25/10/2015 00h57 - Foto: Campos 24 Horas
Postado por: Fabiano Venancio

A Emergência de um hospital é a porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e claro, não pode fechar, devendo estar sempre aberta. Como essa, outra porta importante é a de saída do hospital, que deve também ser preparada para fazer essa condução, de um local para outro.
A metáfora serve para explicar o problema de uma das maiores unidades de saúde da região, o Hospital Ferreira Machado (HFM), mas que está sendo resolvido e já com bons resultados, pelo superintendente do hospital, o médico Dante Pinto Lucas, há três meses no cargo.
E como diminuir o fluxo nessa porta de entrada, sem negar atendimento, o que não pode? E como abrir essa porta de saída para que o hospital fique temporariamente desafogado para receber outros, outros e outros pacientes? Dante Lucas afirma que foi preciso e ainda o é, de muita conversa, união de equipes de trabalho, parcerias, entrosamento, até com grupos da sociedade civil organizada.
E precisa muito planejamento, levando-se em conta que se trata de um hospital por onde passam cerca de 300 pacientes/dia. Um hospital que tem estatística de cerca de 4.100 pacientes vítimas de acidentes de carro/ano, além de outros mil e tantos de acidentes de moto, acidentes de bicicleta, acidentes domésticos, quedas, agressões físicas, entre outros.
Veja a entrevista:
Campos 24 Horas – Vamos falar da figura de linguagem: a porta. Como diminuir a porta de entrada de um hospital?
Dante Pinto Lucas– Primeiro a gente começou a dialogar, trocar ideias, ouvir sugestões, promover reuniões semanais, ouvir as chefias, até chegar à criação de um protocolo de rotina e serviço. Depois começamos a fazer estatísticas de atendimento, com acidentes de moto, carro, entre outros acidentes que fazem as vítimas precisarem de socorro. A partir daí perguntamos à Polícia Rodoviária Federal, Polícia Militar, Guarda Municipal, Clubes de Motos e outros, o que foi feito para diminuir essa estatística e vimos que ações individuais não resolvem. Foi aí que resolvemos chamar todos para uma parceria.
C24H – Por isso que na semana passada foi realizada audiência pública na Câmara?
Dante – A audiência foi um desdobramento disso tudo, uma forma de reunir as autoridades da área de segurança para falar de um problema que não para de crescer e sobrecarrega as unidades de saúde. Uma forma de propor ações conjuntas, todos pensar juntos. Foram apresentadas sugestões para impedir que motos sem condições de circulação adquiridas em leilões voltem a transitar, identificar motoboys, exigir habilitação de quem anda com as de pequena cilindrada e outras. A realização de campanhas educativas foi reforçada por todos os participantes como sendo uma medida a ser adotada, assim como ações em conjunto envolvendo as polícias e a Guarda Municipal. Ainda sobre motos, de que as que são vendidas em leilão como sucatas, que saiam de lá prensadas e não andando como se estivessem boas, causando acidentes.
C24H – E agora, doutor? A partir daí?
Dante – Vamos continuar conversando com a sociedade civil, de outras esferas, como por exemplo, o Sindicato da Construção Civil, já que o número de acidentados por queda e outros neste setor também é muito grande. Também vamos nos reunir com representantes dos ciclistas e ver o que pode ser feito para ajudá-los, até mesmo um curso de primeiros socorros, quem sabe. O que não podemos é ficar parados, esperando que os acidentes aumentem cada vez mais.
C24H – E quanto a porta de saída?
Dante – Todo o paciente que entra na unidade, trabalhamos para que ele saia e saia bem. Neste caso trabalhamos com a transferência do paciente para os hospitais contratualizados pela prefeitura, após nosso atendimento. E quanto aos pacientes de outros municípios, após se estabelecerem, fazer a transferência deles para os hospitais de suas cidades, para terminarem o tratamento lá. Aliás, essa questão de pacientes de outros municípios é outra história.
C24H – Que história?
Dante – O Hospital Ferreira Machado é referência para Campos e existe um acordo para atender também os pacientes de São João da Barra, São Francisco do Itabapoana e São Fidélis e, também, os pacientes vítimas das BRs que passam pelo município. Mas vem pacientes aqui de Aperibé, Cardoso Moreira, Quissamã, Macaé, Conceição de Macabu, entre outros municípios, que trazem para cá e superlotam o hospital. Sem contar que Aperibé a referência é Itaperuna, assim como Cardoso. E como negar atendimento a esses pacientes? Não podemos. Hoje temos aqui até pacientes de outros estados, como Espírito Santo, das cidades de Castelo e Alegre.
C24H – Tem alguma providência também neste sentido, ou seja, desafogar a porta de entrada?
Dante – Sim, elaboramos um documento, pedindo ao Ministério Público para que convoque os secretários de saúde destes municípios para resolver a situação. O mesmo procedimento com o Estado, para que dê condições a esses municípios de atenderem seus pacientes. O documento está pronto e está agendada a reunião. Isso também é uma forma de desafogar o atendimento, dando maior atenção aos nossos pacientes.
C24H – O senhor falou em outra agravante, a incidência de tuberculose...
Dante – É uma agravante a mais e a maioria dos pacientes é detento, população privada de liberdade. Imagine que temos aqui em Campos três presídios é uma população de 2 mil 600 presos, com um médico na Casa de Custódia e uma enfermeira no Carlos Tinoco. Temos ou não que fazer um trabalho neste sentido, como forma de diminuir o fluxo no hospital? Fiz uma reunião com a equipe do DIP daqui para ajudar a tratar essa população, para que não precisem chegar até o hospital. Assim, disponibilizamos exames para 30 presos/dia e, caso seja identificada a doença, iniciar o tratamento. Tudo será operacionalizado lá na unidade deles, como coleta de escarro, e pretendemos fazer em todos. São propostas que vão surtir efeito na prática.
C24H – Propostas, tem mais neste sentido?
Dante – Tem, a outra é que esses pacientes privados de liberdade, primeiro, passem pela UPA de Guarus e, fechado o diagnóstico, tendo que internar sejam transferidos para o HFM. Porque não é somente tuberculose, eles têm outras patologias, como por exemplo, diarreia, que pode ser tratada também lá na UPA.
C24H – Passei por alguns setores do hospital e as pessoas disseram que o senhor roda tudo ali...
Dante – É verdade, vou a todos os setores, converso com as chefias, com os demais funcionários, com os pacientes e com as familiares. Eu quero ouvir, ter sugestões, críticas, saber o que está acontecendo para, se possível, consertar. E eles gostam disso, dessa interação, desse contato, faz a diferença no dia a dia.
C24H – Nessas suas andanças, houve muitas histórias, não?
Dante – Algumas marcam a gente. Aqui tinha uma menina que estava com endocardite coronariana, que melhorava, depois entrava em depressão e piorava. Esteve assim várias vezes, chamando a atenção dos profissionais, que descobriram que era a falta da mãe que a visitava e ia embora. Fui averiguar essa história e soube que a mãe não ficava, porque tinha perdido a irmã, estava cuidando dos sobrinhos pequenos, estava quase morando na sua, entre outros problemas. Ai chamei o serviço social, que deu todo o suporte a ela, para que pudesse dar mais atenção à filha. Resumindo: A menina ficou boa e está em casa.