Unidades de saúde e de ensino, equipamentos esportivos no osso. Obras iniciadas — algumas em 2010 — e que já consumiram R$ 69 milhões dos cofres públicos são hoje esqueletos espalhados pelo estado. Boletins da Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio (Emop) publicados nos últimos três meses apontam que 34 desses contratos tiveram seus prazos finais prorrogados por “indisponibilidade de créditos orçamentários”. Isso significa que essas obras estão paradas por falta de dinheiro. O problema é que boa parte das estruturas, muitas já enferrujadas e tomadas pelo mato, já foi paga.
Com esse dinheiro já gasto, seria possível ter acabado o Hospital da Mãe (orçado ao todo em R$ 37 milhões), em São Gonçalo, maternidade que teria capacidade para 800 partos por mês, e o Rio Imagem 2, em Niterói, centro de exames de imagem que atenderia mil pacientes por dia (orçado em R$ 23 milhões, sem equipamentos).
Caso as duas unidades estivessem funcionando, Jocelaine de Souza Rodrigues, de 23 anos, moradora do bairro Columbandê, em São Gonçalo, não precisaria pagar pelas ultrassonografias nem teria dúvidas de onde teria seu segundo filho. Ela mora a poucos metros de onde hoje se vê a estrutura de concreto do Hospital da Mãe.
— Faço o pré-natal num posto de saúde aqui perto que não faz nenhum exame. Só vou lá, sou pesada, medida e liberada. Para fazer exame, preciso pagar — conta.
A obra que até agora mais consumiu recursos públicos foi a ampliação do Instituto do Cérebro, no Centro do Rio. A obra, iniciada há quatro anos, já levou R$ 18,5 milhões (valores pagos mais dívida), mas foi interrompida.
Em setembro, o presidente Michel Temer afirmou que a União ajudaria a terminar a unidade. O projeto prevê a criação de 200 leitos de enfermaria — atualmente, não há nenhuma. A Secretaria estadual de Saúde informou retomará esta obra este mês.
A escola precária
O calor é forte nas salas de aula do Colégio estadual Stella Matutina, no Tanque, em Jacarepaguá. Para ligar o ventilador, os alunos precisam pegar o pedaço de fio e colocar diretamente na tomada. A janela está emperrada. A porta, sem maçaneta. Pela situação precária, ficou conhecida como Carandiru. E o estado ainda paga aluguel do imóvel. Um prédio novinho seria construído pertinho dali. No entanto, essa é uma das obras que ficaram pelo meio do caminho.
Até agora, a escola é só um amontoado de vigas no matagal. No entanto, já foram gastos R$ 2,3 milhões.
— É um absurdo a gente estudar nessa unidade e ainda gastarem tanto dinheiro com essa obra. A escola está caindo aos pedaços — conta um estudante.
A Secretaria estadual de Educação não respondeu sobre as condições do prédio alugado, nem sobre o valor que paga pelo imóvel.
Na lista de obras interrompidas, ainda há reparos de unidades espalhadas pelo estado e a contratação de um estudo para a construção de um prédio onde funcionaria o Colégio estadual Jornalista Maurício Azêdo, no Complexo do Caju. A escola, atualmente, funciona dentro de dois contêineres na favela.
— Isso aqui não protege nada. Quando tem tiroteio, a gente fica morrendo de medo — contou um professor.
Com a palavra, a Emop
A Emop afirmou que a causa da paralisação é falta de recursos — provocada pela crise econômica que se instalou no Rio desde 2016. A empresa pública informou que não tem recursos próprios e depende da decisão do governo do estado para tocar as trabalhos.
O órgão alega que não há desperdício de verba, já que algumas obras teriam sido concluídas. A Emop considera como obra pronta o Heliponto do Palácio, a Policlínica da Polícia Civil, o Estádio de Remo da Lagoa e o Hospital de Araruama. Porém, elas não estão 100% finalizadas.
O governador Luiz Fernando Pezão afirma que a crise econômica do estado foi causada pela queda do preço do barril de petróleo, que afetou a arrecadação do estado. Já o juiz da Operação Lava-Jato no Rio, Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal, afirmou em uma das sentenças que condenou o ex-governador Sérgio Cabral que o “custo-corrupção” levou o estado a decretar calamidade pública nas finanças.
Após a aprovação do Regime de Recuperação Fiscal, o governo estuda uma ordem de prioridades para que algumas obras sejam retomadas.
— Uma obra que começa e termina na data certa fica mais barata que aquela que atrasa. Imagina quando ela é interrompida. Porque, para retomar a construção, tem que fazer tantas inspeções que, muitas vezes, do ponto de vista econômico, é melhor derrubar o que já foi feito. Então, a obra, com certeza, vai ficar mais cara quando é interrompida — diz Geraldo Portela, doutor em gerenciamento de risco pela Coppe/UFRJ.(Extra)