Campos 24 Horas - Entre sementes, folhas e canteiros, estudantes da Escola Municipal Carlos Chagas, em Travessão, aprendem sobre alimentação saudável, preservação ambiental e agricultura familiar. Há cerca de quatro meses, a unidade, localizada no maior assentamento de reforma agrária do estado do Rio de Janeiro, desenvolve uma horta agroecológica que integra o currículo escolar às experiências e aos conhecimentos das comunidades do campo. A iniciativa reúne crianças do P2 ao 9º ano, educadores, direção escolar, agentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e apoiadores do Projeto Campo-Cidade.
O trabalho envolve diferentes etapas do cultivo, desde a preparação da terra até os cuidados necessários para o desenvolvimento das plantas. Com orientação dos profissionais da escola e da Coordenação da Educação do Campo da Secretaria Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia (Seduct), os estudantes plantaram alface, espinafre e cebolinha, além de utilizar folhas de amendoeira para proteger e cobrir o solo. “As crianças fazem cobertura do solo com as folhas da amendoeira, plantaram o alface, o espinafre, a cebolinha com substrato, fazem o manejo da horta”, explica o assessor especial de Educação do Campo da Seduct, Marcelo Cavalcanti Vianna.
A horta também aproxima os conteúdos escolares de questões presentes no cotidiano das famílias que vivem e trabalham no campo. O cultivo permite conversar sobre a origem dos alimentos, os ciclos das plantas, a presença de insetos e a importância dos organismos para o equilíbrio ambiental. Outro tema abordado é o uso de agrotóxicos, com a apresentação de alternativas sustentáveis, como produtos orgânicos utilizados no controle de pragas.
Para a diretora da unidade, Tatiana Seabra, o contato com a horta amplia as possibilidades de aprendizagem e favorece o desenvolvimento dos estudantes em diferentes dimensões. “Essas vivências possibilitam trabalhar habilidades cognitivas, motoras, sensoriais e socioemocionais de forma lúdica, concreta e inclusiva, respeitando as particularidades de cada criança”, afirma. As atividades são adaptadas às diferentes faixas etárias e necessidades, permitindo que cada aluno participe do plantio, da rega e do acompanhamento do crescimento das espécies.
A proposta também contempla estudantes com necessidades educacionais específicas, para os quais o contato com a terra e as plantas pode proporcionar experiências sensoriais importantes, conforme aponta Tatiana. Manipular sementes, sentir diferentes texturas, regar os canteiros e observar as mudanças ao longo do tempo são atividades que estimulam a coordenação motora fina, a socialização e a autonomia. O trabalho coletivo também favorece a compreensão de responsabilidades compartilhadas e o respeito ao ritmo de cada criança.
Ao acompanhar o desenvolvimento dos alimentos, os estudantes passam a reconhecer as etapas que antecedem a chegada dos produtos à mesa e a relação entre produção agrícola, saúde e meio ambiente. “Os alunos compreendem que os alimentos passam por diferentes etapas até chegar à mesa e que a produção de alimentos está diretamente relacionada ao meio ambiente, à saúde e à vida das famílias do campo”, destaca Tatiana. A experiência permite relacionar os conhecimentos trabalhados em sala de aula às escolhas alimentares e aos cuidados necessários para produzir alimentos de forma sustentável.
A iniciativa valoriza ainda a agricultura familiar e os saberes transmitidos entre gerações, reconhecendo a comunidade como parte importante do processo educativo. Em uma escola situada em um assentamento de reforma agrária, a horta contribui para que a história, a cultura e o trabalho das famílias sejam incorporados às atividades pedagógicas. “O território não deve ser compreendido apenas como um espaço físico, mas como um lugar de saberes, cultura, história, trabalho e pertencimento”, ressalta a diretora.
Mais do que acompanhar o crescimento das hortaliças, os estudantes participam de uma experiência que articula educação ambiental, alimentação saudável, inclusão e valorização da identidade rural. Como resume Tatiana, “Mais do que aprender a plantar, eles aprendem a cuidar da vida, a valorizar o trabalho coletivo e a reconhecer a importância de práticas agrícolas mais sustentáveis”, sintetiza a diretora.