Santa Casa tem muitas dívidas, diz interventor

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014    –     Foto: Saulo Garcez/ Campos 24 Horas
Postado por: Fabiano Venancio

Paulo Cassiano 1O interventor da Santa Casa de Misericórdia de Campos, o dentista Paulo César Barcelos Cassiano, concedeu entrevista coletiva na tarde desta sexta-feira(19). Ele assumiu o comando do hospital por determinação da Justiça, que afastou o provedor Benedito Marques por seis meses após denuncias de médicos sobre inúmeras irregularidades. A denuncia mais grave diz respeito a supostas mortes de sete pacientes, e ainda falta de medicamentos, exames e materiais para cirurgia.

Paulo Cassiano admite que o hospital se encontra numa situação difícil e com muitas dívidas. Uma de suas preocupações é colocar em dia o salário dos funcionários.

Confira a entrevista

Já existe um levantamento?

“Em função da situação que foi desenhada em torno da nossa chegada aqui, é muito cedo fazer um levantamento. Eu fui designado pela Justiça como provedor. O motivo da escolha do meu nome na diretoria é porque sou o vice-provedor do hospital, e o artigo 45 do estatuto é muito claro quando fala do impedimento por falecimento, aposentadoria ou afastamento por força judicial: é o vice-provedor que assume. Prefiro neste momento falar pouco, muita coisa está correndo em segredo de Justiça. Então, cabe a ela falar e se manifestar. Só me resta encarar esse desafio proposto pela Justiça e pelo Ministério Público ”.

Como pretende iniciar o trabalho?

“Pretendo trabalhar e responder ao judiciário todos os quesitos e todas as demandas que se julgam necessárias. Ressaltando que me sinto lisonjeado com o convite de assumir o cargo de provedor”.

Quando o senhor assumiu?

“Eu assumi por força e intervenção ontem às 18h30. O promotor Leandro Barreto acompanhado do GAP solicitaram minha presença na instituição e eu recebi a sentença do judiciário e fui empossado interventor”.

Paulo Cassiano 2Então o senhor começou ontem?

“Efetivamente hoje é o meu primeiro dia de trabalho. Estou contando com todo o quadro funcional , o corpo clínico e todos os médicos. Fui muito bem recebido por todos, na parte administrativa e em toda parte da unidade. Não seria fato estranho pra mim, pois já pertenço a instituição há 15 anos. Desde 2012 assumi o cargo de vice-provedor e permaneci até ontem”.

A diretora foi dissolvida e o senhor é o único que não foi afastado?

“Sim, fui o único que não foi afastado. No entendimento da Justiça tinha que ter a figura do interventor da instituição. Poderia ser do quadro da casa ou não. Mas optaram pelo meu nome. Fico muito lisonjeado até pela expectativa do meu trabalho”.

E o andamento do processo?

“Eu estou assumindo durante o período de intervenção, mas nada me foi falado e nada perguntado sobre a investigação. Até entendo que também não me pertence essas informações”.

Existe alguma meta para esse período mesmo que provisório?

“Sim, temos várias metas para alcançar, mas que foram traçadas e designadas pelo poder judiciário. Agora nós temos que lutar para cumprir, mas tudo está correndo em segredo de justiça. Nós estamos conhecendo a instituição de uma forma mais profunda e dando mais oportunidade ao todo quadro de funcionários”.

Os serviços prestados para comunidade permanecem?

“Sim. Agora muito pelo contrário, estamos incumbidos com o propósito de fortalecer o nosso trabalho e melhorar mais ainda os serviços para toda comunidade”.

Já existe alguma verba que foi paga?

“Nós estamos fazendo um levantamento junto a tesouraria e ao departamento técnico financeiro para saber o real valor do ativo e do passivo. O que temos a receber e a quem estamos devendo, para que possamos em um menor espaço de tempo quitar essas questões”.

Como vice-provedor sua atuação era mais distante ou tinha atuação direta no hospital?

“Eu era um vice-provedor em função de outras atividades de ordem particular, não diria omisso, mas eu era um pouco distante. Porém agora com a incumbência do cargo, nos faz aproximar bastante”.

E em relação as mortes que supostamente aconteceram no hospital?

“Não tenho nenhum tipo de informação, está correndo em segredo de Justiça”.

Como está o quadro de pagamentos dos funcionários?

“Estamos em débito no mês de novembro e também com a segunda parcela do décimo terceiro. Estamos fazendo todos os esforços para resolver. É muito triste você trabalhar e passar o Natal e ano novo sem salário. Estou muito preocupado em buscar recursos para acertar essa pendência do mês de novembro. Buscar recursos para acertar essa pendência que venceu dia 5 de dezembro, referente a novembro”.

E os materiais hospitalares?

“Talvez mais alguns dias a gente tenha elementos mais sólidos para fornecer essa informação. Por enquanto não temos base”.

A situação do hospital é crítica?

“A situação não está crítica, mas é uma situação difícil em função dos recursos que não chegam nas datas marcadas. O hospital é movido com mais de 87,73 % dos atendimentos pelo SUS. O Ministério da Saúde não paga em dia. O Governo Federal atrasa esse repasse de verbas e se você não tiver um capital de giro forte, assim como um fundo de reservas, não há suporte para honrar os pagamentos em um geral”.

O senhor pretende buscar algum tipo de financiamento?

“Vou tentar conversar com o gestor do SUS na cidade, o secretário de Saúde Doutor Chicão. Ele é uma pessoa muito sensível à causas de saúde, e demonstrou boa vontade para ajudar. A própria prefeita Rosinha também tem se mostrado muito sensível à situação da Santa Casa. Eu acho que dessas conversas bons frutos vão render à instituição”.

O senhor acha que deve vai ocorrer após 180 dias?

“Quero ficar o menor tempo possível. Não pretendo permanecer. Vejo como sendo um grande desafio. Nunca encontrei nada fácil na vida, comecei a trabalhar aos 15 anos de idade e aqui ainda estou com 74 anos. A Santa Casa é um hospital muito bem localizado e extremamente bem equipado. Com um corpo funcional de primeira qualidade, usada de uma forma mais bem utilizada”.

Quais as principais metas dentro dos 180 dias?

“Primeiro lugar o colocar o salário de todo o quadro funcional em dia. Eu entendo que todo servidor bem remunerado e com salário em dia tem muito mais para oferecer. Temos dívidas também com fornecedores, também temos que quitá-las. Vamos eleger as prioridades. Não vamos dar calote em ninguém e muito menos ver readequação de dívidas. Elas existem e vamos pagar. Além de ver os fornecedores que estamos devendo há mais tempo”.

Acordo para empréstimo da Caixa?

“Não sou favorável a empréstimos. Você pagando juros você não próspera. Eu acredito que nada na vida de ninguém próspera quando se paga juros. Ainda mais em um país como o nosso, com instabilidade econômica. O empréstimo só em último caso. Há outros meios de se buscar recursos, principalmente evitando gastos desnecessários e recursos mal aplicados. Vamos fazer uma nova planilha de gastos e despesas”.

Nesse período de 180 dias o que será feito em relação a falta de medicamentos?

“Não participei e nem sei quem são os médicos que fizeram essa acusação. Em relação a falta de medicamentos, é objeto de um novo levantamento que me diga o que eu tenho na mão disponível. Eu tenho que saber o que eu tenho de passivo e ativo. A partir daí tenho que começar a raciocinar.

O hospital não pode faltar medicamentos. Caso aconteça, ele apresenta um atendimento de baixa qualidade. A história do hospital não permite que isso ocorra. Se estiver acontecendo nós temos que sanear isso o mais rápido possível. Ressalto mais uma vez a boa vontade das autoridades que estão dispostas a solucionar os nossos problemas”.