MORTÍFERA - A letalidade da variante mais agressiva da Covid que circula em Campos

Médicos e autoridades relatam casos impressionantes de jovens intubados vitimados pela nova cepa que evoluem muito rapidamente a óbito


  • 17/04/2021, 08h10, Imagem: reprodução.

Uma variante perigosa e traiçoeira, agressiva e transmissível, e por consequência mais mortal, que invade o sistema imunológico e evolui mais rapidamente para o óbito, atingindo também pessoas mais jovens. Estas são algumas das características da nova cepa da Covid 19 que circula em Campos e que nas ultimas semanas aumentou potencialmente o número de vítimas até superar a marca de 1 mil mortes. Estes são dados desta matéria especial do Campos 24 Horas que mostra porque os campistas devem se preocupar. O diagnóstico foi apresentado nesta sexta-feira (16) por autoridades da área da Saúde no município em reunião virtual do Gabinete de Crise de Combate à Covid-19, quando foram apresentados dados epidemiológicos sobre o impacto das medidas restritivas de circulação que levaram à redução da transmissão do vírus e do número de pessoas em fila de espera. Mas os relatos sobre casos de jovens intubados impressionaram pela rapidez da evolução da doença.

Na reunião, o subsecretário de Atenção Básica, Vigilância Sanitária e Promoção de Saúde, Charbell Kury, alertou para o perfil devastador desta nova variante. “Esta variante é extremamente perigosa e traiçoeira que atinge não apenas os idosos, mas os jovens com um grau de letalidade. Uma explicação é que quando ela chega para a população mais idosa não pega mais nesta faixa etária já vacinada, mas começa a atingir a população mais jovem que está mais exposta que anda mais nas ruas, vive mais relaxada ou em festas clandestinas. É uma variante que gosta do paciente mais jovem”, declarou. (Leia mais abaixo)

Charbell contou que ouviu de colegas relatos assustadores sobre a evolução da doença e sua letalidade entre os mais jovens. "São relatos assustadores. Há dias conversei com um colega que da UTI do Hospital Ferreira Machado. Ele me dizia que tinha um paciente, um rapaz de 30 e poucos anos, que conversava com ele, foi intubado e daqui a pouco ele olha pra trás, faz um movimento e viu que o coração do rapaz parou. São relatos que precisamos levar para a população ver a letalidade desta nova cepa extremamente transmissiva e letal, atingindo pessoas mais jovens, de 20, 24, 30, 33 anos. E de uma forma muito rápida" disse.

O vice-prefeito Frederico Paes (MDB), que comandou os trabalhos na reunião, contou ter ficado igualmente impressionado com as características da variante. "Esta nova cepa tem um nível de agressividade muito maior e de ação mais rápida. Estive numa visita de observação do CCCC (Centro de Controle e Combate do Coronavírus) no Hospital da Beneficência Portuguesa, e me chocou muito ver jovens de 30, 40 anos intubados, sem comorbidades e nenhuma doença pré-existente, com indicações de uma situação que estava se agravando.  Uma outra pessoa com menos de 40 anos deu entrada e em menos de 24 horas veio a falecer — relatou o vice-prefeito.

“Em março vivemos o nosso pior momento epidemiológico. Com as pessoas vacinadas e as medidas restritivas que tomamos a doença foi se reduzindo um pouco. Mas agora com esta nova cepa nestes últimos dias ela assumiu sua face mais traiçoeira, em que precisamos de uma vigilância mais sensível”, declarou Charbell.

A maioria dos últimos casos de óbitos por Covid em Campos são de pessoas que se identificaram como “do lar” ou “aposentado”. É uma mãe ou pai que perdeu o emprego e está fazendo um “bico” para sobreviver e não tem como ficar o tempo todo em isolamento social. Gente que precisa sair de casa para ganhar a vida numa situação onde quase todo mundo é linha de frente. “Daí que muitas categorias reivindicam a condição de linha de frente para terem prioridade na vacinação. Ora, são muitas as profissões na linha de frente. A moça que trabalha como caixa no supermercado é também da linha de frente”, ponderou. 

Os pacientes de leitos nas redes pública e privada têm características semelhantes. “Boa parte deles são pessoas que viajam de Campos para Macaé, que embarcam e desembarcam nestes locais, frequentam navios e plataformas onde há surtos e casos de incidência de Covid. Ainda estamos na fase de alto risco, mas a tendência é descermos nas próximas semanas para moderado”, pontuou ainda Charbell. (Leia mais abaixo)

O subsecretário afirmou ainda que, vencida esta etapa, a próxima será a estruturação das unidades básicas de saúde para uma campanha de testagens na população em cada bairro. "Quando a gente está numa guerra, nós trabalhamos a artilharia e a infantaria numa primeira fase. Agora o próximo passo é guerrear de casa em casa, de porta em porta em casa bairro. Vamos fortalecer as estruturas nas UBS e trabalhar para fazer um trabalho forte de testagem. O doutor Rodrigo Carneiro vai se dedicar para poder achar cada um dos casos que vai aparecer em pessoas não vacinadas e até mesmo as que já forem vacinadas. Quando acabar esta terceira onda ainda teremos pequenos surtinhos em bairros da cidade. Se alguém se sentir gripado em sua casa com um quadro respiratório, vai fazer um teste e vai ficar em isolamento e recebendo medicação. É assim que funciona bem na Coréia, em Araraquara e qualquer lugar no Brasil — comentou.  

REDUÇÃO DE MORTES - A campanha de imunização em Campos tem produzido bons resultados. No período entre inicio de fevereiro e abril, a população entre 80 e 89 anos, uma das primeiras faixas etárias a serem vacinadas, registrou redução percentual de 26% para 4% no número de óbitos. “Com isso, de janeiro a abril tivemos uma redução de 29 para 5 casos de óbitos nesta faixa, evitamos 24 mortes com a vacinação das pessoas. Temos que soltar fogos, é pra se comemorar”, acrescentou Charbell Kury.

Nas faixas entre 70 a 79 anos houve também redução de 30% para 12% nas mortes durante o mesmo período. Entre as pessoas vacinadas, na faixa etária de 70 anos ou mais, houve diminuição no percentual de mortes de 58% para 20%.

O vice-prefeito afirmou ainda que as medidas de combate ao Covid-19 são orientadas por dados técnicos e científicos e que o governo não cede a pressões de setores da sociedade. "A nossa postura sempre foi a de ouvir a ciência. Não decidimos influenciados por pressões. Temos conversado com as entidades representativas dos setores produtivos e da sociedade. As manifestações são legítimas mas inclusive pecaram pelo não uso de máscaras e sem distanciamento físico, o que não é recomendado pelas autoridades médicas. Não cedemos a este tipo de pressão — concluiu Frederico Paes".   

A TAL VARIANTE - No dia 24/02 deste ano, um estudo apontava uma variante do novo coronavírus detectada no Reino Unido presente em, pelo menos, 16 cidades brasileiras, incluindo Campos. A conclusão foi um trabalho realizado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Rede Corona-Ômica, uma sub-divisão da Rede Vírus, comitê criado em março do ano passado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) dedicado em reunir especialistas e centros de pesquisa em iniciativas de combate ao covid-19 e outras viroses emergentes. (Leia mais abaixo)

A pesquisa teve ainda a colaboração do laboratório Instituto Hermes Pardini e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foram sequenciados 25 genomas pertencentes à variante originária do Reino Unido, conhecida como linhagem B.1.1.7. O levantamento foi realizado a partir de amostras de um banco de dados composto por 740 mil exames disponibilizados pelo Instituto Hermes Pardini.

As cidades onde a variante foi encontrada são: Belo Horizonte (MG), Betim (MG), Araxá (MG), Barbacena (MG), Rio de Janeiro (RJ), Campos dos Goytacazes (RJ), Curitiba (PR), Cuiabá (MT), Primavera do Leste (MT), Aracajú (SE), São Paulo (SP), Americana (SP), Santos (SP), Valinhos (SP), São Sebastião do Passe (BA) e Barra do São Francisco (ES).

A variante inglesa foi identificada em dezembro do ano passado por autoridades sanitárias do Reino Unido e é considerada mais contagiosa do que a versão original do novo coronavírus.



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