Entrevista: o risco dos jovens de Campos com novas variantes, vacinação e aulas

A situação da pandemia da Covid-19 está sob controle em Campos, de acordo com o Subsecretário de Atenção Básica, Vigilância Sanitária e Promoção em Saúde, médico Charbell Kury. Mas o inimigo invisível e suas variantes trazem mais preocupações, além das mortes de pacientes mais jovens no município. Nesta entrevista exclusiva ao Campos 24 Horas, o epidemiologista revela suas inquietações com a campanha de vacinação, o avanço da doença e outros ciclos como a onda de mutações. Ele se mostra preocupado com uma terceira onda por causa da variante mutante P1 da Amazônia e da variante inglesa. Segundo Charbell, a variante P1 é bem agressiva e pega os jovens. “Caso ela chegue é bem mortal. Por isso nossa preocupação em vacinar ao máximo”, alertou. O epidemiologista responde também perguntas sobre como vê o retorno das aulas e o que os médicos têm aprendido mais sobre esta pandemia. Vale ressaltar que variantes têm chamado a atenção mundial e pesquisadores apontam que elas serão o próximo desafio da ciência. As três que geram mais preocupação atualmente são do Reino Unido, África do Sul e Brasil. (Perguntas e respostas – leia abaixo a entrevista completa)

Campos 24 Horas – Como médico e estudioso que se debruça sobre este fenômeno da pandemia que destrói parte da humanidade e ameaça outra, o senhor é capaz de expressar otimismo com a campanha de vacinação em nosso país, da forma lenta como ela esta sendo desenvolvida?
Charbell Kury – Esta resposta tem dois lados: o Charbell especialista em saúde pública e vacinas que está muito otimista na redução dos casos da Covid devido à vacinação. Mas o mesmo Charbell doutor em virologia está preocupado com a necessidade de o Ministério da Saúde enviar os dados o mais rápido possível pois a demora na entrega faz os vírus ficarem propensos a mutações e nossa preocupação são essas variantes novas. Estamos monitorando casos de óbitos em pessoas de 27 e 33 anos em fevereiro. Apesar de terem comorbidades, temos que melhorar a  vigilância das variantes. (leia mais abaixo)

C24HNas redes sociais proliferam queixas quanto a suspeitas de irregularidades na campanha de vacinação em Campos. O caso de maior repercussão foi do advogado Mário Filho, presidente do PreviCampos. As pessoas têm pressa em se vacinar e não entendem porque estão sendo vacinados prioritariamente farmacêuticos, médicos, dentistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos e musicoterapeutas, que não estão na linha de frente do combate à Covid. Como o senhor explica esses critérios? 
Charbell – Não concordo com a afirmação. Em primeiro lugar seguimos fielmente o manual técnico do Ministério da Saúde que fala sobre a importância de contemplarmos todos os profissionais de saúde. O conceito de linha de frente é amplo e propõe que todos hoje estão à frente de uma doença disseminada na população. Quer exemplos? Um dentista no consultório está mais exposto do que todos. O paciente retira a máscara, faz o tratamento e gera aerossol. Sabe o que é isso? O vírus fica em suspensão por 2, 3 horas. O paciente vai embora e o vírus continua voando no consultório. Não é linha de frente? E um farmacêutico que está fazendo 130 testes de Covid por dia, e atende pessoas doentes todos os dias? Não é linha de frente? E o fisioterapeuta que vai de casa em casa atender pessoas acamadas? Não é linha de frente? Temos que pensar que são profissionais vetores de infecção, e sua vacinação dissemina proteção na cidade. (leia mais abaixo)

C24H- O senhor atribui este aumento de casos neste início de ano às festas de fim de ano, os bares cheios  e os carnavais domésticos ou em casas de eventos que promoveram folias clandestinas?  
Charbell – Certamente. Quanto mais aglomerações, mais contaminação. (leia mais abaixo)

C24H- Em sua opinião, as pessoas deram uma “relaxada” com a chegada da vacina entendendo que a situação estaria resolvida? Só que a vacina não chegou ainda para todos… 
Charbell – É possível, sim. Isso ocorreu da mesma forma em 2010 quando vacinamos para a gripe suína. A população relaxou tanto que, em 2011, se esqueceu até de tomar a vacina de gripe anual. E pensamos que no futuro todo seja bem parecido. (leia mais abaixo)

C24H – Em alguns estados, a cada cinco minutos a situação da Covid piora. No Amazonas o problema é abrir cemitérios para enterrar tantas vítimas. Em Porto Alegre e muitos municípios do Estado do RS a situação da pandemia está no pior momento. Não há mais vagas, o colapso está muito próximo. A falta de leitos e médicos é concreta, real. Em alguns casos há oxigênio, há equipamentos, mas faltam profissionais treinados para atender a demanda de pacientes. Governadores e prefeitos temem pelo que possa vir ocorrer nas próximas semanas. Como avalia a situação nacional? 
Charbel – Estamos preocupados com uma terceira onda por causa da variante mutante P1 da Amazônia. Ela é bem agressiva e pega os jovens. Caso ela chegue é bem mortal. Por isso nossa preocupação em vacinar ao máximo. (leia mais abaixo)

C24H– Quando o governo aperta o cerco com medidas mais duras para o controle da Covid em Campos, os comerciantes da área central e da Pelinca reclamam que os comércios da periferia não estão cumprindo as determinações dos decretos. São botecos cheios de gente, as baladas nos finais de semana fervilham… O senhor avalia que não há como fiscalizar tudo? Está na hora de se fazer um apelo à comunidade para que denuncie as baladas sem o distanciamento e festas clandestinas, assim como os botequins com registros de aglomerações? 
Charbell – Campos tem feito um trabalho brilhante em 2021 com a Vigilância Sanitária. A doutora Vera Cardoso de Melo, junto com as equipes da Postura e da Guarda Municipal, mudaram nossa cidade dando dignidade e proteção ao povo. Além de todo o trabalho de fiscalização, há as barreiras sanitárias. (leia mais abaixo)

C24H – O governo decidiu pela retomada das aulas em Campos durante a pandemia, com a implantação do modelo híbrido e as aulas presenciais. Professores resistem, afirmam que somente retornarão às salas de aula vacinados.  Alguns pais de alunos consideram uma temeridade a volta às aulas. Como o senhor avalia essa queda de braço, tendo participado das reuniões entre governo, representantes dos professores e Ministério Público? 
Charbell – Pensamos que a escola é um ambiente essencial para o desenvolvimento da criança, e o fechamento das mesmas acarretou problemas sérios de desenvolvimento, linguagem e comportamento. Pensamos que um sistema híbrido seria protetor para todos e com menos chance de infecção. (leia mais abaixo)

C24H – As crianças são outras grandes vítimas desta pandemia, sem a rotina escolar, a ausência de sociabilidade, sem convivência com outros de sua faixa etária… Qual sua análise deste quadro emocional? Até que ponto pode prejudicar o aspecto do desenvolvimento infantil e o aspecto cognitivo? 
Charbell – Não só os estudos mostram isso, mas meus próprios pacientes que acompanho, vejo os mesmos com atraso de linguagem, problemas de relacionamentos por dificuldades sociais e os adolescentes com depressão. (leia mais abaixo)

C24H – Há aumento de casos de vítimas mais jovens que tem sido ceifadas em Campos? Em quais faixas etárias? 
Charbell – Sim, em fevereiro houve dois casos com 27 e 33 anos. (leia mais abaixo)

C24H – O que os médicos e outros profissionais de saúde tem aprendido mais sobre esta pandemia na evolução do tratamento?
Charbell – Que não há efetividade de super medicar, tratar a doença no momento certo, usar os medicamentos de acordo com o período da doença e usar com indicação os corticóides e anti-coagulações que mudaram o curso da doença. (leia mais abaixo)

C24H – Recentemente um certo “movimento antivacinação” foi incluído pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em seu relatório sobre os dez maiores riscos à saúde global. De acordo com a Organização, os “movimentos antivacina” são tão perigosos quanto os vírus que aparecem nesta lista porque ameaçam reverter o progresso alcançado no combate a doenças evitáveis por vacinação, como o sarampo e a poliomielite. Não bastasse os esforços do combate ao Covid, os médicos e cientistas têm que erguer a bandeira da divulgação científica. Grupos de pesquisadores se unem para esclarecer,  com reflexões e argumentos, a fim de demolir o tal “movimento antivacina” fenômeno sem base científica, mas que se populariza por aí e ameaça as conquistas da vacinação. Como combater a desinformação, essas teorias da conspiração pelas redes sociais?  
Charbell – Esse movimento teve origem nos Estados Unidos e nos preocupa muito pois tem ganhado cada vez mais adeptos. Por isso é importante seguirmos os canais oficiais. (leia mais abaixo)

C24H- Como o senhor avalia o papel do governo federal? De que forma o posicionamento negacionista do presidente da República pode ter contribuído para a atual situação? Como o governo da União poderia melhor ajudar os estados e municípios no combate ao Covid-19? O que poderia ter ocorrido e deixou de ser feito? 
Charbell –  Como especialista discordo em diversos aspectos das ações do ministério. Entretanto, como gestor estamos em uma guerra e tivemos apoio do ministro para campos em várias ocasiões na pandemia, atendendo a pedidos do então deputado federal Wladimir Garotinho para montagem dos leitos que temos para atendimento na cidade. Mas agora temos que torcer para nosso país dar certo. O sucesso do país é o sucesso de uma campanha de imunização com sua população vacinada. (leia mais abaixo)

C24H- Como o senhor avalia essas novas variantes e quais os desafios a este enfrentamento desta fase da pandemia da Covid 19?
Charbell – Super perigosas e não sabemos o quanto as vacinas podem evitar a propagação das mesmas. (leia mais abaixo)

C24H- Há casos de outros países que enfrentaram melhor a situação da pandemia e poderiam servir de exemplo a nós, brasileiros?
Charbell – Sim. Exemplos como Argentina e Chile com população consciente e já vacinou muito mais pessoas. Israel que também já vacinou bastante, entre outros. (leia mais abaixo)

C24H – Quais suas últimas considerações? Algum apelo, mensagem de alerta ou esperança à população? 
Charbell – Acreditemos na Prefeitura de Campos. Somos especialistas nesse trabalho, sabemos o que estamos fazendo e o mais importante é dar dignidade a população, além de atender com humanismo e gentileza o povo. (leia mais abaixo)

C24H – Em uma palavra, como o senhor resumiria a situação de Campos? 
Charbell – Controlada.