1922 - O Brasil é bicampeão continental num cenário de inquietação cultural, preconceito e intromissão da política no esporte

O Brasil buscava desbravar suas entranhas. A Semana da Arte Moderna, em 1922, era a grande oportunidade para o país encontrar sua identidade


  • 29/06/2024, 13h21, Foto: Divulgação.

Em 15 de outubro do efervescente ano que mudaria os cânones da cultura brasileira em suas diferentes manifestações de arte, era a vez de sediar o Campeonato Sul-Americano e vencer o Super Clássico das Américas, por 2 a 0, diante de 25 mil entusiasmados torcedores no Estádio das Laranjeiras.

Para celebrar o primeiro centenário da Proclamação da Independência, o Brasil solicitou a organização da competição e foi prontamente atendido pela Conmebol. A Seleção Brasileira não decepcionou e ficou com o título continental, o segundo de sua história, novamente como anfitrião. (Leia mais abaixo)

Havia dificuldades em reunir um selecionado que de fato representasse o Brasil. Em nova manifestação elitista e discriminatória de nossas classes dominantes, os estatutos da antiga CBD (Confederação Brasileira de Desportos) excluíam os jogadores analfabetos que, de acordo com o Censo de 1920, eram 65% da população brasileira.

Some-se a esses dados o fato de que, a despeito da organização do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais, o selecionado de 1922 contou apenas com jogadores de São Paulo e da cidade do Rio de Janeiro, como era praxe.

Coube ao Paraguai protagonizar com os brasileiros, que conquistaram o troféu com uma vitória tranquila, por 3 a 0, na final do torneio. O time campeão formou com Kuntz; Palamone, Bartó, Amílcar Barbuy, Fortes, Formiga, Neco, Heitor, Tatu, Rodrigues e Arthur Friedenreich, sob a batuta do técnico Arthur Antunes de Moraes “Laís”.

No dia seguinte à final do torneio, os jornais exaltavam a façanha do selecionado brasileiro, alimentando um discurso triunfalista das comemorações do povo nas ruas e em suas casas, dando destaque ao alcance verdadeiramente nacional do feito, saudando os atletas campeões como verdadeiros heróis da nação.

Todavia, não foram apenas o público e a imprensa a comemorarem a conquista de 1922, no Centenário da Independência. Extasiado pela alegria ufanista, o deputado Benjamim Barroso propôs o pagamento de um prêmio de 50:000$000 a ser dividido entre os jogadores. A proposta aprovada no Congresso Nacional era justificada pelos deputados. (Leia mais abaixo)

“Considerando que os vencedores do torneio realizado no Centenário da Independência se esforçaram, conservando-se adstrictos aos preceitos desportivos, pelo renome de nossa gente”.

A premiação deu causa a muita polêmica, e a imprensa se aproveitou para desfiar uma série de críticas ao governo, principalmente através das charges das revistas Careta e A Cigarra. O episódio foi tratado em tom de escândalo por alguns órgãos de imprensa, como o Correio da Manhã, O Imparcial, O Jornal e o Diário de Pernambuco.

Cada um dos atletas receberia do governo valores que poderiam chegar a ser quase 20 vezes maior do que o salário de um operário da Fábrica América Fabril.

O escândalo era maior, pois a própria CBD exigia em seus estatutos que todos os atletas fossem amadores para representar a Seleção Brasileira.

No Rio de Janeiro, à época capital federal, além desse “escândalo”, alguns parlamentares vociferavam no Congresso, passando a condenar as competições sul-americanas de futebol, pois estas estariam acirrando rivalidades que extrapolavam o campo, ao mesmo tempo em que dificultava relações com figuras proeminentes dos países vizinhos como Argentina, Uruguai e Paraguai. (Leia mais abaixo)

Brasil e Uruguai disputavam uma cadeira permanente na Liga das Nações e devido aos atritos com a seleção uruguaia, que se sentia prejudicada na competição devido a erros de arbitragem, alguns deputados viram a competição e o acirramento das rusgas entre os países vizinhos como um revés na política internacional brasileira.

O deputado paulista Carlos Garcia chegou apresentar projeto proibindo jogos contra as seleções dos países vizinhos.

Revistas como O Malho e a Fon-Fon destacaram a violência com que os jogos estavam sendo disputados. Por sua vez, jornais de oposição ao governo e seus articulistas não concordavam com o projeto de nação através do futebol e tentavam minimizar a vitória brasileira.

Ainda assim, os veículos, em sua maioria, mantiveram o tom de apoio e celebração à Seleção Brasileira. No dia seguinte à conquista, a Gazeta de Notícias ressaltava que milhares de pessoas que assistiram à partida gritavam: “Salve o Brasil, campeão de terra e mar”, em alusão aos títulos no futebol, remo e polo aquático naquele ano.

O jornal A República, em tom paternalista, ao mesmo tempo elitista, detonava: “Meus filhos! Nada de exageros! Lembrai-vos que a grandeza de uma nação não está nos músculos dos seus athletas, mas na inteligência de seus intelectuais”. (Leia mais abaixo)

Assim, os textos e charges destacavam a ironia de um projeto de nação alicerçado nas vitórias da Seleção Brasileira de futebol confrontada com um projeto de nação fundado em bases educacionais, como pregava Ruy Barbosa, num país onde 65% da população era de analfabetos.

Os jornais paulistas, por exemplo, não se conformavam com o afastamento do atacante Friedenreich, herói do título Sul-Americano de 1919, após os dois primeiros empates do selecionado.

Os periódicos da Paulicéia encaravam o fato como um desrespeito ao futebol paulista. Um cronista afirmava: “Sem procurar desmerecer do esforço dos cariocas no selecionado, as maiores honras e glórias cabem por certo aos elementos de cá (São Paulo).

Além de exaltar os gols marcados na final por Neco e Formiga, jogadores de clubes de São Paulo, ironizavam um suposto projeto da CBD, com sede no Rio de Janeiro, de “elevar o esporte brasileiro através dos cariocas, em detrimento do futebol paulista” (Folha da Noite, 24 de outubro de 1922, p. 3).

O terceiro confronto entre as duas seleções pela Copa Roca viria ser realizado, em 22 de outubro de 1922, desta vez no Parque Antarctica, em São Paulo. Os brasileiros triunfaram por 2 a 1, marcando o ítalo brasileiro Gambarroto (Corínthians) duas vezes, tendo Francia (Rosário Central) descontado para os argentinos. (Leia mais abaixo)

Neste jogo, a Seleção Brasileira atuou com um time B, já que a seleção principal estava disputando o Sul Americano, no Rio. A equipe foi formada basicamente por jogadores que atuavam em clubes paulistas.



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