A língua portuguesa tem suas complicações. Por isso, uma boa revisão é fundamental antes da prova de Redação do Enem. Organizamos uma lista de 35 erros comuns que não devem ser cometidos pelos candidatos.
A seleção e as explicações foram feitas pelos professores Monika Nascimento de Almeida dos Santos, da Escola SEB Unimaster, parceira da Plataforma AZ; Victor Delmas, do Colégio e Curso AZ; Rafael Pinna, do Colégio Ao Cubo; Thaiane Espíndola, do Colégio Qi; Hilaine Gregis, do Colégio Leonardo da Vinci Gama; e Raphael Hormes, do Descomplica. (Leia mais abaixo)
1. Verbo haver no impessoal O verbo haver não pode ser flexionado.
2. Onde/aonde Como as próprias palavras indicam, a diferença entre “onde” e “aonde” é o “a”. Para saber quando usar um ou outro, portanto, é preciso verificar se o verbo demanda a preposição “a” ou não. Normalmente, os verbos com essa regência indicam movimento, por isso normalmente “aonde” carrega essa ideia. Vale lembrar que ambos os casos devem ser utilizados apenas para fazer referência a lugares. Veja os exemplos abaixo:
3. Separar o sujeito do predicado O sujeito não pode ser separado do predicado com vírgula. No exemplo abaixo, “Um bando de pássaros” é o sujeito e “voava perto do Ribeirão Arrudas” é o predicado.
4. Cerca de / Acerca de A expressão “cerca de” tem o mesmo sentido de outras do mesmo campo semântico, como “em torno de”, “por volta de”. Ou seja, significa “aproximadamente”. A expressão “acerca de” é uma locução prepositiva equivalente a “sobre”. Veja exemplos do uso correto:
5. Uso da crase A crase nunca é utilizada diante de substantivo masculino e diante de verbo. No exemplo abaixo, pé é um substantivo masculino. (Leia mais abaixo)
6. A fim / Afim As duas expressões existem, mas são empregadas para gerar sentidos diferentes. Quando separada (“a fim”), a expressão indica finalidade (“fim” é sinônimo de finalidade). Quando grafada “afim”, a palavra indica “afinidade” (ou semelhança). Na maior parte dos casos nas Redações do Enem, o correto é o emprego de “a fim”. Exemplos:
7. Truncamento de período Ocorre quando há a presença de um ponto final separando duas orações que deveriam constituir um mesmo período. No exemplo, a oração “fazendo com que elas não estudem (...)” é subordinada à principal “No Brasil, muitas pessoas não se interessam por assuntos políticos” e, por isso, não pode haver ponto final entre elas.
8. Justaposição de orações Ocorre quando duas orações são independentes sintaticamente e deveriam ser isoladas pela presença de um ponto final, mas há, entre elas, apenas uma vírgula. No exemplo, caso houvesse uma conjunção explicativa entre as orações, como “pois”, elas poderiam formar um mesmo período. Não havendo elemento coesivo, as orações devem ser isoladas, já que as duas têm seus elementos sintáticos completamente preenchidos.
9. Implicar/Acarretar Diferentemente do que a maior parte das pessoas acredita, os verbos “implicar” e “acarretar” são transitivos diretos, ou seja, não permitem o uso da preposição “em”. Veja os exemplos:
10. Uso do conforme Sabemos que alguns conectivos são polissêmicos (podem apresentar mais de um valor). A conjunção “como”, por exemplo, manifesta valor de causa, comparação ou conformidade. Entretanto, é preciso respeitar o valor da conjunção quando ela não é polissêmica. Um exemplo desse uso inadequado tem ocorrido com a conjunção “conforme”, que muitos passaram a usar como sinônimo de “à medida que”, que tem valor proporcional. (Leia mais abaixo)
11. Excesso de elementos sintáticos Ocorre quando um mesmo elemento sintático sofre repetição, o que é inadequado. No exemplo abaixo, o artigo “a” foi duplicado, pois a contração “pela” é constituída pela soma da preposição “por” e do artigo definido “a”. Assim, não há necessidade de um outro artigo após a contração.
12. “Há”/“a” Quando o termo introduz uma expressão referente a tempo passado, usa-se o verbo “haver”. Quando o termo é empregado antes de uma expressão de tempo futuro, o correto é a utilização da preposição “a” (sem crase!). Quando a expressão seguinte é de espaço, deve-se empregar apenas a preposição “a”. Veja exemplos:
13. Regência verbal/nominal Ocorre quando verbos/nomes regem determinada preposição e o falante opta por outra e/ou quando não rege preposição e, ainda assim, o falante a insere. No exemplo, o verbo “acarretar” está acompanhado de “em”, porém ele não rege preposição, já que é do tipo transitivo direto.
14. Ratificar/Retificar O verbo “ratificar” significa confirmar. O verbo “retificar” (literalmente “tornar reto”) é sinônimo de corrigir, consertar. Na maior parte dos casos, portanto, são verbos de sentidos opostos. Veja exemplos:
15. Concordância verbal/nominal Ocorre quando o verbo ou o nome não estabelecem concordância adequadamente de número, gênero, entre outros, com os termos da oração. No exemplo, o termo “necessário” não estabeleceu concordância de gênero feminino com o núcleo do sujeito, ou seja, o termo “participação”. (Leia mais abaixo)
16. À medida que / na medida em que As duas expressões existem, mas têm significados distintos: “à medida que” indica proporção; “na medida em que” tem o sentido causal equivalente a “já que” ou “visto que”, por exemplo. Entenda abaixo:
17. Vírgulas em orações adjetivas O uso indevido de vírgulas em orações adjetivas pode gerar paradoxos semânticos. No caso abaixo, o emprego de vírgulas para marcar a oração subordinada indica que todos os brasileiros são inconscientes. Depois, sem as vírgulas, a ideia exposta é a de que apenas os brasileiros inconscientes não preservam o meio ambiente.
18. Preferir Embora seja comum na oralidade, o uso do verbo preferir seguido de “do que” é equivocado. A regência correta do verbo se dá pelo emprego da preposição “a”. Veja exemplos:
19. Desrespeito à regência do verbo O estudo da regência verbal serve para sabermos se o verbo pede preposição e qual preposição deve ser usada. Ainda que a fala espontânea não exija preocupação com isso, a escrita adequada à norma-padrão requer que conheçamos a regência de alguns verbos. Veja exemplos:
20. Intervir O verbo “intervir”, bastante comum na redação do Enem (que exige uma “proposta de intervenção”), é quase sempre empregado de maneira equivocada. Esse verbo é derivado do verbo “vir”, e não do verbo “ver”, por isso funciona como o verbo “vir” (com “inter” na frente). Veja exemplos: (Leia mais abaixo)
21. Mesmo A palavra “mesmo” pode, entre outras classificações, ser um pronome demonstrativo que atua como acompanhante de um substantivo ou outro pronome. No entanto, muitos falantes, equivocadamente, utilizam essa palavra para substituir os pronomes pessoais “ele” e “o”. Veja os exemplos:
22. É preciso/É necessário Essas expressões só podem fazer flexão quando o substantivo apresentar determinante. Veja exemplos:
23. Possuir: É muito comum verificar, no texto escrito, o uso indevido do verbo possuir, que deve ser empregado, a rigor, com sentido de posse de algo concreto. É preciso, portanto, desmistificar a ideia de que o verbo ter é coloquial. Veja exemplos:
24. Contudo É comum encontrar, em redações e textos de outros gêneros, o conectivo adversativo “contudo“ sendo empregado como conclusivo, no fechamento do texto ou mesmo em alguma passagem em que se pretende encerrar uma ideia. Veja exemplos:
25. Emprego do conectivo sem respeitar o seu sentido original Alguns conectivos são polissêmicos (podem apresentar mais de um valor). A conjunção “como”, por exemplo, manifesta valor de causa, comparação ou conformidade. Entretanto, é preciso respeitar o valor da conjunção quando ela não é polissêmica. Um exemplo desse uso inadequado tem ocorrido com a conjunção “conforme”, que muitos passaram a usar como sinônimo de “à medida que”, que tem valor proporcional. (Leia mais abaixo)
26. Por que, porque, porquê, por quê Separado e sem acento (por que). Tem a ver com as perguntas:
Junto e sem acento (porque). Tem a ver com as respostas. Usado, em geral, para causa ou explicação.
Junto e com acento (porquê). Equivale ao substantivo razão, motivo. Ao virar substantivo, é precedido do artigo "o".
Separado e com acento (por quê). Assemelha-se ao separado sem acento, mas só pode ser utilizado no final da frase.
27. Sobre/sob Sobre vem do latim super e significa aquilo que está acima. Sob vem do latim sub e se refere ao que está na parte debaixo. (Leia mais abaixo)
28. Bastante O bastante se apresenta de duas formas. Primeiro como um advérbio, situação em que ele é invariável e, portanto, não tem plural. Neste caso, ele está sempre ligado a verbos ou a adjetivos, sempre com valor de intensidade. Na outra forma, comporta-se como um pronome adjetivo, razão pela qual ele é flexionado em número, apenas. Basta que esteja ligado a um substantivo para ganhar variação. Não tem a ver com a intensidade, mas com a quantidade. Uma boa dica é trocar o bastante pelo muito, que se comporta da mesma forma.
29. Descriminar/Discriminar Descriminar significa tirar da condição de crime, sinônimo de descriminalizar. Discriminar é, muitas vezes, o oposto. Pode ser considerado como perceber as diferenças, distinguir ou até estereotipar alguém em razão da cor da pele, questão socioeconômica, gênero ou outra condição social qualquer.
30. Cujo Os pronomes relativos têm uma função de retomar um termo e conectar orações. Têm função de pronome, mas também de conjunção, porque unem orações. Há vários, mas o "cujo" é o mais peculiar, avaliam professores. Ele retoma um termo antecedente, mas também cria uma relação de posse entre o termo antecedente e o consequente, o que vem antes e depois.
31. Ao encontro de / De encontro a As duas expressões existem e são corretas, porém revelam ideias opostas. De um lado, “ao encontro de” indica convergência, concordância ou encontro. De outro lado, a expressão “de encontro a” sugere discordância ou colisão. No dia a dia é frequente que pessoas confundam as duas expressões e, literalmente, digam o oposto do que pretendiam. Confira os exemplos:
32. Ao invés de/Em vez de Trata-se de mais um caso, no Português, em que ambas as formas estão corretas, mas apresentam significados diferentes. Como a palavra “invés” significa, literalmente, “oposto” ou “contrário”, a expressão “ao invés de” deve ser utilizada apenas para situações contrárias, como, por exemplo, “subir” e “descer”, “abrir” e “fechar”. Nos demais casos, que são os mais comuns, deve-se preferir a expressão “em vez de”, que significa “no lugar de”, usando situações diferentes, mesmo que não propriamente opostas. (Leia mais abaixo)
33. Verbo assistir O verbo assistir apresenta dois sentidos diferentes, um deles como transitivo indireto (com preposição), outro como transitivo direto (sem preposição). No primeiro caso, que é o mais comum no dia a dia e nas redações do Enem, esse verbo demanda a preposição “a” (assistir a algo) e é sinônimo de “ver”. No segundo caso, sem preposição, o verbo assume o significado de “prestar assistência”, “ajudar”. Veja os exemplos:
34. Verbo chegar Embora na oralidade seja comum o emprego do verbo “chegar” regido pela preposição “em”, a gramática normativa exigida no Enem demanda o uso da preposição “a”. Confira as frases a seguir:
35. Verbo aspirar O verbo “aspirar” é mais um que apresenta dois sentidos e duas regências diferentes. Quando empregado como transitivo direto (sem preposição), ele significa “inalar” ou “respirar”. Quando empregado como transitivo indireto (com preposição), significa “pretender” ou “desejar”. Veja esses usos:
Fonte: O GLOBO