Uma nuvem de baforadas corria, nas noites de quinta-feira, pela varanda interna do Palácio das Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, até ganhar o espaço aberto e se dissipar. Entre tragadas e goles de vinho ou uísque, Wilson Witzel comandava dali o “clube do charuto”, o encontro semanal do governador com amigos, com aliados e, especialmente, com gente interessada em fechar negócios com o governo estadual. (leia mais abaixo)
O ex-secretário de Saúde Edmar Santos, em sua colaboração, sustenta que algumas das operações irregulares rastreadas pela força-tarefa nasceram no clube do charuto. Cabia a um advogado trabalhista, ex-membro da Justiça Desportiva, chamar os convidados e organizar o encontro.
O então secretário de Desenvolvimento Econômico Lucas Tristão não perdia uma reunião. Era também presentes ex-colegas de toga, como o desembargador Marcos Pinto da Cruz, do Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro, que foi outro dos alvos da Operação Tris In Idem.
De acordo com o Ministério Público Federal, Cruz liderava um esquema para beneficiar organizações sociais com contratos na área da saúde do Rio. Ele foi alvo de mandados de busca e apreensão na manhã desta sexta-feira
Iniciado em maio do ano passado, o “charuto das quintas” é um hábito que Witzel trouxe dos tempos de toga. Antes de ingressar na política, o então juiz tragava os seus Cohibas – tradicional marca cubana – na varanda do Iate Clube do Rio de Janeiro, em Botafogo. Já como governador, adorava ser cercado de paparicos e falar abertamente de sua ambição de chegar à Presidência da República ou ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Em alguns destes encontros, também apareceram ex-colegas de toga, embora não se envolvessem em negócios.
O charuto, em certas ocasiões, era transferido para a varanda do Palácio Laranjeiras. Alguns dos convivas contam que, na residência oficial do governador, o anfitrião não ficava tão à vontade. Às 23 horas, a primeira-dama aparecia para encerrar o convescote. Todos, constrangidos, apagavam apressados os seus legítimos cubanos nos cinzeiros e saiam.
Fonte: Extra