Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino defende volta às aulas

Um vídeo institucional produzido pelo Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Rio de Janeiro (SinepeRIo), em defesa da volta às aulas, vem causando polêmica nas redes sociais. A discussão gira em torno do texto da narração, que coloca em xeque estudos sobre a pandemia do novo coronavírus e o distanciamento social, recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e adotado em todo o mundo democrático. (leia mais abaixo)

A peça, de pouco menos de 1 minuto, mescla imagens de adultos, crianças em salas de aula e ao ar livre. A narradora começa falando em cumprimento de regras e protocolos e afirma que as escolas privadas fizeram “o dever de casa” e estão prontas para reiniciar. O texto segue, então, com as afirmações que geraram toda a polêmica.

“Vimos que ciência é a vacina. Estudos só confundiram. Trancar todos em casa não é ciência. Confinar é desconhecer, é ignorar, subtrair vida, é fragilizar, debilitar, mexer com o emocional”.

Por fim, a narração conclui que as crianças precisam “voltar a se relacionar, brincar, refazer laços, amizades e rever os amigos”.

“Vergonhoso, desumano, mentiroso e antiético o VT que o @SinepeRio  jogou aos leões, hoje. A vergonha aumenta quando a gente lê o Código de Ética deles e vê que eles o descumprem, neste vídeo. O negócio é levar vantagem em tudo, né?”, comentou o usuário Afonso Borges, um dos primeiros a postar as imagens.

Repecussão
Ao longo desta segunda-feira, artistas e influenciadores digitais também criticaram o conteúdo do vídeo.

“Falta de vergonha, de humanidade e – pasmem – conhecimento científico dá nisso. Esse vídeo é um horror!”, escreveu a cantora Teresa Cristina.

O cantor e ativista Tico Santa Cruz também se mostrou indignado e cobrou que as escolas privadas se pronunciem sobre o vídeo:

“O Sindicato das escolas particulares do RJ fez esse vídeo INSTITUCIONAL, com conteúdo NEGACIONISTA em meio a uma pandemia que já matou mais de 85 mil pessoas! Temos que cobrar das escolas privadas uma posição sobre isso!”.

O material divulgado pelo SinepeRIO repercutiu mal nas redes sociais pelo tom considerado negacionista da pandemia. A reação negativa levou o sindicato a remover o vídeo das redes, na manhã de segunda, mas o material já tinha viralizado.

Para o presidente do Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região (Sinpro-Rio), Oswaldo Teles, o conteúdo do vídeo é grave e coloca a entidade que representa os empresários da educação numa posição delicada.

— Muitos pais reclamaram, diretores e donos de escola que não apoiam esse tipo de posicionamento — afirma.

Oficialmente, nenhuma grupo educacional ouvido pela reportagem se pronunciou sobre o caso.

Teles destaca ainda que o texto, colocando a ciência em xeque, é incompatível com o que se espera de uma entidade que representa instituições de ensino.

A opinião é compartilhada por Claudia Costin, Diretora Geral do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV, que também lamenta a forma como Sinepe-RIO coloca em dúvida a ciência e vê na divulgação do vídeo um grande erro.

— Acho muito importante que haja diversidade de pensamentos e visões de mundo. Mas no momento em que uma instituição educacional questiona a ciência, isso é muito complicado — afirma.

Especialista em Educação, Claudia Costin também questiona a proposta do Rio de reiniciar as atividades escolares pela rede privada. Ela teme que as desigualdades, que já ficaram acentuadas na pandemia, se agravem ainda mais.

— Nas escolas públicas, já temos muitos alunos em meios de vulnerabilidade. Não é só acesso à internet, mas condições de estudar em casa. Foi mais fácil para as escolas particulares aplicarem educação online, porque não demandou grandes esforços. Eles já tinham a estrutura — acredita.

Até a publicação desta reportagem, o Sinepe-RIO não se pronunciou.

Fonte: O Globo