06/08/2022 16h25, Foto: Divulgação ,

Pessoas vacinadas no passado contra a varíola teriam alguma proteção contra a varíola do macaco (monkeypox) atualmente? Essa é uma pergunta que tanto cientistas como a população têm feito desde que o maior surto da doença começou, em maio deste ano, e se espalhou por mais de 80 países. (leia mais abaixo)


A varíola é uma doença que matou cerca de 500 milhões de pessoas ao longo da história e foi declarada erradicada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 1980, graças aos esforços globais de vacinação iniciados anos antes. (leia mais abaixo)


Naquela mesma época, um primo do vírus causador da varíola havia começado a infectar humanos: o monkeypox. Menos letal, o vírus se tornou endêmico em alguns países da África, como a Nigéria e a República Democrática do Congo. (leia mais abaixo)


O único surto fora do continente africano até então havia sido nos Estados Unidos, em 2003, com 47 casos confirmados em seis estados. A causa: um carregamento de roedores importados de Gana. (leia mais abaixo)


Um dos primeiros indícios de que a vacina contra a varíola pode ter algum efeito contra o vírus monkeypox pôde ser observado naquela ocasião, lembra a virologista Clarissa Damaso, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e membro Comitê Assessor da OMS para Pesquisa com o Vírus da Varíola. (leia mais abaixo)


"Claramente se via que, em uma mesma casa, pessoas que tinham sido vacinadas contra a varíola faziam um quadro mais brando, com menos lesões do que as crianças ou outras pessoas não vacinadas, por exemplo." (leia mais abaixo)


Ela acrescenta que, na Nigéria e na República Democrática do Congo, "a maior parte das pessoas que contraem monkeypox também está abaixo de 40 anos", justamente quem nasceu após a erradicação da varíola e, portanto, quando já não existia mais vacinação. (leia mais abaixo)


Com o passar dos anos, as vacinas antivariólicas deixaram de ser fabricadas no Brasil – e também em boa parte do mundo –, já que não fazia mais sentido imunizar pessoas contra um vírus desaparecido. (leia mais abaixo)


Estrategicamente, países como os Estados Unidos mantiveram estoques desses imunizantes por medo de um ataque biológico. É justamente o estoque que tem sido utilizado neste primeiro momento para tentar frear o surto de varíola do macaco. (leia mais abaixo)


Estou vacinado?

Clarissa conta que o Brasil aplicou vacinas contra a varíola em forma de campanha anual até, mais ou menos, 1975. (leia mais abaixo)


"Aqui, usava-se muito a pistola, que é um injetor da vacina. Eram [repetidas] todo ano aquelas campanhas. Eu lembro que íamos para a escola pública, ficavam vacinando no sábado, domingo, aquelas filas enormes de crianças..." (leia mais abaixo)


Com base na idade, é possível deduzir se você tomou ou não a vacina, mas há outro detalhe mais específico, acrescenta a virologista. (leia mais abaixo)


"Tem como saber, é pela famosa pega. A pega é uma marca deixada pela vacina antivariólica quando se usa vacina de vírus replicante, como é o caso da ACAM2000 atualmente, e como era o caso de todas as vacinas antivariólicas que eram dadas na época. O vírus replica na pele da pessoa no local da inoculação, fica aquela pústula maior do que as de monkeypox, por conta do jeito que é aplicada. Depois que cicatriza, fica a marca, que a gente chama de pega. Em inglês, é o take." (leia mais abaixo)


Segundo a especialista, essa marca geralmente é no braço esquerdo, tem aproximadamente 2,5 cm e representava uma espécie de carteira de vacinação contra a varíola antigamente. (leia mais abaixo)


Além disso, quem tem a cicatriz desenvolveu – pelo menos naquela época – anticorpos contra o vírus da varíola e os do mesmo gênero, os orthopoxvirus, que incluem o da varíola bovina (cowpox) e o vaccínia, por exemplo. (leia mais abaixo)


A virologista afirma que a cicatriz da vacina antivariólica é maior do que a da vacina BCG, contra a tuberculose, aplicada no braço direito, e que muitos jovens têm. (leia mais abaixo)


 Vacina no passado não é garantia

Como o vírus da varíola desapareceu e o monkeypox só teve agora um surto de extensão global, existe uma escassez de informações acerca da duração da imunidade conferida pelas vacinas e do grau de proteção delas contra diferentes orthopoxvirus. (leia mais abaixo)


"O dado hoje de não ter tantas pessoas mais velhas infectadas também sugere que possa estar havendo algum tipo de proteção. Mas é muito cedo [para afirmar algo]. A população que ainda está sendo acometida são jovens, dificilmente isso ainda foi posto à prova de verdade. Espera-se que algum grau de proteção seja conferido pela vacina, mesmo sendo um tipo diferente, mas não se sabe se uma proteção total, parcial e muito menos com longa duração", explica o pediatra infectologista Renato Kfouri, membro da diretoria da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações). (leia mais abaixo)


Um estudo publicado recentemente na revista científica The New England Journal of Medicine demonstrou que a idade média dos pacientes com monkeypox era de 38 anos.


Outro ponto que precisa ser observado, segundo Clarissa Damaso, é a quantidade de doses que cada pessoa tomou no passado. Para alcançar o mesmo nível de imunidade conferido pela doença, eram necessárias três doses.


Dessa forma, muitas pessoas que nasceram a partir de 1975 podem ter tomado apenas uma ou duas doses.


A ausência do contato com um vírus ao longo dos anos também faz com que o efeito das vacinas seja perdido com o tempo, salienta a pesquisadora.


"Sabemos que toda a nossa imunidade é construída não só com as vacinas que já tomamos, mas também pela exposição ao patógeno na nossa vida."


Ela cita, por exemplo, o surto de sarampo no Brasil em 2019, quando pessoas vacinadas começaram a ser infectadas por um vírus que havia sido declarado erradicado do país cerca de três anos antes. Naquela época, foi necessário imunizar novamente uma parcela da população.

Entre para nosso
Grupo WhatsApp

Fique sempre bem informado sobre as últimas notícias!