José Luís Vianna: ‘A sociedade brasileira sempre foi conservadora’

Mesmo com cerca de 50% de rejeição, segundo as pesquisas de intenção de voto, o presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) ainda assim mantém uma considerável popularidade, confirmada pelo desempenho eleitoral na disputa presidencial do primeiro turno, mantida nas pesquisas para o segundo turno no confronto com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em entrevista ao Campos 24 Horas, o professor e sociólogo José Luís Vianna da Cruz, da Universidade Federal Fluminense (UFF) afirma ter ficado surpreso com o apoio de grande parcela da sociedade brasileira a Bolsonaro. (leia mais abaixo)

Um fato importante destas eleições, avalia José Luís, é o perfil conservador da sociedade brasileira, mesmo diante de tamanhas contradições, a necessidade de transformações e mudanças estruturais para a superação das desigualdades que colocam o país como um dos mais desiguais do mundo. (leia mais abaixo)

“Foi um dado importante. Desde a eleição de Bolsonaro, em 2018, com esta base apoio, a percepção foi reforçada de que sociedade brasileira é conservadora, sempre foi. Esse conservadorismo se consolidou, se organizou e institucionalizou nas instituições da sociedade civil que agem profissionalmente no sentido de expandi-lo pelo convencimento, mas também pelo medo e pela repressão para manter e ampliar essa base ultraconservadora de direita”, (leia mais abaixo)

DIREITA SE FORTALECE – O fenômeno Bolsonaro representa o protagonismo das forças de direita na polarização com a esquerda, mas uma ultradireita como novidade na História do Brasil de hoje. “De agora prá frente, não tenhamos dúvida. Sempre teremos a possibilidade de uma direita e uma ultradireita se alternarem no poder com uma possível centro-esquerda e esquerda. Isso faz parte também do amadurecimento da democracia, onde as posições políticas ideológicas ficam claras, se consolidam, se entrincheiram e se profissionalizam”, avaliou José Luís. (leia mais abaixo)

BOLSONARO COM CHANCES – Ainda de acordo com o professor da UFF/Campos, Bolsonaro tem possibilidade, sim, de se reeleger, por um conjunto de fatores e expedientes que utiliza. “Ele pode se reeleger muito menos pelo seu programa e as propostas que defende, mas muito mais pelos expedientes que usa, como fake news e deepfakes, assim como a agressividade de uma campanha que manipula o medo da população, especialmente população menos letrada”. (leia mais abaixo)

Deepfake, a que José Luís fez referência, é uma tecnologia que usa a inteligência artificial para criar vídeos falsos, mas realistas. De pessoas fazendo coisas que elas nunca fizeram na vida real. A técnica que permite fazer as montagens de vídeo já gerou desde conteúdos pornográficos com celebridades até discursos fictícios de políticos influentes.   (leia mais abaixo) 

Mas em caso de eleição de Lula, o sociólogo não vê maiores perspectivas imediatas de resultados imediatos a curto prazo. (leia mais abaixo)

“Se Lula for eleito não há que se esperar muito na elevação do nível do bem estar e de poder aquisitivo da população, com aumento real do salário mínimo, a consolidação de direitos, a valorização da educação, com políticas urbanas e tudo que não foi feito nos últimos quatro anos. O que pode ocorrer logo é o resgate da democracia, a garantia de recuperação de direitos fundamentais e a democratização das instituições”, opinou ainda o professor da UFF. (leia mais abaixo)

DIFICULDADES DE LULA – Ainda de acordo com José Luís, as dificuldades de Lula implementar logo um programa de governo democrático e popular podem esbarrar nas forças conservadoras que o apoiam. “As mesmas forças que se unem agora para viabilizar o segundo turno foram as mesmas que tiraram o PT do governo e promovera o golpe no impeachment da Dilma, que são muito refratários e resistentes à expansão dos direitos sociais e trabalhistas, assim como qualquer proposta melhorias para o bem estar da população. Vai ser uma vitória de algumas batalhas, mas a guerra não estará ganha”, ponderou. (leia mais abaixo)

O sociólogo aponta um certo afrouxamento, tanto da fiscalização como da punição aos crimes contra a democracia como o incitamento à população contra o Supremo Tribunal Federal (STF). E menciona outros exemplos de surtos ditatoriais instalados em outros países, sem a utilização de tanques, fuzis e canhões.