Ranulfo Vidigal: Dias mais doces virão no setor canavieiro

A atividade sucroalcooleira do Norte Fluminense está diante de uma boa janela de oportunidade. A avaliação é do economista Ranulfo Vidigal Ribeiro, mestre em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pela UFRJ. Em sua opinião, o choque de preços nos combustíveis e a busca por fontes renováveis de energia tende a tornar o cultivo da cana novamente um negócio rentável e competitivo, sobretudo com o uso de irrigação, tecnologia de solos, política de compras, financiamento e assistência técnica. (leia mais abaixo)

Campos 24 Horas – O reconhecimento do Norte/Noroeste Fluminense como região semiárida pode, literalmente, ser a salvação da lavoura para o setor sucroalcooleiro, que sofreu um forte declínio nas últimas três décadas?

Ranulfo Vidigal – A vitória parlamentar na Câmara ainda necessita de um round no Senado, mas representa um passo importante na luta do segmento produtivo agrícola da região. Os estudos apontam para o risco de, em dez a 15 anos, nossas cidades deixarem de ter um clima semiúmido seco (na média anual) para semiárido. Por outro lado, a nova alta internacional de matérias-primas alimentares leva o mundo rural brasileiro a pensar na forma de aproveitar essa janela de oportunidades. O setor sucroenergético do Norte Fluminense pode capitalizar toda cadeia produtiva, unindo incentivos adequados, planejamento de longo prazo e preços internacionais favoráveis. (leia mais abaixo)

C24H – O Projeto de Lei 1.440/2019 prevê a criação de um fundo de desenvolvimento econômico da mesorregião, visando a apoiar as atividades produtivas nos 22 municípios do Norte e Noroeste Fluminense. Em sua opinião, como esse fundo deve ser composto para que efetivamente seja representativo e consiga cumprir sua finalidade?

Ranulfo – A ideia do Fundo é positiva e vai envolver a atuação consorciada entre setor público, setor privado e universidades. Retomar a ideia do planejamento regional é estratégico. (leia mais abaixo)

C24H – Fala-se muito na utilização dos recursos deste fundo para projetos de irrigação, com benefício direto ao setor canavieiro. O senhor acredita que a irrigação é o único ou principal caminho para que Campos volte a ser um dos maiores produtores de cana-de-açúcar do país?

Ranulfo – A irrigação, embora represente uma saída de custo alto, é a única saída viável para recuperar a produtividade da terra agrícola, nos moldes praticados no interior paulista. O fator chave agora é o choque de preços internacionais da energia, que cria vantagens relativas para o etanol e para a geração de energia do bagaço da cana. Remunerar o pequeno produtor de cana de açúcar fixa um contingente populacional na área rural, nestes tempos de tecnologia digital chegando a qualquer canto do planeta e promovendo acesso às tecnologias de ponta, informação e telecomunicações. (leia mais abaixo)

C24H – Nas últimas décadas, muitos produtores substituíram a cana-de-açúcar por outras lavouras. O senhor acredita que, diante de novos incentivos e do cenário internacional que favorece as alternativas energéticas ao petróleo, este cenário pode se reverter?

Ranulfo – O choque de preços de alimentos e energia, que aparentemente veio para ficar, tende a tornar o cultivo da cana irrigada em médias e grandes extensões de terra novamente rentável e competitivo. O ponto é adicionar a essa nova fase uma adequada infraestrutura econômica, social e ambiental para o morador dos municípios interioranos e de base rural. (leia mais abaixo)

C24H – Em sua opinião, de que forma a Guerra na Ucrânia vai se refletir no setor sucroalcooleiro? Seus efeitos serão momentâneos? Ou fala-se em novos paradigmas?

Ranulfo – A Guerra, ao produzir escassez de alimentos (notadamente trigo e milho), bem como exigir energias renováveis a preços competitivos abre uma cartela de boas oportunidades para a classe empresarial do interior do Estado do Rio de Janeiro. (leia mais abaixo)

C24H – Diferentemente dos estados que lideram a produção de açúcar e álcool no Brasil (São Paulo, Paraná, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul), na região de Campos predominam as pequenas propriedades rurais, com média de 5 hectares cada. Como tornar mais atrativo o plantio de cana nessas lavouras, diante da dificuldade do pequeno produtor em investir na mecanização e técnicas de correção do solo para aumento da produtividade?

Ranulfo – Unindo várias micropropriedades e usando tecnologia de ponta, irrigação, tecnologia de solos, política de compras, financiamento e assistência técnica. Em princípio uma utopia, mas na prática uma saída perfeitamente possível, mediante mudança cultural, vontade política e cooperação. (leia mais abaixo)

C24H – A formação de cooperativas pode ser a saída para o fortalecimento dos pequenos produtores rurais?

Ranulfo – O cooperativismo vem da tradição europeia e gera graus de liberdade para o produtor rural associado. Estamos falando de uma economia solidária cooperativada, um outro arranjo produtivo, ou seja, um empreendimento baseado na propriedade coletiva dos meios de produção. Em 2022, por exemplo, ela vai dividir parte dos R$ 240 milhões da receita de venda da matéria-prima entre proprietários rurais, e assim permitir ao processo industrial gerar açúcar, etanol e energia. Uma saída inteligente para superar a questão da escala produtiva que limita o pequeno produtor. (leia mais abaixo)

C24H – Como o senhor analisa a revitalização da Usina Nova Canabrava, que, arrendada em 2018, voltou a produzir e já conseguiu pagar quase metade das dívidas herdadas da gestão anterior?

Ranulfo – O arrendamento permitiu uma interessante e rentável verticalização da produção da unidade industrial da empresa. Uma empresa não pode existir sem revolucionar, incessantemente, seus instrumentos de produção e distribuição de seus produtos e serviços. E, consequentemente, suas relações de produção na busca de maior produtividade. (leia mais abaixo)

C24H – A cultura da cana-de-açúcar é uma atividade que passa de pai para filho. As novas gerações têm mais motivo para se preocupar ou para ter esperança no setor sucroalcooleiro?

Ranulfo – A tradição da cultura da cana de açúcar é centenária na região e pode ser mantida, a partir de adequados incentivos materiais e simbólicos, como resultado de políticas públicas que una setor empresarial, poder público e universidades.