27/03/2016 07h33 | Foto: Getty Images

Alguns pais falam sobre praticamente tudo com os filhos, exceto sobre dinheiro. Tal relutância pode custar caro. Embora existam muitas formas legítimas de discutir finanças com crianças, dizem especialistas, duas coisas são certas: comece cedo e converse sempre.
O Wall Street Journal convidou três pessoas para discutir o assunto por e-mail. Elas são Annamaria Lusardi, professora da cadeira Denit Trust de economia e contabilidade da Faculdade de Administração da Universidade George Washington; Ted Beck, diretor-presidente do Fundo Nacional para Educação Financeira; e Nathan Dungan, fundador e diretor-superintendente da Share Save Spend LLC, que ajuda a educar famílias sobre dinheiro. A seguir, trechos editados da discussão.
WSJ: Por que é tão importante ensinar habilidades financeiras para as crianças?
Beck: Em algum momento, jovens adultos terão que tomar decisões financeiras sozinhos, e eles precisam estar preparados. Adquirir habilidades financeiras na infância criará oportunidades melhores e diminuir as chances de você ser explorado.
Dungan: Umas das razões mais importantes para munir suas crianças com conhecimentos de finanças é que isso tem o potencial de melhorar substancialmente a qualidade de vida delas. A educação financeira não apenas capacitará os jovens a atingir metas financeiras normais, como economizar para pagar a faculdade, mas também os ajudará a resolver questões qualitativas, como o impacto que o dinheiro terá em seus relacionamentos.
WSJ: Quais as habilidades financeiras mais importantes a serem ensinadas para as crianças?
Dungan: Eu incentivo as famílias a fazer vários experimentos de acordo com a idade, enquanto seus filhos moram com elas. Pode ser uma mesada semanal de US$ 6 para uma criança na pré-escola até algumas centenas de dólares (ou mais) para um filho na faculdade. O principal é fornecer uma variedade de oportunidades para eles fazerem escolhas sobre dinheiro por um período longo de tempo, e isso ajudará a dar-lhes confiança e capacidades – elementos críticos para melhorar seu bem-estar financeiro. E não se esqueça de permitir que eles errem muitas vezes. É muito melhor para eles errarem em um ambiente controlado, onde podem ser ensinados, do que eles estarem desorientados quando saírem de casa para estudar.
Lusardi: Eu simplesmente diria para que conversassem sobre dinheiro com as crianças. Nós falamos com elas sobre muitos assuntos, mas nem tanto sobre dinheiro.
WSJ: Como falar com elas? O que dizer?
Beck: A forma mais efetiva de ensinar é tendo discussões frequentes e nunca repreender. Busque ocasiões propícias para ensinar e sempre tenha boa vontade em responder perguntas. Se seu filho(a) vê uma decisão financeira sendo tomada por você ou outra pessoa, pergunte a ele(a) se acredita que é a forma certa de agir. A reflexão é uma ferramenta de ensino poderosa.
Lusardi: As crianças já estão lidando com dinheiro, então há muitos exemplos que você pode usar, como conversar sobre o que eles pretendem fazer com o dinheiro da mesada e a decisão de economizar versus gastar. Os pais também podem conversar sobre as decisões que eles tomam – por exemplo, porque eles economizam agora para a educação dos filhos.
Dungan: Eu realmente gosto de fazer perguntas sem respostas definidas para as crianças. Por exemplo, qual foi o maior erro financeiro que você cometeu? Por que uma pessoa jovem deveria contribuir com seu dinheiro para uma causa ou organização?
WSJ: Existe algo que é errado dizer para crianças quando se trata de dinheiro?
Lusardi: Há muitas lições possivelmente erradas, e este é o motivo de eu sempre me preocupar em deixar apenas para os pais [a tarefa de] ensinar as crianças sobre finanças. Por exemplo, um pai pode ensinar lições erradas como “fique longe das bolsas de valores” ou “nunca tome dinheiro emprestado”.
Dungan: Eu alerto os pais para terem cuidado para não compartilhar demais problemas financeiros com seus filhos. Crianças não têm a mesma capacidade emocional de absorver informações sobre a perda de um emprego ou uma queda significativa na bolsa. Outro erro comum: esperar que as crianças sejam perfeitas no uso do dinheiro.
Beck: Evite a angústia e seja cuidadoso para não criar medo ou culpar outra pessoa pelo que aconteceu com você. As crianças repetem tudo que nós dizemos a elas. Então, se você não quer passar algo, não conte a elas.
WSJ: Com que idade deveríamos começar a ensinar habilidades financeiras para nossas crianças?
Beck: Um bom lugar para começar é quando a criança está na idade de começar a andar — ensinando-as que dinheiro é uma ferramenta de troca, e sobre emprestar, negociar e economizar. Entre 8 e 10 anos elas podem aprender o valor do dinheiro no tempo. Com pré-adolescentes e adolescentes, eu e minha esposa permitimos que nossos filhos realizem vendas de garagem, que é uma experiência útil e prática — e esvazia nosso porão! Para os adolescentes, um emprego de meio período proporciona uma grande experiência no mundo real.
Dungan: Assim que eles murmurarem a frase “Eu quero...”. Falando sério, com 4 ou 5 anos, as crianças entendem totalmente os detalhes relacionados ao dinheiro e suas necessidades. Eu frequentemente alerto os pais que, se você não está conversando sobre dinheiro com seu filho, você está mais ou menos abdicando do papel de formar suas narrativas financeiras para a cultura do consumo.
WSJ: Se você tivesse que ensinar seu filho algumas poucas lições essenciais sobre dinheiro antes de eles saírem de casa para estudar numa faculdade, que lições seriam essas?
Lusardi: As lições seriam sobre independência financeira, para que eles não voltem a morar com os pais! Com o tempo e com minha colega Olivia Mitchell, da [faculdade de administração] Wharton School, eu já mostri que o conhecimento de três conceitos simples — o poder do juro composto, os mecanismos da inflação e a diversificação do risco — ajudam muito a capacitar as pessoas a tomar decisões financeiras.
WSJ: Com que a frequência precisamos ensinar nossos filhos sobre dinheiro?
Lusardi: Com a maior frequência possível, porque a repetição reforça o aprendizado.
Beck: O ensino de habilidades financeiras deveria ser inserido nas decisões e discussões diárias. Falar sobre finanças deveria ser um modo de vida — da mesma forma como falamos de nossa saúde física. Fique alerta para momentos favoráveis ao ensino e as horas em que você pode se engajar com seus filhos numa discussão. Sempre seja positivo, mas não chegue ao ponto de perder a atenção deles. Nunca tente fazer isso de uma vez.
Dungan: Eu sou mais fã do aproveitar o momento, ter lições de cinco minutos algumas vezes por semana do que ter grandes discussões mensais ou anuais, porque [esses momentos] são aqueles que os olhos de seus filhos brilham. Coisas como compras comparativas quando você está em um supermercado ou levando-os fisicamente para abrir uma conta em uma instituição financeira, e ocasionalmente depositar dinheiro naquela conta, podem ajudar.
WSJ: Qual o papel das escolas no ensino de habilidades financeiras para as crianças, principalmente porque alguns dizem que muitas escolas já tentaram, mas fracassaram nessa área?
Beck: Idealmente, o ensino de habilidades financeiras deveria ser um esforço combinado da escola e do lar. Administrar dinheiro é uma ferramenta para a vida que deveria ser ensinada em todas as escolas, mas o engajamento dos pais é essencial para torná-la eficaz. A questão é que precisamos ter padrões de qualidade e dar à educação financeira um tempo adequado nas salas de aula para que ela seja feita eficazmente.
WSJ: Que dicas cada um de vocês daria sobre a melhor maneira de ensinar habilidades financeiras para crianças?
Beck: Lembre-se, isso não deveria ser intimidante.
Dungan: Mantenha-se no caminho e olhe o longo prazo. O esforço que você investe hoje e no futuro ajudará seu filho a administrar uma série de questões monetárias, como problemas inevitáveis e obstáculos destinados a surgir em seu caminho.
Lusardi: Torne os assuntos relevantes para que as crianças entendam porque devem se importar com eles.