2.516 professores acima dos 70 anos que ainda atuam em sala de aula

Em um dia qualquer de 2006, a professora Dilma Martins entrava em seu carro, em Marechal Hermes, quando foi abordada por assaltantes. Um dos homens ordenou que ela entrasse no veículo e estava prestes a dar partida quando seu comparsa reconheceu a vítima e interveio afobado: “Essa não”. Ao olhar para ele, Dilma finalmente identificou o rosto de um ex-aluno.

— Ele gritou para o outro: “Essa não, é minha professora.” Então me disse: “Desculpa, professora”. Isso realmente me marcou muito. Ele tinha tudo para se esconder de mim. De lá para cá eu tive a certeza que nós podemos mudar o comportamento dos nossos alunos. O professor ainda não descobriu a força que tem — conta Dilma, que, no mesmo episódio, recebeu um abraço do ex-estudante.

O relato é apenas uma das histórias que a professora acumula ao longo de seus 51 anos de magistério. Aos 71 anos de idade, Dilma, que dá aula na Escola Municipal Rosa da Fonseca, na Vila Militar, poderia estar aposentada há tempos. No Brasil, assim como ela, outros 2.516 docentes acima de 70 anos continuam à frente de turmas escolares, segundo dados do Censo Escolar compilados pela plataforma “CultivEduca”, do Centro de Formação Continuada de Professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O número corresponde a 0,11% dos 2,1 milhões de docentes em atividade no Brasil. O Rio é a segunda capital do país com maior quantidade de mestres acima dessa idade: são 174 docentes na ativa. Em São Paulo, são 241.

Atualmente, os professores da rede pública que dão aula na educação básica podem se aposentar ao atingir 25 anos de contribuição e idade mínima de 50 anos, no caso das mulheres; e 30 anos de contribuição e 55 anos de idade, no dos homens. A partir dos 75 anos a aposentadoria é compulsória. Caso a reforma da previdência seja aprovada, a idade mínima subirá para 60 anos para todos.

Apesar de atender a todos os requisitos para aposentadoria, Dilma decidiu ficar e, há dez anos, só trabalha com turmas de correção de fluxo escolar. Ou seja, ela dá aula para alunos que repetiram de ano várias vezes e estão com a idade defasada em relação à série que cursariam no ensino regular.

— Tenho alunos que já estavam desistindo de estudar e voltaram, é uma coisa que mexe com o brio deles, com a autoestima — diz.

O estudante Christian Andrade, de 14 anos, é um dos que manifestam sua gratidão:
— Esses dias eu queria parar de estudar. Ela me disse: “não faça isso, estamos no meio do ano, vamos continuar estudando. Falta pouco, não desiste”. O que ela fez por mim ninguém faria.

Fonte:O Globo