Droga à base de metanfetamina já leva usuários a consultórios

O primeiro contato de X. com o crystal foi num quarto de hotel de Copacabana, na Zona Sul do Rio, durante um encontro casual marcado por um aplicativo de relacionamento. O jovem já havia consumido outras substâncias que circulam nas festas da noite carioca. Mas, pela primeira vez, estava diante da droga fumada numa espécie de cachimbo de vidro. O parceiro que ele acabara de conhecer ofereceu a “tina”, um dos nomes pelos quais o crystal é conhecido. As sensações de euforia daquela noite se repetiriam nas próximas vezes em que usaria os minúsculos cristais produzidos em laboratório. Até que o os efeitos dessa dependência se refletissem em seu cotidiano. (leia mais abaixo)

— Tenho virado noites e mais noites ‘colocado’ (sob efeitos da droga). Ao mesmo tempo em que me sinto quase um super-homem nessas horas, o rebote que vem depois é, por exemplo, o cansaço quando eu deveria estar trabalhando ou em atividades com meus amigos. Sexo sem o crystal passou a me parecer sem graça. Foi quando busquei ajuda na terapia — conta o jovem de 27 anos, que relatou seu drama, iniciado em 2020, sob a condição do anonimato. (leia mais abaixo)

Ele tenta agora reduzir os danos em sua vida causados pelo uso da metanfetamina — estimulante com moléculas parecidas com a do ecstasy e a do MD. Nos grandes centros urbanos brasileiros, como Rio, São Paulo e Salvador, é uma droga que se torna cada dia mais frequente entre grupos específicos da população, sobretudo, os de maior poder aquisitivo. Um grama da tina pode custar de R$ 400 a R$ 550. E, por aqui, seu uso costuma estar associado a experiências simulares à vivenciada por X.: é uma das drogas do chamado chemsex, o sexo com o uso de substâncias químicas.

Baseado nos relatos que começaram a chegar a seu consultório nos últimos três a quatro anos, o psiquiatra Bruno Branquinho não hesita em dizer que, na sua opinião, é a droga que causa mais prejuízos aos usuários, com potencial de adição maior e altas concentrações de metanfetamina. (leia mais abaixo)

— Muitos acabam tendo a vida sexual completamente atrelada à droga. Não fazem mais sexo sem a metanfetamina. Também gastam muito dinheiro, por ser uma droga muito cara no Brasil. E alguns se expõem a outros riscos, como às ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) — diz Branquinho.

Dealers e emojis
Nesse contexto, em cidades como o Rio, obter a tina pode estar a alguns toques na tela do celular. Dealers (como são chamados os traficantes) podem ser contatados por aplicativos de mensagem, como o WhatsApp, ou mesmo nos apps de relacionamento e encontros. Nesse universo virtual, quem usa, está em busca ou vende o crystal costuma se identificar com emojis em seus perfis. Os da tina normalmente são um diamante ou um anel com um diamante, assim como a cetamina, conhecida como Key, tem o símbolo de uma chave, e o GHB (Ácido Gama Hidroxibutírico), ou Gi, é representando por uma gota. (leia mais abaixo)

Mas as drogas representadas por símbolos aparentemente inocentes têm perigos múltiplos. Nos EUA, um dos países onde a metanfetamina é mais consumida, o presidente Joe Biden assinou este mês a Lei de Resposta à Metanfetamina, que designa a droga como uma ameaça emergente e exige que o Escritório de Política Nacional de Controle de Drogas (ONDCP, na sigla em inglês) desenvolva, implemente e torne público um plano de resposta nacional específico para a substância. Informativos do National Drug Intelligence Center americano lista os riscos do uso do crystal, entre eles, o aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, além de danos a microvasos sanguíneos no cérebro, o que pode levar a acidentes vasculares cerebrais, os AVCs. (leia mais abaixo)

“As overdoses podem causar hipertermia (temperatura corporal elevada), convulsões e morte. Indivíduos que usam metanfetamina crystal também podem ter episódios de comportamento violento, paranoia, ansiedade, confusão e insônia. A droga pode causar sintomas psicóticos que persistem por meses ou anos após o indivíduo parar de usá-la”, afirma o documento. (leia mais abaixo)

— Não sou usuário frequente. As vezes em que experimentei, suei demais, principalmente nas palmas das mãos, costas e couro cabeludo. A desidratação rápida é outra característica. Minha boca fica muito seca, a ponto de eu não produzir saliva. Ela também corta totalmente meu apetite. Não tenho vontade de comer por longas horas, mesmo depois do uso — diz outro jovem carioca, de 32 anos. (leia mais abaixo)

Nos Estados Unidos, um estudo apontou que as overdoses com o psicoativo quase triplicaram entre 2015 e 2019. Por aqui, um dos grupos sociais em que os relatos sobre o uso do crystal têm se repetido é em parte da comunidade LGBTQIAP+. Júlio Moreira, diretor do Grupo Arco-Íris, no entanto, ressalta que faltam estudos para apontar se esse consumo afeta, de fato, mais essa parcela da sociedade, temendo que a afirmação reforce estigmas. Ele diz, porém, que algo é certo: no Brasil, é uma droga acessível a quem tem mais poder aquisitivo, circulando, no Rio, principalmente na Zona Sul. Segundo Moreira, embora menos comum, também há relatos do uso injetável da droga, o chamado slam: (leia mais abaixo)

— Nessa forma de uso, há o perigo ainda do compartilhamento de agulhas. Enquanto isso, não vejo política pública alguma alertando para o problema. (leia mais abaixo)

Na rede pública, ainda são baixos os números de relatos de uso da droga nos Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogras (CAPSad) da prefeitura do Rio, onde a Secretaria municipal de Saúde afirma que a adição à metanfetamina ainda é uma parcela quase ínfima. No Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas da Uerj, o Nepad, que presta atendimentos gratuitos à população, o diretor Paulo Telles também afirma que são raros os casos. (leia mais abaixo)

Só casos de emergência
Mas, nos consultórios e clínicas privados, o cenário começa a mudar. Mesmo que, no caso da Clínica Jorge Jaber, afirma o psiquiatra que dá nome à instituição, a ampla maioria não chegue espontaneamente, apenas após episódios que os tenham levado às emergências dos hospitais. (leia mais abaixo)

— Eles, geralmente, são transferidos do hospital geral diretamente para um hospital psiquiátrico, na ambulância. É muito raro esse paciente pedir ajuda para parar de usar a droga. Ele normalmente a usa de maneira bastante social, já que o custo é alto — afirma Jorge Jaber. (leia mais abaixo)

Ele explica que a metanfetamina age liberando neurotransmissores estimulantes no sistema nervoso central, aumentando a produção de dopamina, noradrenalina e serotonina, o que leva à sensação de euforia e energia. No Rio, ele avalia que uma busca maior pela metanfetamina pode estar relacionada, inclusive, com uma mudança no mercado de outra droga, a cocaína. (leia mais abaixo)

— Observo que houve uma espécie de autorregulação do mercado no Rio. As misturas passaram a ser feitas também por químicos, diminuindo a concentração da droga. Hoje, a cocaína vendida no Brasil e, principalmente no Rio, tem pouca concentração da droga. Virou o que se chama farinha ou poeira. Isso pode estar por trás de um consumo maior da metanfetamina — diz Jaber, lembrando que a droga é usada desde a primeira metade do século passado, quando era utilizada por soldados nazistas alemães na Segunda Guerra Mundial. (leia mais abaixo)

Como buscar ajuda
Os psiquiatras Paulo Telles e Bruno Branquinho afirmam que buscar a ajuda de um amigo pode ser um passo importante. (leia mais abaixo)

Branquinho destaca a necessidade de uma ajuda multidisciplinar, de psiquiatras, psicólogos, grupos de acolhimentos especializados. (leia mais abaixo)

No Nepad, ligado à Uerj, os contatos para atendimentos gratuitos podem ser feitos pelo e-mail [email protected] ou pelos números de WhatsApp (21) 96905-8026 e (21) 98091-8470.

Fonte: Extra