74% das rainhas de bateria do Carnaval do Rio e SP são famosas que vieram de fora das escolas

Além de sambar e sorrir para câmeras, jurados e plateia, as rainhas de bateria defendem as cores das escolas do Rio e SP bem além da avenida e das quadras.

Reinam no Insta, no YouTube, na TV e na publicidade. Segundo apuração do G1, 20 das 27 rainhas são dançarinas, apresentadoras, “influenciadoras digitais” ou atrizes.

Após uma pesquisa sobre a trajetória de cada rainha do Grupo Especial, fica claro que o grito de “Alô comunidade” poderia ser trocado por “Alô celebridade”. Só 26% das rainhas possuem alguma ligação com as comunidades da escola, antes do reinado.

Bailarina do “Domingão do Faustão”, Pâmella Gomes é rainha de bateria da Tom Maior há seis anos. Ela é um dos sete casos listados no gráfico acima e frequenta a escola desde os três anos. Ela diz ser “cria da escola”. E é mesmo:

“Venho de uma família de sambistas, meus pais são o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, meu tio é mestre de bateria, minha tia é madrinha de bateria, minha avó sai na Velha Guarda, meus primos tocam na na bateria, meu irmão é apoio.”

Outra cria de comunidade é Raissa de Oliveira. A empresária pisou a primeira vez na Sapucaí como rainha de bateria da Beija Flor aos 12 anos. E não saiu mais do posto:

“As pessoas começaram a criar essa referência de rainha de bateria da comunidade a partir de mim. Nada contra famosas que ocupam o cargo, mas toda rainha tinha que ser da comunidade.”
 
Rainha da Mangueira desde 2014, Evelyn Bastos pensa parecido com sua colega. Ela define o carnaval como “manifestação do povo, de gente humilde”.

“É o único momento em que as pessoas veem que a cultura é do povo negro, do povo pobre. Então, nada mais justo que a rainha de bateria, o mestre-sala, a porta-bandeira, mestre de bateria e as musas serem gente da gente. Serem pessoas comuns”.

Ela diz que o posto de rainha de bateria é questão de “merecimento”. “Mas já ofereceram dinheiro pelo meu cargo. Só que a gente tem muita lealdade dentro da escola”, diz Evelyn ao G1.

Nem lá, nem cá

Cíntia Mello, rainha da Tucuruvi, não é tão famosa e tampouco é da comunidade.Ela tem história no samba, mas em outras escolas. A família fundou a Flor de Vila Dalila, do Grupo 2 de SP, e ela foi passista da Vai-Vai.

Há outros casos assim: sambistas quase famosas que mudam de escola em busca de mais exposição, cargos melhores ou por terem perdido o posto para alguém mais famoso.

Valeska Reis, da Império de Casa Verde, se divide entre assistente de palco, influenciadora digital e rainha com currículo extenso.
“Eu usei o carnaval para poder me soltar mais porque eu era muito acuada, ficava escondida, falava baixinho”, explica.

Ela já passou por outras três escolas de SP: Tatuapé, Vila Maria e Mancha Verde. Não chega ao tamanho de uma lista de time de jogador de futebol, mas não passa tão longe assim.

Fonte: G1