Cientista critica visão da OMS sobre contágio pelo ar: ‘Não deixam a gente se proteger direito’

Professor de Química na Universidade do Colorado em Boulder (EUA), José Luis Jiménez faz parte de um grupo de 239 cientistas para quem a Organização Mundial da Saúde (OMS) está demorando muito para reagir quando o assunto é a transmissão do novo coronavírus pelo ar. (leia mais abaixo)

O grupo escreveu em julho uma carta aberta na revista científica Clinical Infectious Diseases pedindo à organização que reconheça a transmissão do coronavírus por meio de aerossóis, ou seja, partículas infecciosas que ficam suspensas no ar, mais ou menos como acontece com a fumaça do cigarro. Considerando essa via, os cientistas dizem que haveria riscos, por exemplo, em uma sala mal ventilada em que a “fumaça” se acumula — quem estiver dentro dela vai acabar inalando grandes quantidades, aumentando o risco de contágio.

Enquanto isso, a OMS foca em gotículas, e não em aerossóis. As gotículas viajam pelo ar, mas caem no solo depois de um a dois metros, enquanto os aerossóis, explica Jiménez, podem permanecer suspensos no ar e infectar por mais tempo.

Segundo a organização mundial, o vírus “é transmitido principalmente por meio do contato direto, indireto (por objetos ou superfícies contaminadas) ou próximo de pessoas infectadas através de secreções da boca e do nariz”.

“Pessoas que estão a um metro ou menos de distância da pessoa infectada podem pegar a covid-19 quando essas gotas infecciosas entram na boca, nariz ou olhos”, diz a organização.

No entanto, recentemente, a organização reviu suas diretrizes sobre o assunto — o que no entanto ainda é insuficiente, para os críticos. Ela também considera a transmissão por aerossóis em situações específicas, como o momento da intubação no hospital.

“A transmissão por aerossóis de curto alcance não pode ser descartada, particularmente em certos espaços fechados, como aqueles cheios e mal ventilados por um longo período de tempo, na presença de pessoas infectadas”, afirma a organização, que destaca também a necessidade de mais estudos sobre o tema.

Para Jiménez, porém, a OMS precisa ser mais enfática na consideração dos aerossóis como meio de propagação do vírus. Isso aceleraria medidas de prevenção considerando também essa via, ele defende.

Confira trechos da entrevista de Jiménez com a BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).

BBC News Mundo – Você poderia explicar, de uma forma simples, o que são aerossóis?

José Luis Jiménez – Aerossóis são partículas que flutuam no ar e vão se dispersando.

O que nos preocupa são as partículas respiratórias, a saliva ou o fluido respiratório, que é o líquido que molha os pulmões e a traqueia.

Elas saem no o ar como bolinhas. São como as gotículas de que fala a OMS, mas de tamanho diferente. As gotículas são maiores, os aerossóis, menores.

As gotas são grandes a ponto de funcionarem como projéteis balísticos, como se alguém estivesse cuspindo em você. A pessoa está falando, ou tossindo, e esses projéteis saem e podem acertar você no olho. Se tiverem o vírus, eles infectam você.

Os aerossóis são como a fumaça do tabaco. Eles saem, flutuam e podem infectar quando inspirados.

Quando você os inala, como acontece com a poluição, eles podem ser depositados nos pulmões.

BBC News Mundo – Você diz que a OMS até recentemente só reconhecia duas formas principais de transmissão do vírus, certo?

Jiménez – Sim. Por gotículas e por fômites. Este último é quando tocamos superfícies ou pessoas contaminadas com o vírus e depois tocamos os olhos, narinas ou boca.

E parece acontecer, mas quase todos concordam que é uma via menos importante.

O que eles (OMS) dizem ser o mais importante são as gotículas balísticas que saem das pessoas quando falam, mas principalmente quando espirram ou tossem. Estas caem nos olhos, nariz ou boca de uma pessoa suscetível e, assim, começa a infecção.

Fonte: Yahoo Notícia