Trump pode escapar do impeachment no Senado mesmo após a aprovação na Câmara

O Donald Trump que o mundo viu até agora será outro em 2020. O presidente americano ainda será o empresário agressivo e falastrão convertido em presidente que ataca a imprensa e os parceiros comerciais tradicionais e difunde fake news. O que muda, no entanto, é que ele passará a carregar a mácula de ser o terceiro presidente a sofrer um processo de impeachment em 243 anos de democracia americana. Como disputará a reeleição, isso significa que a sua agressividade terá de ser temperada, afinal ele não pode correr o risco de se envolver em conflitos sensíveis politicamente e perder o apoio eleitoral, especialmente no seu partido.

A atual batalha está sendo dura para Trump. Numa sessão histórica, a Câmara aprovou na noite de quarta-feira 18 o impeachment por 230 votos a 197 na acusação de abuso de poder. O placar foi de 229 a 198 por obstrução do Congresso. Ele se recusou a colaborar na investigação que apurava sua ação para prejudicar o rival democrata, Joe Biden, solicitando a ajuda da Ucrânia. Agora, o Senado retomará o processo em janeiro. Nesta Casa, os republicanos contam com a maioria. O processo precisa ser aprovado por dois terços, o que torna mais provável que seja absolvido, como ocorreu com o ex-presidente Bill Clinton, em 1998. Mesmo que Trump termine absolvido, não escapará ileso. O processo representa por si só uma derrota moral.

O instrumento político do impeachment foi criado nos EUA, e nunca tirou concretamente um presidente de seu cargo. O mais afetado foi Richard Nixon, em 1974, mas ele renunciou antes da votação da Câmara. Já o caso de Trump se assemelha ao de Clinton — não pelos crimes pelos quais é acusado, mas pela forma como, ao que tudo indica, será absolvido. Clinton foi acusado de perjúrio e obstrução à justiça no escândalo sexual com Monica Lewinsky.

O impeachment não é apenas um problema político doméstico. Reflete uma crise global das democracias, que sempre tiveram os Estados Unidos como parâmetro. Quando a autoridade máxima dos EUA pressiona um governo estrangeiro para investigar um opositor político, significa que os fundamentos do modelo político vão mal. E não é só isso. Trump ataca a imprensa, desqualifica órgãos de Estado e estudos que comprovam o aquecimento global, ataca os direitos das minorias, entre eles os imigrantes. Foi como aconteceu no repugnante episódio de prisão de crianças refugiadas separadas de seus pais. É um sinal ainda pior da força atual das medidas antidemocráticas o pπ de Trump continuar popular e ter tudo para ser reeleito. De acordo com pesquisas pré-eleitorais, o único candidato democrata capaz de derrotá-lo até o momento é o próprio Joe Biden. “O presidente Trump abusou de seu poder e traiu o nosso país”, afirmou o ex-vice presidente após a votação da Câmara. “Mas nos EUA ninguém está acima da lei.”

Trump tem estimulado uma geração de líderes populistas no mundo inteiro que se voltam contra a globalização, propagam mentiras, atacam a imprensa independente e minam as bases da democracia. Isso ocorre em vários países europeus e até no Brasil, onde é modelo para o presidente Jair Bolsonaro. As democracias liberais, responsáveis pela expansão mundial nos últimos 150 anos, nunca estiveram tão fragilizadas — e a conduta do americano é central para esse processo. É isso que está em jogo na política dos EUA em 2020.

Fonte: Isto é