O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, em depoimento agora à CPI da Covid, no Senado, disse que o Brasil poderia estar em uma situação muito melhor. “Sim, o Brasil podia mais. Poderíamos estar vacinando desde novembro do ano passado”. Mandetta também afirmou que Bolsonaro foi alertado das consequências de não ouvir a ciência, inclusive com a projeção de alto número de mortes caso as medidas indicadas pela OMS não fossem seguidas. (leia mais abaixo).
“O que havia ali era um outro caminho, que ele decidiu, não sei se através de outras pessoas ou por conta própria”, afirmou. “Era muito constrangedor explicar porque o ministério estava indo por um caminho e o presidente por outro”. (leia mais abaixo).
Questionado pelos senadores se houve alguma proposta técnica do presidente Jair Bolsonaro ao ministério quando estava na pasta, Mandetta afirmou que não e que “o que havia ali era um mal estar”.
O ex-ministro chegou a dizer que viu uma minuta de documento da Presidência da República para que a cloroquina tivesse na bula a indicação para Covid-19 e que o presidente Jair Bolsonaro parecia ouvir “outras fontes” que não o Ministério da Saúde.
De acordo com Mandetta, a ordem para que o Laboratório Central do Exército produzisse cloroquina em larga escala ocorreu de maneira “alheia ao Ministério da Saúde”. Ele destacou nunca ter recomendado, como ministro, a adoção do medicamento contra a doença, a não ser o uso em pacientes graves, em hospitais.
“A ordem não partiu do Ministério da Saúde. A única coisa que o ministério fez era recomendar para o uso compassivo, aos pacientes graves, em uso hospitalar. Mesmo porque é uma droga em que a margem de segurança dela é estreita. Ela tem uma série de reações adversas. A automedicação com cloroquina e outros medicamentos poderia ser muito arriscada para as pessoas”, disse Mandetta.
Mandetta afirmou também que o Ministério da Saúde nunca foi pressionado por Bolsonaro, mas, sim, “confrontado publicamente”, e que essa postura acabou prejudicando o combate à pandemia no Brasil.
“Isso dava uma informação dúbia à sociedade. Diretamente a mim, pressionado a mudar algo, não. Mas você tem que ter a unidade, a fala única. O raciocínio não é individual. Ele (o vírus) ataca tudo, a sociedade como um todo. Ele ataca o sistema de saúde a ponto de derrubá-lo. E houve uma ruptura. A medicina ficou completamente dividida”, declarou ainda o ex-ministro.
Em 16 de abril de 2020, no início da crise sanitária no Brasil e após longo desgaste na relação com Bolsonaro, Mandetta foi exonerado. O médico defendia o uso de máscaras e era contra a indicação de medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19.
Depois do depoimento de Mandetta será a vez de Nelson Teich, também ex-ministro da Saúde. O depoimento do ex-ministro Eduardo Pazuello estava marcado para quarta-feira (5), mas o general alegou que manteve contato com assessores que estão com Covid e ele pode estar contaminado, por isso não irá à CPI nesta quarta-feira. O depoimento está marcado para 10h. Apontado como principal testemunha da omissão do governo na pandemia, o militar cria estratégias para evitar danos ao Executivo.
O ex-ministro deve tentar autorização para depor a distância, on-line, ou adiar em uma ou duas semanas sua oitiva. Os senadores avaliam quais os prejuízos para o andamento dos trabalhos de investigação com a ausência presencial de Pazuello. A avaliação é de que pela internet ele pode ser orientado quanto às perguntas realizadas pelos parlamentares.
Nos bastidores, fontes ligadas ao Executivo afirmam que a orientação para faltar ao depoimento presencial partiu do Palácio do Planalto. O governo está preocupado com o teor das declarações do militar, que vem recebendo orientação de auxiliares de Bolsonato para enfrentar a sessão. A estratégia seria ganhar tempo para avaliar e rebater os depoimentos de Mandetta e Teich.
A gestão de Pazuello ocorreu no auge da crise da covid-19, com registro de estoques zerados de oxigênio em Manaus, aumento potencial de mortes e de infectados pela Covid-19 e atraso na compra de vacinas. Senadores avaliam manter o depoimento, pela internet, e convocar Pazuello posteriormente, de maneira presencial, para esclarecer eventuais dúvidas.