14/02/2017 15h35 | Foto: Divulgação
O dinheiro do FGTS que mais de 30 milhões de trabalhadores poderão sacar a partir de março poderá ajudar a reduzir a inadimplência, mas terá um impacto limitado para reaquecer o comércio e a economia. Parte desses recursos será usada para quitar dívidas, enquanto o restante deve ir para o consumo e aplicações financeiras, acreditam economistas de plantão. O governo espera que os saques vão injetar R$ 34 bilhões na economia. O saldo das cerca de 49 milhões de contas do FGTS com direito ao resgate soma hoje R$ 43 bilhões.
“Esse dinheiro não vai entrar necessariamente na economia para consumo. A grande parte dos recursos, até mesmo por se tratar de conta de baixo valor, será usado para o pagamento de dívidas mesmo”, avalia o diretor executivo de Estudos e Pesquisa da Anefac, Miguel José Ribeiro de Oliveira.
A maior parte dos trabalhadores que pode sacar tem saldo menor que R$ 500, diz o governo. Outros 24% têm saldo entre R$ 500 e R$ 1.500. Os dois grupos representam 80% do total de pessoas com direito a sacar o dinheiro. Os demais têm mais de R$ 1.500 a receber.
Consumo e inadimplência – “Como a economia está numa recessão há três anos, as pessoas estão muito endividadas, o desemprego muito alto e a inflação corroeu renda, a maioria desses recursos deve realmente ser canalizada para o pagamento e dívidas”, avalia Oliveira, da Anefac.
Já o economista Jason Vieira acredita que cerca de 50% dos recursos sacados pelos trabalhadores devem ir para o consumo e terão um efeito positivo para as vendas do comércio, que fecharam 2016 com a maior queda em 15 anos. “Esses saques podem ter um efeito de curto prazo na economia, como tiveram outras medidas. Mas ele é temporário”, avalia.
O restante dos recursos sacados, acredita o economista, vai para quitar dívidas e investir. Segundo Vieira, isso pode ajudar a reduzir o alto nível de inadimplência, mas não ainda é suficiente para reverter o atual cenário de crédito. “É um atenuador, na verdade”, acrescenta.
Menos de 1/5 do valor do 13º salário – Ainda que uma parcela possa ser motivada a usar o dinheiro para consumo, a avaliação é que o impacto para a economia será limitado. Para que se tenha uma ideia do montante em jogo, a estimativa de R$ 34 bilhões em saques representa menos de um quinto (17%) do valor que foi injetado na economia no ano passado com o pagamento de 13º salário (R$ 196,7 bilhões).
Para o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, apesar de toda a publicidade feito sobre a liberação dos saques, ainda há dúvidas sobre o valor que efetivamente será sacado das contas, o que dificulta qualquer projeção sobre o impacto desse dinheiro na economia.
“É difícil avaliar quanto, mas do que for sacado a maior parte deverá ser usada para o pagamento de dívidas. Pelo menos é o que seria inteligente”, diz. “Acho que para esse ano não tem nenhum efeito na economia. Em algum momento, a pessoa pode querer se endividar de novo ou aumentar a sua dívida. Mas o efeito será defasado”.
A avaliação geral, entretanto, é de que a medida é oportuna e benéfica para os trabalhadores. “Esses recursos são bem-vindos, mesmo porque estão lá parados, rendendo muito pouco e perdendo para a inflação”, destaca Oliveira.