com tecnologia aposta que, no longo prazo, o reinado dos cromos físicos pode ser ameaçado.

— O mundo está caminhando do físico para o digital. Acredito, e as tendências estão mostrando, que isso vai valer também para as figurinhas. Não tenho dúvida de que essa geração que está vindo aí, essa molecada a partir dos 10 anos, está querendo cada vez menos ter coisas físicas. Querem armazenar todos os seus bens no telefone. Então acho que vai haver uma transição — projeta Sylmara Multini, CEO da empresa IDG NFT, que trabalha com projetos de NFT no esporte e no entretenimento:

— Mas sempre vai continuar existindo a figurinha física. (Leia mais abaixo)

 



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