Exclusivo: Construção de reservatórios para o fim das enchentes do Rio Paraíba

Postado por Fabiano Venancio – A cada verão, os moradores das cidades banhadas pelo Rio Paraíba do Sul e seus afluentes em Campos e municípios da região revivem uma rotina de tormento com as cheias que se sucedem comumente neste período. No entanto, há uma expectativa quanto ao fim deste sofrimento com os avanços para a construção de reservatórios que irão efetuar a regularização das vazões e amortecer as cheias do rio, como é feito em Barra do Piraí, no Sul Fluminense. A informação é de João Gomes Siqueira, diretor-secretário do Comitê de Bacia Hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana e técnico da Uenf, em entrevista exclusiva ao site Campos 24 Horas. Ele divide o Rio Paraíba do Sul em duas porções e analisa o volume d’água e as condições topográficas da região cortada pelos afluentes do Paraíba: A porção paulista, que chama de Paraíba 1, com as vazões regularizadas e vai de São Paulo até Barra do Piraí (RJ); E a porção 2: De Barra do Piraí pra cá, que chama de Paraíba 2. João Siqueira ainda comenta o avanço da vazão do mar e a água captada pela Cedae em São João da Barra com alto teor de salinidade. (leia abaixo)

“Estamos trabalhando neste projeto há três anos nele, quando criamos no Ceivap o grupo GT (grupo de trabalho) com estudos que apontam para esta possibilidade, mas isto já tem sido ventilado pela ANA (Agência Nacional de Águas), Inea (Instituto do Ambiente do RJ) e o Ceivap (Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul). Em março esperamos ter apontamentos efetivos e outros avanços para a construção destes reservatórios na porção mineira”, explicou João Siqueira. (leia mais abaixo)

“O Estado do Rio já concluiu a análise sobre regularização de vazão, entregou ao IGAM (Instituto Mineiro de Gestão de Águas) que engavetou e não está respondendo, mas depois pediu guardássemos PGR (programa de gerenciamento de4 riscos) estava sendo construído e foi entregue no ano passado”, acrescentou. (leia mais abaixo)

Há cerca de um mês, uma parte do dique que protege o Paraíba, na Avenida XV de Novembro, no Centro de Campos, não resistiu à força das águas do rio, chegando a “tragar” um carro que passava na hora do incidente. O motorista saiu ileso. Enquanto isso, cidades da região sofreram inundações. (leia mais abaixo)

AMORTECIMENTO – João Siqueira explicou ainda que, além do objetivo de amortecer as cheias, diminuir o pico das enchentes no Norte/Noroeste Fluminense e Leste Mineiro, “o projeto aponta para também melhorar as vazões mínimas na calha do Rio Paraíba do Sul, de Três Rio até Atafona, inclusive melhorando a questão da redução da salinidade da água em São João da Barra”.   (leia mais abaixo)

ÁGUA SALINIZADA – Com o avanço da vazão do mar, a água captada pela Cedae, no centro de São João da Barra, adquire um alto teor de salinidade por conta da baixa vazão do rio oito meses no ano. “Há uma paralisação de 1.500 horas por ano na captação d’água por causa da salinidade”.  O avanço do mar em direção do Rio Paraíba do Sul causa um fenômeno chamado intrusão salina, interrompendo a captação e o abastecimento no município. (leia mais abaixo)

UM RIO, DUAS PORÇÕES – João Siqueira, que é também técnico da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), divide o Rio Paraíba do Sul em duas porções. “A porção paulista, que chamo de Paraíba 1, tem as vazões regularizadas e vai de São Paulo até Barra do Piraí (RJ), onde nos períodos de seca os reservatórios abastecem as calhas do rio, evitando vazões abaixo do mínimo, enquanto que nas cheias há um amortecimento, evitando vazões muito altas para proteger as cidades das enchentes. De Barra do Piraí pra cá, que é chamo de Paraíba 2, não há essa regularização. Quando chove, enche tudo; quando há estiagem, seca tudo”, esclareceu. (leia mais abaixo) 

COMO FUNCIONA – São Paulo tem vazão regularizada com quatro grandes reservatórios, que são gigantescas cisternas construídas para geração de energia elétrica, mas que é também utilizada na regularização da vazão do rio. (leia mais abaixo)

— Quando chove muito eles enchem essas cisternas até 100% para quando no período da seca vai liberando entre 10% e 15%, evitando que as vazões cresçam muito, o que aqui evitaria o avanço rápido do mar na foz de Atafona. Essa é a nossa proposta, fazer o mesmo sistema do Paraíba 2, de Barra do Piraí para cá até Atafona — observa João. (leia mais abaixo)

O secretário do Comitê do Baixo Paraíba e Itabapoana lembra, porém, que os órgãos estatais não são muito favoráveis a construção destes grandes reservatórios só alegação de que acarretam problemas ambientais nas regiões onde as barragens são construídas. “Mas hoje a própria ANA e outros órgão admitem a construção destes reservatórios como solução”. (leia mais abaixo)

PROJETO ANTERIOR – João recorda ainda que o atual estudo para a construção de reservatórios veio corroborar um projeto do governo estadual preparado há 10 anos, inclusive com aporte de recursos de R$ 650 milhões, com obras de contenção de cheias no Noroeste, “a partir da reconstrução de calhas nos rios, quebras de pedras para que o rio pudesse passar com mais velocidade nestas cidades, além construção de pulmões, para o desvio das águas nos picos de cheias, impedindo que o rio inunde essas cidades como tem ocorrido rotineiramente. Isso foi bloqueado pela Justiça, não foi a frente, mas a gente precisa retomar este projeto”. (leia mais abaixo)

João Siqueira falou também sobre o volume d’água e as condições topográficas da região cortada pelos afluentes do Paraíba. “A água vem rapidamente para a calha do Paraíba de áreas declivosas e de baixíssima cobertura vegetal, com um solo largamente utilizado para pecuária e agricultura, o que favorece um escoamento superficial. A chuva cai rápido desce para a calha do afluente, ganha velocidade, desce para a calha do Paraíba, chega em Campos, onde o rio é estreitado na própria cidade”. (leia mais abaixo)

CRISE HÍDRICA – Por conta da seca, em 2014, lembra João, havia previsão dos especialistas de que o Paraíba iria passar por uma grande crise hídrica pois os reservatórios paulistas estavam muito baixos. O Ceivap então criou um Grupo de Trabalho Operações Hidráulicas (GTOH). “A baixa dos reservatórios e as menores vazões do Paraíba e seus afluentes ocorreram em 2015, crise hídrica prolongada até 2019. Com essa crise, fizemos um plano de bacias quando definimos vazões mínimas ultrapassadas pela força da natureza, potencializando o fechamento da foz em Atafona”, frisou. (leia mais abaixo)

MUDANÇAS CLIMÁTICAS – As baixas e altas vazões se processam em razão das alterações climáticas que causam volume de chuvas em curto espaço de tempo e poucas chuvas em outro grande espaço de tempo prolongado, eleva muito as cotas inundações nas cidades. (leia mais abaixo)

CAUSAS – As deficiências na política de moradias para populações de baixa renda levam populações para regiões ribeirinhas e vulneráveis às enchentes, outro fator de assoreamento do rio.  “São cidades crescendo as margens dos rios, habitações em áreas de proteção. A Justiça demora a decidir, a fiscalização também é deficiente, e isso atravessa governos, mas há muitos anos”, pondera. (leia mais abaixo)

DESPOLUIÇÃO – Por fim, João Siqueira admitiu que uma das soluções para erradicar o estado de degradação das bacias hídricas pode ser alternativas aplicadas na Europa, com o processo de despoluição de rios como o Sena e o Tâmisa, que cortam Paris e Londres. (leia mais abaixo)

“São soluções encontradas na Europa, que atingiu um estágio superior ao nosso. Com a retirada de sedimentos destes rios, isso possibilita a revitalização dos mesmos. Eles fazem isso há anos com um grande volume de recursos nestes projetos. Por outro lado, nós temos um clima tropical onde há uma incidência de calor em algumas regiões e chuvas fortes em grande volume, diferente das condições climáticas de lá”, finalizou.